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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
ce402028
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MPE TO
Ano
2024
Cargo
Ana Min ( )

Trabalho e educação são atividades especificamente humanas. Isso significa que, rigorosamente falando, apenas o ser humano trabalha e educa. Assim, a pergunta sobre os fundamentos ontológicos da relação trabalho -educação traz imediatamente à mente a questão: quais são as características do ser humano que lhe permitem realizar as ações de trabalhar e de educar? Ou: o que é que está inscrito no ser do humano que lhe possibilita trabalhar e educar?


Perguntas desse tipo pressupõem que o ser humano esteja previamente constituído como ser que possui propriedades que lhe permitem trabalhar e educar. Pressupõe-se, portanto, uma definição de ser humano que indique em que ele consiste, isto é, sua característica essencial a partir da qual se possa explicar o trabalho e a educação como atributos desse ser. E, nesse caso, fica aberta a possibilidade de que trabalho e educação sejam considerados atributos essenciais do ser humano, ou acidentais.


Na definição de ser humano mais difundida (animal racional), o atributo essencial é dado pela racionalidade, consoante o significado clássico de definição estabelecido por Aristóteles: uma definição dá-se pelo gênero próximo e pela diferença específica. Pelo gênero próximo, indica-se aquilo que o objeto definido tem em comum com outros seres de espécies diferentes (no caso em tela, o gênero animal); pela diferença específica, indica-se a espécie, isto é, o que distingue determinado ser dos demais que pertencem ao mesmo gênero (no caso do ser humano, a racionalidade). Consequentemente, sendo o ser humano definido pela racionalidade, é esta que assume o caráter de atributo essencial desse ser.


Ora, assim entendido o ser humano, vê-se que, embora trabalhar e educar possam ser reconhecidos como atributos humanos, eles o são em caráter acidental, e não substancial. Com efeito, o mesmo Aristóteles, considerando como próprio do ser humano o pensar, o contemplar, reputa o ato produtivo, o trabalho, como uma atividade não digna de seres humanos livres.


Diversamente, Bergson, ao analisar o desenvolvimento do impulso vital na obra Evolução criadora, observa que “torpor vegetativo, instinto e inteligência” são os elementos comuns às plantas e aos animais. E, definindo a inteligência pela fabricação de objetos, fenômeno identificado como comum aos animais, encontra no ser humano a particularidade da fabricação de objetos artificiais, o que lhe permite avançar à seguinte conclusão: “Se pudéssemos nos despir de todo orgulho, se, para definir nossa espécie, nos ativéssemos estritamente ao que a história e a pré-história nos apresentam como a característica constante do ser humano e da inteligência, talvez não disséssemos Homo sapiens, mas Homo faber. Em conclusão, a inteligência, encarada no que parece ser o seu empenho original, é a faculdade de fabricar objetos artificiais, sobretudo ferramentas para fazer ferramentas, e de diversificar ao infinito a fabricação delas.”.


Demerval Saviani. Trabalho e educação:

fundamentos ontológicos e históricos. Internet: <www.scielo.br> (com adaptações).

Texto 11A1

 

Julgue o item subsequente, a respeito do modo de encadeamento e de retomada das ideias ao longo do texto 11A.

 

A expressão “isto é”, empregada no segundo período do segundo parágrafo e no segundo período do terceiro parágrafo, anuncia uma retificação do que foi dito imediatamente antes em cada um dos períodos.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O valor de “isto é” no texto: retificação ou explicação?

Gabarito: ERRADO. A expressão “isto é”, nos dois trechos indicados, não anuncia retificação do que foi dito antes; ela introduz uma explicação, um esclarecimento do termo ou ideia imediatamente anterior. A banca troca o valor semântico do conectivo: o que era explicação foi rotulado como retificação.

No segundo parágrafo, o autor escreve: “Pressupõe-se, portanto, uma definição de ser humano que indique em que ele consiste, isto é, sua característica essencial a partir da qual se possa explicar o trabalho e a educação como atributos desse ser.” Aqui, “isto é” parafraseia e detalha o que vem antes — “em que ele consiste” é reexplicado como “sua característica essencial”. Não há correção de um erro; há um esclarecimento.

No terceiro parágrafo, lê-se: “Pelo gênero próximo, indica-se aquilo que o objeto definido tem em comum com outros seres de espécies diferentes (no caso em tela, o gênero animal); pela diferença específica, indica-se a espécie, isto é, o que distingue determinado ser dos demais que pertencem ao mesmo gênero.” Novamente, “isto é” explica o que é “espécie”, não corrige o que foi dito.

“Pressupõe-se, portanto, uma definição de ser humano que indique em que ele consiste, isto é, sua característica essencial a partir da qual se possa explicar o trabalho e a educação como atributos desse ser.”

“pela diferença específica, indica-se a espécie, isto é, o que distingue determinado ser dos demais que pertencem ao mesmo gênero.”

A retificação seria marcada por conectivos como “ou melhor”, “ou antes”, “melhor dizendo”, que sinalizam uma correção do enunciado anterior. “Isto é” é um conectivo explicativo, equivalente a “ou seja”, “em outras palavras”, “por outras palavras”. Ele retoma a ideia anterior e a reformula para torná-la mais clara, sem negá-la ou corrigi-la.

A técnica que decide

O comando pede que se julgue o modo de encadeamento e retomada das ideias. A questão é de coesão sequencial: qual relação o conectivo estabelece entre as partes? Para responder, basta substituir mentalmente “isto é” por seus equivalentes:

  • Se couber “ou seja” ou “em outras palavras” → relação de explicação.

  • Se couber “ou melhor” ou “melhor dizendo” → relação de retificação.

Nos dois trechos, a substituição por “ou seja” é perfeita e preserva o sentido. A substituição por “ou melhor” soaria estranha, pois não há nada a corrigir — o autor apenas detalha o que disse.

O erro da banca

A banca trocou o conceito: chamou de “retificação” o que é “explicação”. É uma pegadinha clássica de troca de termo — o candidato que sabe que “isto é” explica, mas não confere o valor no texto, pode ser induzido a marcar “Certo”. A palavra “retificação” é o termo-armadilha: ela parece plausível, pois “isto é” também retoma algo, mas retomar não é corrigir.

"Isto é" (conectivo)
  • 1Valor semântico
    • Explicação
      • "ou seja"
      • "em outras palavras"
      • parafraseia e detalha
    • Retificação
      • "ou melhor"
      • "ou antes"
      • corrige o que foi dito
  • 2No texto
    • Explica (não retifica)
      • 2º parágrafo
        • "em que consiste" → "característica essencial"
      • 3º parágrafo: "espécie" → "o que distingue"
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NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre explicar e retificar. “Isto é” explica, esclarece, parafraseia; “retificação” seria uma correção do que foi dito. O conectivo que marca retificação é “ou melhor”, “ou antes”.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar o valor de um conectivo, substitua-o por sinônimos e veja se o sentido se mantém. Se “ou seja” funciona, é explicação; se “ou melhor” funciona, é retificação.

Conclusão: a afirmação está errada porque atribui a “isto é” um valor de retificação que ele não tem no texto. O conectivo, nos dois períodos, introduz uma explicação do termo anterior. Gabarito: ERRADO.

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