— Afinador de piano, em excursão, vinte e cinco mil-réis.
— Quanto?
— Vinte e cinco mil.
— É exagero.
Às vezes o afinador não ganha isso durante a viagem. O Juca Silveira me contou. A principal fonte de renda dele é a criação de perus. E já paga imposto de indústria eprofissão...
— Bem, se nós formos indagar dos contribuintes quanto é que eles querem pagar, a tesouraria fica sem recursos para comprar um maço de velas quando faltar luz. Seria preferível que eles mesmos fizessem o lançamento.
A Câmara Municipal discutia o orçamento para 1920, e os dois vereadores ponderavam ponto por ponto cada título da receita. O município é pobre, arrecada setenta e dois contos por ano. Houve praga na lavoura; deu peste no gado; o empréstimo para instalação de luz elétrica vence juros penosos. Para atender ao serviço de estradas, à instrução, às eleições, ao funcionalismo, a tanto compromisso, torna-se imperioso lançar novos impostos, criar taxas inéditas, como essa de afinador. Mas piano — quantos pianos terá o município? Quinze, no máximo; dos quais apenas uns cinco nos distritos: a taxa talvez não produza cinquenta mil-réis. Uma ninharia, meu caro!
No calor da sala, os vereadores tentam reerguer as finanças públicas. Salão muito quente, com efeito. Dá para a frente da praça, que recolhe o sol da tarde, ao passo que a outra sala, olhando para a montanha e o vale profundo, recebe uma doce brisa, em que narinas mais apuradas distinguem o perfume de árvores distantes, e os caçadores chegam a identificar um cheiro de anta. No inverno, sim, a sala das sessões recomenda-se pelo aconchego — mas o orçamento é feito naquela época do anoem que as cigarras estouram, e secam os córregos.
— Barbeiro com uma só cadeira, vinte mil-réis na cidade; em outros lugares, dezoito mil. Cada mão de engenho de mineração, quando fabricada no país...
Carlos Drummond de Andrade. Câmara e cadeia. In: Contos de aprendiz. Companhia das Letras (com adaptações).
Texto CG3A1
No terceiro período do sétimo parágrafo do texto CG3A1, o vocábulo “que”, no trecho “em que narinas mais apuradas distinguem o perfume de árvores distantes”, retoma
A“doce brisa”.
B“praça”.
C“outra sala”.
D“vale profundo”.
E“montanha”.
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GabaritoA — “doce brisa”.
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Pronome relativo “que” e seu antecedente
Gabarito: letra A. No trecho “em que narinas mais apuradas distinguem o perfume de árvores distantes”, o vocábulo “que” é um pronome relativo que retoma “doce brisa”, pois a oração adjetiva introduzida por ele caracteriza exatamente esse substantivo, como se lê no texto: “a outra sala, olhando para a montanha e o vale profundo, recebe uma doce brisa, em que narinas mais apuradas distinguem o perfume de árvores distantes”. A banca testa a habilidade de identificar o referente de um pronome relativo, uma questão clássica de coesão referencial.
O comando da questão
O enunciado pede que se identifique o antecedente do pronome relativo “que”. Isso é uma tarefa de compreensão textual aplicada à gramática: não se trata de interpretar um sentido figurado, mas de rastrear, no próprio texto, a que termo o pronome se refere. A técnica é simples: o pronome relativo sempre retoma um termo imediatamente anterior (ou próximo) na oração, e a oração que ele introduz funciona como um adjetivo desse termo.
O texto e a localização da resposta
No trecho em questão, o autor descreve duas salas da Câmara: uma que dá para a praça e outra que recebe uma brisa. A passagem relevante é:
“a outra sala, olhando para a montanha e o vale profundo, recebe uma doce brisa, em que narinas mais apuradas distinguem o perfume de árvores distantes”
A oração “em que narinas mais apuradas distinguem o perfume de árvores distantes” especifica onde as narinas distinguem o perfume: na doce brisa. O pronome relativo “que”, precedido da preposição “em”, equivale a “na qual” e retoma “doce brisa”. Não há outra possibilidade: “praça”, “outra sala”, “montanha” e “vale profundo” aparecem antes, mas a oração adjetiva não se refere a eles — ela qualifica a brisa.
A técnica que decide
Para resolver questões de pronome relativo, siga estes passos:
Identifique o pronome relativo (que, o qual, cujo, onde, etc.).
Veja o que vem imediatamente antes — o antecedente costuma ser o termo mais próximo, mas confirme com o sentido.
Substitua o pronome pelo suposto antecedente e veja se a oração faz sentido. Ex.: “em que narinas distinguem” → “na doce brisa narinas distinguem” → faz sentido.
Cuidado com a preposição: “em que” = “na qual”, o que reforça a ideia de lugar ou meio.
Aqui, a preposição “em” é exigida pelo verbo “distinguir” (distinguir algo em algum lugar) e o pronome relativo “que” retoma o termo que indica esse lugar: a brisa.
Análise das alternativas
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A está correta. O pronome relativo “que” retoma “doce brisa”, como provado pela passagem citada. A oração “em que narinas mais apuradas distinguem o perfume de árvores distantes” é uma oração subordinada adjetiva restritiva que caracteriza a brisa: é na brisa que as narinas distinguem o perfume. Substituindo: “recebe uma doce brisa, na qual narinas mais apuradas distinguem o perfume de árvores distantes”. Perfeito.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B está incorreta. “Praça” aparece no texto como “Dá para a frente da praça, que recolhe o sol da tarde”, mas a oração “em que narinas...” não se refere à praça. A praça é o local que recebe o sol, não onde as narinas distinguem perfume. A banca tenta confundir com um termo próximo, mas o sentido não autoriza.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C está incorreta. “Outra sala” é o sujeito da oração principal (“a outra sala... recebe uma doce brisa”), mas o pronome relativo não retoma “sala”; retoma o objeto direto “doce brisa”. A oração adjetiva não caracteriza a sala, mas sim a brisa que ela recebe.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D está incorreta. “Vale profundo” aparece na expressão “olhando para a montanha e o vale profundo”, mas não é o antecedente. A oração “em que narinas...” não se refere ao vale; refere-se à brisa que a sala recebe. O vale é apenas um elemento da paisagem.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E está incorreta. “Montanha” também aparece na mesma expressão, mas não é o antecedente. A oração adjetiva não caracteriza a montanha; caracteriza a brisa. A banca oferece termos que estão no mesmo parágrafo, mas o pronome relativo sempre retoma o termo mais próximo e semanticamente compatível.
Conclusão
A questão exige atenção à coesão referencial: o pronome relativo “que” retoma o termo imediatamente anterior e semanticamente compatível. Aqui, “doce brisa” é o único termo que faz sentido com a oração “em que narinas distinguem perfume”. As demais alternativas são distratores que exploram a proximidade textual, mas não o sentido.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar o antecedente de um pronome relativo, substitua o pronome pelo termo suspeito e veja se a oração continua lógica. Se “em que” = “na qual”, o antecedente deve ser um lugar ou meio — aqui, a brisa.