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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402023
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MPE TO
Ano
2024
Cargo
Ana Min ( )

Trabalho e educação são atividades especificamente humanas. Isso significa que, rigorosamente falando, apenas o ser humano trabalha e educa. Assim, a pergunta sobre os fundamentos ontológicos da relação trabalho -educação traz imediatamente à mente a questão: quais são as características do ser humano que lhe permitem realizar as ações de trabalhar e de educar? Ou: o que é que está inscrito no ser do humano que lhe possibilita trabalhar e educar?


Perguntas desse tipo pressupõem que o ser humano esteja previamente constituído como ser que possui propriedades que lhe permitem trabalhar e educar. Pressupõe-se, portanto, uma definição de ser humano que indique em que ele consiste, isto é, sua característica essencial a partir da qual se possa explicar o trabalho e a educação como atributos desse ser. E, nesse caso, fica aberta a possibilidade de que trabalho e educação sejam considerados atributos essenciais do ser humano, ou acidentais.


Na definição de ser humano mais difundida (animal racional), o atributo essencial é dado pela racionalidade, consoante o significado clássico de definição estabelecido por Aristóteles: uma definição dá-se pelo gênero próximo e pela diferença específica. Pelo gênero próximo, indica-se aquilo que o objeto definido tem em comum com outros seres de espécies diferentes (no caso em tela, o gênero animal); pela diferença específica, indica-se a espécie, isto é, o que distingue determinado ser dos demais que pertencem ao mesmo gênero (no caso do ser humano, a racionalidade). Consequentemente, sendo o ser humano definido pela racionalidade, é esta que assume o caráter de atributo essencial desse ser.


Ora, assim entendido o ser humano, vê-se que, embora trabalhar e educar possam ser reconhecidos como atributos humanos, eles o são em caráter acidental, e não substancial. Com efeito, o mesmo Aristóteles, considerando como próprio do ser humano o pensar, o contemplar, reputa o ato produtivo, o trabalho, como uma atividade não digna de seres humanos livres.


Diversamente, Bergson, ao analisar o desenvolvimento do impulso vital na obra Evolução criadora, observa que “torpor vegetativo, instinto e inteligência” são os elementos comuns às plantas e aos animais. E, definindo a inteligência pela fabricação de objetos, fenômeno identificado como comum aos animais, encontra no ser humano a particularidade da fabricação de objetos artificiais, o que lhe permite avançar à seguinte conclusão: “Se pudéssemos nos despir de todo orgulho, se, para definir nossa espécie, nos ativéssemos estritamente ao que a história e a pré-história nos apresentam como a característica constante do ser humano e da inteligência, talvez não disséssemos Homo sapiens, mas Homo faber. Em conclusão, a inteligência, encarada no que parece ser o seu empenho original, é a faculdade de fabricar objetos artificiais, sobretudo ferramentas para fazer ferramentas, e de diversificar ao infinito a fabricação delas.”.


Demerval Saviani. Trabalho e educação:

fundamentos ontológicos e históricos. Internet: <www.scielo.br> (com adaptações).

Texto 11A1

 

Em relação às ideias apresentadas no texto 11A1 e às relações de coerência nele presentes, julgue o item que se segue.

 

De acordo com o parágrafo final, a ideia principal de Bergson acerca da característica fundante dos seres humanos está relacionada à possibilidade de criação que essa espécie apresenta.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A ideia central de Bergson no parágrafo final

Gabarito: C — CERTO. A afirmação está correta porque o parágrafo final apresenta a tese de Bergson de que a característica fundante do ser humano é a capacidade de fabricar objetos artificiais, ou seja, a criação. O texto é explícito ao citar a conclusão de Bergson: “a inteligência, encarada no que parece ser o seu empenho original, é a faculdade de fabricar objetos artificiais, sobretudo ferramentas para fazer ferramentas, e de diversificar ao infinito a fabricação delas”.

O comando

A questão pede que você julgue se a afirmação está de acordo com o parágrafo final. Isso é uma tarefa de compreensão (localizar e reconhecer a ideia principal), não de inferência. Você não precisa deduzir nada além do que está escrito: basta identificar o núcleo do que Bergson defende e comparar com a assertiva.

O texto e a tese de Bergson

O texto todo discute os fundamentos ontológicos da relação trabalho-educação. No parágrafo final, o autor apresenta a visão de Bergson, que diverge da definição clássica de ser humano como animal racional. Bergson propõe que a inteligência humana se caracteriza pela fabricação de objetos artificiais — e por isso sugere que, em vez de Homo sapiens, deveríamos nos chamar Homo faber (o homem que faz).

A passagem decisiva é:

“Se pudéssemos nos despir de todo orgulho, se, para definir nossa espécie, nos ativéssemos estritamente ao que a história e a pré-história nos apresentam como a característica constante do ser humano e da inteligência, talvez não disséssemos Homo sapiens, mas Homo faber. Em conclusão, a inteligência, encarada no que parece ser o seu empenho original, é a faculdade de fabricar objetos artificiais, sobretudo ferramentas para fazer ferramentas, e de diversificar ao infinito a fabricação delas.”

A expressão “característica constante do ser humano” e a definição de inteligência como “faculdade de fabricar” mostram que, para Bergson, o que funda o humano é a criação — a capacidade de produzir algo novo, artificial. A assertiva do item diz exatamente isso: “a ideia principal de Bergson acerca da característica fundante dos seres humanos está relacionada à possibilidade de criação que essa espécie apresenta”.

A técnica: separar o essencial do acessório

Ao ler um parágrafo, pergunte: qual é a tese? No parágrafo final, a tese é a definição de inteligência como fabricação. Os detalhes sobre “torpor vegetativo, instinto e inteligência” ou a referência a Evolução criadora são contexto — servem para situar a discussão, mas não são a ideia principal. A assertiva captura o núcleo: a criação como característica fundante.

Por que o item está CERTO

  • O texto afirma que a característica constante do ser humano é a fabricação de objetos artificiais.

  • “Fabricar” é sinônimo de criar.

  • A assertiva diz que a ideia principal está relacionada à possibilidade de criação.

  • Há correspondência direta entre “fabricação” e “criação”.

Não há nenhuma informação no texto que contrarie a assertiva. Ela é uma paráfrase fiel da tese de Bergson.

  1. 1Localizar a tese do parágrafo
  2. 2Comparar com a assertiva
  3. 3Verificar se é paráfrase fiel
  4. 4Julgar certo ou errado
LEVEL · soulevel.com.br
NÃO CAIA NESSA!

A banca poderia tentar confundir com detalhes periféricos (como a menção a Aristóteles ou a “torpor vegetativo”), mas aqui a assertiva é direta e correta. Fique atento: em itens de certo/errado, qualquer palavra que restrinja ou amplie demais o sentido do texto tornaria o item errado. Neste caso, “possibilidade de criação” é exatamente o que Bergson defende.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens de compreensão, sublinhe no texto a frase que contém a tese do parágrafo. Se a assertiva for uma paráfrase dessa tese, está correta. Se trouxer informação que o texto não diz, está errada.

Conclusão: o item está CERTO, pois a ideia central de Bergson no parágrafo final é, de fato, a criação — a fabricação de objetos artificiais — como característica fundante do ser humano.

Gabarito: C — CERTO.

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