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Questão de Português — Conjunção — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsConjunção
Código
ce402105
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MPE GO
Ano
2024
Cargo
Ana MP ( )

Quando se fala que o surgimento da escrita não foi apenas a aquisição de mais um modo de expressão, mas também uma revolução, é porque ela mudou toda uma forma de organizar os pensamentos. Na cultura oral, a memória é que determina o conhecimento, portanto só sabemos o que podemos recordar, como pontuou o filósofo e historiador cultural Walter Ong. Dessa forma, o pensamento foi moldado a partir da repetição oral, dos padrões rítmicos ou de alguma forma mnemônica, e de um ritmo mais lento na evolução dos acontecimentos.


Quando o suporte sai do corpo da pessoa e vai para a argila, a cerâmica, a pedra, mais tarde para o pergaminho e o papel — suportes que criam a possibilidade de a pessoa retomar a leitura para relembrar ou refletir sobre um acontecimento —, a própria elaboração do pensamento e a transmissão do conhecimento são afetadas. Para além disso, sendo a leitura em suporte escrito uma atividade individualizada, solitária na maioria das vezes, ela modifica a relação de comunicação que se tinha antes na cultura oral, na qual há unidade entre quem fala e quem ouve.


O resultado disso teria sido tão impactante que Ong classifica a escrita como uma tecnologia ainda mais extrema que a impressão e os computadores, por exemplo. “A escrita, a impressão e os computadores são todos meios de tecnologizar a palavra. A escrita é, de certo modo, a mais drástica das três tecnologias. Ela iniciou o que a impressão e os computadores apenas continuam, a redução do som dinâmico a um espaço mudo, o afastamento da palavra em relação ao presente vivo, único lugar em que as palavras faladas podem existir. Ao contrário da linguagem natural, oral, a escrita é inteiramente artificial”, escreveu ele.


Renata Penzani. Por que a escrita é a grande revolução

da humanidade? Internet: <www.companhiadasletras.com.br> (com adaptações).

Julgue o item seguinte, relativo ao sentidos e a aspectos linguísticos do texto precedente.   No primeiro período do primeiro parágrafo, o segmento “mas também” correlaciona ideias que se opõem, visto que o vocábulo “mas” veicula noção de oposição.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O valor de “mas também” no primeiro período

Gabarito: ERRADO. O item afirma que “mas também” correlaciona ideias que se opõem, mas, no trecho, a locução tem valor aditivo, não adversativo. A prova está na própria estrutura: “não foi apenas… mas também…” — o “mas também” soma uma segunda característica à primeira, em vez de opor-se a ela. Como se lê no texto: “o surgimento da escrita não foi apenas a aquisição de mais um modo de expressão, mas também uma revolução”.

O comando

A questão pede um julgamento Certo/Errado sobre o sentido de um conectivo. Isso é tarefa de semântica contextual: não basta saber que “mas” isolado é adversativo; é preciso ver como ele funciona na expressão correlativa “não só… mas também”. O comando exige que você analise a relação entre as ideias que o conectivo estabelece no texto — e não a classificação isolada da palavra.

O texto

O primeiro parágrafo defende que a escrita foi uma revolução porque mudou a organização do pensamento. O período citado apresenta duas qualificações da escrita: ela foi “a aquisição de mais um modo de expressão” e “uma revolução”. A segunda ideia acrescenta-se à primeira, não a contradiz. O autor não diz “a escrita foi apenas um modo de expressão, mas (ao contrário) uma revolução” — ele diz “não foi apenas X, mas também Y”, ou seja, X e Y coexistem.

A técnica que decide

A locução “não só… mas também” (e suas variantes “não apenas… mas também”, “não somente… como também”) é uma correlação aditiva: ela soma dois elementos, dando ênfase ao segundo. O “mas” aqui não tem valor de oposição; ele funciona como partícula de realce dentro da correlação. Compare:

Estrutura

Valor

Exemplo

“mas” isolado

Oposição (adversativa)

“Estudou, mas não passou.”

“não só… mas também”

Adição (aditiva)

“Ela é não só bela, mas também inteligente.”

No texto, a substituição por “e” mantém o sentido: “a escrita não foi apenas um modo de expressão, e sim uma revolução” — o que confirma a adição. Se fosse oposição, o sentido seria “a escrita foi um modo de expressão, porém uma revolução”, o que não faz sentido lógico (uma coisa não exclui a outra).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o valor isolado de “mas” (adversativo) e o valor da locução correlativa “não só… mas também” (aditivo). No contexto, o “mas” não veicula oposição — ele integra uma estrutura de soma.

Análise do item

Item — ❌ Errado ⟵ GABARITO

O item afirma: “o segmento ‘mas também’ correlaciona ideias que se opõem, visto que o vocábulo ‘mas’ veicula noção de oposição”. Há dois erros:

  1. A relação não é de oposição. No texto, “não foi apenas… mas também” adiciona a ideia de “revolução” à de “modo de expressão”. O autor não contrapõe as duas; ele as acumula.

  2. O “mas” não veicula oposição nesse contexto. Em “não só… mas também”, o “mas” perde o valor adversativo e passa a integrar uma correlação aditiva. A gramática tradicional reconhece esse uso: o “mas” pode ter valor aditivo quando equivale a “e também”, “além disso”.

Portanto, a justificativa apresentada (“visto que o vocábulo ‘mas’ veicula noção de oposição”) é falsa — o “mas” aqui não veicula oposição.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar conectivos, não decore o valor isolado — observe sempre a expressão completa e o contexto. “Mas” pode ser adversativo (“mas”) ou aditivo (“mas também”, “não só… mas também”). Teste a substituição: se “e” mantém o sentido, é adição; se “porém” mantém, é oposição.

Conclusão

O item está errado porque atribui valor de oposição a uma locução que, no contexto, tem valor de adição. A banca testa justamente a diferença entre o “mas” isolado e o “mas” correlativo. Lembre-se: “não só… mas também” = soma, não contraste.

Gabarito: ERRADO.

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