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Questão de Português — Crase — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsCrase
Código
ce402250
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
CNJ
Ano
2024
Cargo
AJ
    O senso comum é acumulado ao longo da vida de cada um de nós e acaba sendo transmitido de geração em geração. É um tipo de conhecimento não científico, formado pelas nossas impressões subjetivas sobre o mundo, fruto das nossas experiências pessoais. 

    Embora esse seja um tipo de conhecimento popular e prático que nos orienta no dia a dia, por não ser testado, verificado ou analisado por uma metodologia científica, permanece um alto grau de incerteza sobre a sua validade, ou seja, é um conhecimento tradicionalmente bem aceito, que pode ou não estar correto ou em consonância com a realidade. Trata-se, contudo, apenas de um mito, assim como muitos outros ensinados e perpetuados pela força da tradição e da crença, tal qual afirma Tolstói em sua obra Uma confissão: “Sei que a maior parte dos homens raramente são capazes de aceitar as verdades mais simples e óbvias se essas os obrigarem a admitir a falsidade das conclusões que eles, orgulhosamente, ensinaram aos outros, e que teceram, fio por fio, trançando-as no tecido da própria vida.”.

    É claro que a maioria das pessoas reconhece também que a ciência é importante e necessária, mas, ainda assim, temos dificuldade em abrir mão das nossas crenças e do nosso senso comum, mesmo quando necessário. Tendemos a nos manter fiéis àquilo que “testemunhamos com nossos próprios olhos”.

    Confiar nos “nossos olhos” — na nossa percepção pessoal — é um processo natural e compreensível, uma vez que essa é a ferramenta com que somos equipados “de fábrica” e que nos ajudou a sobreviver até aqui ao longo da nossa evolução. 

André Demambre Bacchi. Afinal, o que é ciência: ... E o que não é? São Paulo: Editora Contexto, 2024, p. 10-11 (com adaptações). 
Julgue o item subsequente, referente às características textuais e aos aspectos linguísticos do texto precedente, bem como às ideias nele veiculadas.   O emprego do sinal indicativo de crase em “àquilo” (segundo período do terceiro parágrafo) é facultativo.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crase em “àquilo” — obrigatória ou facultativa?

Gabarito: ERRADO (item E). O emprego do sinal indicativo de crase em “àquilo” é obrigatório, não facultativo, pois ocorre a fusão da preposição “a”, exigida pelo verbo “manter-se fiel” (quem se mantém fiel, mantém-se fiel a algo), com o “a” inicial do pronome demonstrativo “aquilo”. Como se lê no terceiro parágrafo: “Tendemos a nos manter fiéis àquilo que ‘testemunhamos com nossos próprios olhos’.” A crase aqui não é uma escolha do escritor; é uma exigência da regência verbal somada à presença do pronome demonstrativo.

O comando da questão

O enunciado pede um julgamento Certo/Errado sobre uma afirmação gramatical: “O emprego do sinal indicativo de crase em ‘àquilo’ (segundo período do terceiro parágrafo) é facultativo.” A tarefa é classificar a natureza da crase — se é facultativa ou obrigatória — e, para isso, é preciso analisar a estrutura do trecho no texto. Não se trata de interpretação de sentido, mas de aplicação de regra gramatical a um caso concreto.

O texto e o trecho relevante

O texto discute a relação entre senso comum e ciência, defendendo que tendemos a confiar mais na percepção pessoal do que no conhecimento científico. No terceiro parágrafo, o autor afirma:

“Tendemos a nos manter fiéis àquilo que ‘testemunhamos com nossos próprios olhos’.”

A expressão “àquilo” é formada pela contração da preposição “a” com o pronome demonstrativo “aquilo”. Para decidir se a crase é facultativa ou obrigatória, é preciso verificar:

  1. Se há preposição: o verbo “manter-se fiel” exige complemento com a preposição “a” — quem se mantém fiel, mantém-se fiel a alguma coisa.

  2. Se há pronome demonstrativo iniciado por “a”: “aquilo” começa com “a”, e a preposição “a” se funde com esse “a” inicial, formando “àquilo”.

Como os dois elementos estão presentes e são obrigatórios (a preposição é exigida pela regência; o pronome é o termo regido), a crase é obrigatória. Não há nenhuma regra que torne facultativo o uso da preposição antes de “aquilo” — diferente do que ocorre, por exemplo, antes de nomes próprios femininos ou de pronomes possessivos adjetivos.

A regra que decide: crase antes de pronomes demonstrativos

A crase é a fusão de duas vogais idênticas: a preposição “a” + o artigo “a” ou o “a” inicial de pronomes demonstrativos (“aquele”, “aquela”, “aquilo”). Quando o verbo ou o nome exige a preposição “a” e o termo seguinte é um pronome demonstrativo iniciado por “a”, a crase é obrigatória.

Situação

Exemplo

Crase

Preposição “a” + pronome demonstrativo “aquilo”

“Refiro-me àquilo que disse.”

Obrigatória

Preposição “a” + pronome demonstrativo “aquele”

“Vou àquele lugar.”

Obrigatória

Preposição “a” + pronome possessivo feminino

“Refiro-me a/à minha amiga.”

Facultativa

Preposição “a” + nome próprio feminino

“Entreguei o livro a/à Maria.”

Facultativa

No caso de “àquilo”, não há facultatividade: a preposição é exigida pelo verbo e o pronome “aquilo” sempre admite a contração. Não existe a possibilidade de escrever “a aquilo” sem crase em contexto de regência — a forma correta é sempre “àquilo”.

Análise do item

Item — ❌ ERRADO

A afirmação de que o emprego da crase em “àquilo” é facultativo está incorreta. A crase é obrigatória porque:

  • O verbo “manter-se fiel” exige a preposição “a” (quem se mantém fiel, mantém-se fiel a algo).

  • O termo seguinte é o pronome demonstrativo “aquilo”, que começa com “a”.

  • A fusão da preposição com o “a” do pronome é obrigatória, não podendo ser suprimida.

A facultatividade da crase ocorre apenas em casos específicos, como antes de nomes próprios femininos, antes de pronomes possessivos adjetivos e na locução “até a”. Nenhum desses casos se aplica ao trecho em questão.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar se a crase é facultativa, pergunte: “posso retirar o artigo ou a preposição sem alterar a regência?”. Antes de pronomes demonstrativos como “aquilo”, a resposta é não — a preposição é exigida pelo verbo e o pronome não dispensa a contração. A facultatividade só existe quando o artigo é opcional, o que não ocorre com “aquilo”.

Conclusão

A crase em “àquilo” é obrigatória, pois resulta da fusão da preposição “a” (exigida pelo verbo “manter-se fiel”) com o pronome demonstrativo “aquilo”. Não se trata de uso facultativo, e a afirmação do item é falsa.

Gabarito: ERRADO (item E).

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