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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402084
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
ANA
Ano
2024
Cargo
ERRHSB ( )

O Comentário Geral n.º 15 do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (CDESC) da ONU é claro ao apontar para a necessidade de proteger os ecossistemas, em especial o aquático, contra a poluição, pois ter acesso a uma água poluída não representa, de fato, o gozo do direito humano à água. Nessas condições, há risco de comprometimento imediato da saúde individual e coletiva, o que afeta outros direitos humanos, como o direito à saúde e ao bem-estar. Antes disso, a Agenda 21, aprovada na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), em 1992, recomendou que se preservem as funções hidrológicas, biológicas e químicas dos ecossistemas, para que se assegure água com qualidade.


Em uma perspectiva menos antropocêntrica e mais ecocêntrica, em 2000, a Declaração da 4.ª Cúpula do P7, composto dos sete países mais pobres do mundo, em seu primeiro princípio, trouxe a ideia de que a água é uma fonte de vida não substituível, a que todos os seres vivos têm direito, e sua conservação seria uma responsabilidade coletiva fundamental.


A mesma declaração complementa o raciocínio, defendendo a necessidade de as culturas que defendem a água como um bem comum serem protegidas e reinventadas. E, nesse ponto, a Declaração da 4.ª Cúpula do P7 e o Comentário Geral n.º 15 do CDESC convergem entre si, pois este último se refere à preocupação com o respeito à cultura e o acesso à água, nas formas tradicionais de uso por comunidades antigas e originárias, o que valoriza o componente da independência no conceito de segurança hídrica. O que aqui se chama simplisticamente de independência corresponde na verdade à minimização de uma relação de dependência e sujeição, por meio de mecanismos formais de cooperação, tanto interbacias como intrabacias hidrográficas. O quarto princípio da Declaração da 4.ª Cúpula do P7 afirma que “a água deve contribuir para a solidariedade entre comunidades, países, sociedades, gerações e sexos”. Ao mesmo tempo reconhece que a água doce é distribuída de forma desigual em torno da Terra, e afirma que isso não deve ser utilizado como fator de exercício de poder.


Carlos Hiroo Saito. Segurança hídrica e direito humano à água.

In: Ruscheinsky, Calgaro & Weber. Ética, direito socioambiental e democracia. Caxias do Sul: Educs, 2018, p. 100-101 (com adaptações).

Texto CB1A1

 

Com base nas ideias veiculadas no texto CB1A1, julgue o item a seguir.

 

O texto apresenta uma crítica ao conceito de segurança hídrica presente no Comentário n.º 15 do CDESC por este adotar uma noção simplista de independência.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crítica ao conceito de segurança hídrica no Comentário n.º 15 do CDESC

Gabarito: letra E (ERRADO). O texto não apresenta crítica ao Comentário n.º 15 do CDESC por suposta noção simplista de independência; ao contrário, o autor elogia a convergência entre o Comentário e a Declaração da 4.ª Cúpula do P7, e a expressão “simplisticamente” é usada para introduzir uma explicação mais aprofundada do que ele mesmo chama de independência, não para desqualificar o documento. A passagem decisiva é: “o que aqui se chama simplisticamente de independência corresponde na verdade à minimização de uma relação de dependência e sujeição”.

O comando: compreensão × inferência

O enunciado pede para julgar (certo/errado) uma afirmação sobre as ideias do texto. Isso é tarefa de compreensão: a resposta deve estar explícita ou diretamente sustentada no texto, sem deduções livres. A afirmação do item é: “O texto apresenta uma crítica ao conceito de segurança hídrica presente no Comentário n.º 15 do CDESC por este adotar uma noção simplista de independência.” Para julgar, precisamos verificar duas coisas: (1) o texto critica o Comentário n.º 15? (2) o texto chama a noção de independência de “simplista” em tom de crítica?

O texto: convergência, não crítica

O texto não critica o Comentário n.º 15. Veja o movimento argumentativo:

  • No 3º parágrafo, o autor afirma que a Declaração da 4.ª Cúpula do P7 e o Comentário Geral n.º 15 convergem entre si:

“a Declaração da 4.ª Cúpula do P7 e o Comentário Geral n.º 15 do CDESC convergem entre si, pois este último se refere à preocupação com o respeito à cultura e o acesso à água”

  • A palavra “convergem” indica concordância, não oposição ou crítica.

  • Em seguida, o autor explica o que entende por “independência” no conceito de segurança hídrica:

“O que aqui se chama simplisticamente de independência corresponde na verdade à minimização de uma relação de dependência e sujeição, por meio de mecanismos formais de cooperação”

A expressão “simplisticamente” é usada pelo próprio autor para se referir à sua própria simplificação inicial do termo — ele mesmo admite que está simplificando para depois aprofundar. Não há crítica ao Comentário n.º 15; há uma explicação didática do autor.

A técnica: identificar o alvo da crítica e o tom

A pegadinha central é trocar o alvo da crítica e inverter o tom. O item diz que o texto critica o Comentário n.º 15; mas o texto elogia a convergência e usa “simplisticamente” como recurso de autoexplicação, não como juízo negativo sobre o documento. Para resolver, pergunte: quem é criticado? O que é chamado de simplista? A resposta: nada é criticado; o autor apenas explica seu próprio uso do termo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A afirmação de que o texto apresenta crítica ao Comentário n.º 15 é falsa. O texto diz que os dois documentos convergem e valoriza o Comentário por sua preocupação com a cultura e o acesso à água. A palavra “simplisticamente” não é dirigida ao Comentário, mas sim à própria simplificação do autor ao introduzir o conceito. O item extrapola e inverte o sentido: transforma uma explicação didática em crítica e desloca o alvo da suposta crítica.

Alternativa E — ✅ Correta (Gabarito)

O item está errado porque o texto não critica o Comentário n.º 15. A passagem que prova é a da convergência e a explicação do autor sobre “simplisticamente”. O texto é favorável ao Comentário, e a noção de independência é apresentada como algo que o autor explica melhor, não como algo que ele rejeita.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de certo/errado, identifique quem é o sujeito da ação (quem critica, quem elogia) e qual é o objeto (o que é criticado). Aqui, o autor não critica ninguém; ele apenas explica seu próprio uso do termo.

Conclusão: o item é ERRADO porque atribui ao texto uma crítica que ele não faz. O texto converge com o Comentário n.º 15 e usa “simplisticamente” como recurso explicativo, não como desqualificação. Gabarito: letra E.

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