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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402388
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEBRAE
Ano
2024
Cargo
Ana Tec II ( )

Já se foi o tempo em que acordar tarde e tomar um café da manhã reforçado na cobertura de um duplex era símbolo de status e ascensão social. Hoje em dia, emergente de verdade toma é um brunch no roof top de seu residence club.

 

A classe média, quando chega ao paraíso, adora gourmetizar o idioma, recheando o bom e velho português tupiniquim com um punhado de expressões de outras línguas para dar um ar de sofisticação e requinte a boa parte daquilo que diz, faz e pensa. Alguns exemplos são crush, delivery, fashion, haters, job, like, e por aí vai.

 

O discurso empresarial e corporativo também está repleto desses enunciados carregados de expressões tomadas de empréstimo a outras línguas. Nesse quesito, o inglês é o campeão de audiência nas interações verbais de uma parte considerável das profissões urbanas. Palavras e expressões como briefing, workshop, call, mindset e deadline já se tornaram corriqueiras no vocabulário de muitos profissionais brazucas.

 

Não que isso seja um problema ou uma ameaça à integridade do português brasileiro. Nosso país, desde a sua origem, sempre teve um caráter plurilinguístico. O fundo lexical do nosso português está repleto de vocábulos e expressões vindos de uma porção de idiomas que, ao longo do tempo, foram incorporados ao falar brasileiro.

 

A questão a ser abordada não é o quanto o uso de estrangeirismo pode ser nocivo à língua, mas até que ponto a hegemonia político-social de determinado grupo de falantes pode exercer um domínio ideológico e cultural sobre as dinâmicas linguísticas praticadas por boa parte de nossa população. A censura linguística de comunidades subalternizadas pode ser muito mais nociva à língua do que o uso de palavras e(ou) expressões de origem estrangeira.

 

Nesse contexto, a negação dos acréscimos linguísticos vindos de grupos étnicos e sociais diversos não se justifica, porque propõe o apagamento intencional e deliberado de nossas raízes históricas, linguísticas e culturais.

 

A presença de estrangeirismos nas vitrines das lojas e nos hábitos linguísticos de determinada comunidade de falantes, embora provoque reações afetivas e passionais tão variadas quanto contraditórias, é perfeitamente compreensível, porque as línguas são espaços de comunicação nos quais os processos de interlocução não se esgotam no simples ato de dizer.

 

Abrahão C. de Freitas. Guerra passional em

torno da língua. Escrita Viva — Conhecimento Prático — Língua Portuguesa e Literatura, ano 8, ed. 103, p. 30-37 (com adaptações).

Texto 1A8

 

Entende-se da leitura do texto 1A8 que a principal preocupação do autor em relação ao uso de estrangeirismos no Brasil diz respeito

  1. Aà submissão dos brasileiros ao modo de agir e pensar dos estrangeiros, sobretudo os estadunidenses.
  2. Bàs falhas de comunicação decorrentes do desconhecimento do significado de determinadas expressões estrangeiras.
  3. Cao risco de perda da pureza e da identidade original da língua portuguesa.
  4. Dao nível de dominação de grupos sociais hegemônicos sobre as demais parcelas da população.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — ao nível de dominação de grupos sociais hegemônicos sobre as demais parcelas da população.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A principal preocupação do autor sobre os estrangeirismos

Gabarito: letra D. A principal preocupação do autor não é o estrangeirismo em si, mas o domínio ideológico e cultural que a hegemonia de certos grupos pode exercer sobre as dinâmicas linguísticas, como se lê no 5º parágrafo: "a questão a ser abordada não é o quanto o uso de estrangeirismo pode ser nocivo à língua, mas até que ponto a hegemonia político-social de determinado grupo de falantes pode exercer um domínio ideológico e cultural sobre as dinâmicas linguísticas praticadas por boa parte de nossa população". A alternativa D parafraseia exatamente essa tese.

O comando

O enunciado pede que se entenda da leitura do texto qual é a principal preocupação do autor. Isso é uma questão de compreensão global: você precisa identificar a tese — a ideia central que o autor defende — e não apenas um detalhe ou um argumento secundário. A tese costuma aparecer na introdução ou na conclusão, mas aqui ela está explicitamente anunciada no 5º parágrafo, com o conectivo "não... mas...", que marca a oposição entre o que não é a questão e o que é a questão.

O texto

O texto começa com exemplos de estrangeirismos no cotidiano (brunch, crush, briefing etc.) e, em seguida, o autor descarta a visão de que isso seja uma ameaça à língua: "Não que isso seja um problema ou uma ameaça à integridade do português brasileiro". Ele lembra o caráter plurilinguístico do país. A partir daí, ele redireciona a discussão: o problema não é o estrangeirismo, mas a hegemonia político-social de certos grupos e a censura linguística de comunidades subalternizadas. Essa é a tese.

A técnica

Para resolver, você deve localizar a tese e parafraseá-la. A tese está no 5º parágrafo, na frase citada acima. A alternativa correta é a que reescreve essa ideia com outras palavras, sem acrescentar nada. As demais alternativas ou extrapolam (trazem ideias que não estão no texto) ou contradizem o que o autor afirma.

Estrangeirismos no Brasil
  • 1Não é ameaça à língua
    • Caráter plurilinguístico
  • 2Preocupação real: hegemonia
    • Domínio ideológico e cultural
    • Sobre dinâmicas linguísticas
    • Grupos sociais hegemônicos
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a preocupação é a submissão dos brasileiros ao modo de agir e pensar dos estrangeiros, sobretudo os estadunidenses. O texto menciona o inglês como "campeão de audiência", mas não diz que os brasileiros se submetem aos estrangeiros, nem que a preocupação é essa. Isso é uma extrapolação: o autor não fala em submissão, e sim em domínio ideológico de grupos hegemônicos — que não são necessariamente estrangeiros. Além disso, o texto não especifica "estadunidenses".

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa fala em falhas de comunicação decorrentes do desconhecimento do significado das expressões. O texto não menciona falhas de comunicação nem desconhecimento de significado. Isso é uma extrapolação — o autor não aborda esse aspecto em nenhum momento.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa fala em risco de perda da pureza e da identidade original da língua portuguesa. O texto explicitamente nega isso: "Não que isso seja um problema ou uma ameaça à integridade do português brasileiro". Portanto, a alternativa contradiz o texto. O autor não vê o estrangeirismo como ameaça à pureza da língua.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que a preocupação é com o nível de dominação de grupos sociais hegemônicos sobre as demais parcelas da população. Isso é uma paráfrase fiel da tese do autor, expressa no 5º parágrafo:

"a questão a ser abordada não é o quanto o uso de estrangeirismo pode ser nocivo à língua, mas até que ponto a hegemonia político-social de determinado grupo de falantes pode exercer um domínio ideológico e cultural sobre as dinâmicas linguísticas praticadas por boa parte de nossa população"

A alternativa troca "hegemonia político-social" por "dominação de grupos sociais hegemônicos" e "dinâmicas linguísticas" por "demais parcelas da população" — exatamente o sentido do texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com fatos plausíveis (submissão aos EUA, falhas de comunicação, perda de pureza) que não estão no texto. A correta exige identificar a tese, que está explícita, mas exige leitura atenta do 5º parágrafo.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de "principal preocupação" ou "ideia principal", procure a tese — geralmente na introdução ou conclusão, ou anunciada por conectivos como "não... mas...". Desconfie de alternativas que tragam ideias que você acha que fazem sentido, mas que o texto não diz.

Gabarito: letra D — a única que reproduz a tese do autor, sem extrapolar ou contradizer o texto.

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