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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402413
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
STJ
Ano
2024
Cargo
AJ

        Por quase dois séculos, apesar da controvérsia provocada pela Revolução Francesa, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão encarnou a promessa de direitos humanos universais. Em 1948, quando as Nações Unidas adotaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos, seu artigo 1.º dizia: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Em 1789, o artigo 1.º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão já havia proclamado: “Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos”.


        As origens dos documentos não nos dizem necessariamente nada de significativo sobre as suas consequências. Importa realmente que o esboço tosco de Jefferson tenha passado por 86 alterações feitas por ele mesmo, pelo Comitê dos Cinco ou pelo Congresso? A Declaração da Independência dos Estados Unidos da América (EUA) não tinha natureza constitucional. Declarava simplesmente intenções, e passaram-se quinze anos antes que os estados finalmente ratificassem uma Bill of Rights, muito diferente, em 1791. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão afirmava salvaguardar as liberdades individuais, mas não impediu o surgimento de um governo francês que reprimiu os direitos, e futuras constituições francesas — houve muitas delas — formularam declarações diferentes ou passaram sem nenhuma declaração.


        Ainda mais perturbador é que aqueles que, com tanta confiança, declaravam, no final do século XVIII, que os direitos eram universais vieram a demonstrar que tinham algo muito menos inclusivo em mente. As pessoas não ficaram surpresas por eles considerarem que as crianças, os insanos, os prisioneiros ou os estrangeiros eram incapazes ou indignos de plena participação no processo político, pois pensavam da mesma maneira. Mas eles também excluíam aqueles sem propriedade, os escravos, os negros livres, em alguns casos as minorias religiosas e, sempre e por toda parte, as mulheres. Em anos recentes, essas limitações a “todos os homens” provocaram muitos comentários, e alguns estudiosos até questionaram se as declarações tinham um verdadeiro significado de emancipação.


     Os fundadores, os que estruturaram e os que redigiram as declarações, têm sido julgados elitistas, racistas e misóginos por sua incapacidade de considerar todos verdadeiramente iguais em direitos.


       Como é que esses homens, vivendo em sociedades construídas sobre a escravidão, a subordinação e a subserviência aparentemente natural, chegaram a imaginar homens nada parecidos com eles, e, em alguns casos, também mulheres, como iguais? Se pudéssemos compreender como isso veio a acontecer, compreenderíamos melhor o que os direitos humanos significam para nós hoje em dia.


Lynn Hunt. A invenção dos direitos humanos: uma história. Tradução de Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 15-16 (com adaptações).


A respeito de aspectos linguísticos do texto precedente bem como das ideias nele veiculadas, julgue os próximos itens.   O questionamento feito pela autora no segundo parágrafo constitui um recurso de linguagem utilizado para verificar o entendimento do leitor quanto à argumentação por ela desenvolvida no texto.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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O questionamento da autora no segundo parágrafo

Gabarito: letra E (ERRADO). O item afirma que o questionamento feito pela autora no segundo parágrafo constitui um recurso de linguagem utilizado para verificar o entendimento do leitor quanto à argumentação. Isso está errado: o questionamento é uma pergunta retórica que introduz e desenvolve a argumentação, e não um recurso para testar a compreensão do leitor. A passagem que ancora essa conclusão é:

"Importa realmente que o esboço tosco de Jefferson tenha passado por 86 alterações feitas por ele mesmo, pelo Comitê dos Cinco ou pelo Congresso?"

A pergunta é usada para problematizar a relevância das origens dos documentos, conduzindo o leitor a refletir sobre o tema, e não para verificar se ele entendeu o que foi dito.

O comando da questão

O enunciado pede para julgar (certo/errado) uma afirmação sobre um aspecto linguístico do texto. Trata-se de uma questão de interpretação de texto, pois exige que se identifique a função de um recurso expressivo (a pergunta) no contexto. Não basta localizar a frase; é preciso compreender o efeito de sentido que ela produz na argumentação.

O texto e o movimento argumentativo

O texto de Lynn Hunt discute a história dos direitos humanos, contrastando as declarações de 1789 e 1948 com a prática excludente dos fundadores. No segundo parágrafo, a autora questiona:

"Importa realmente que o esboço tosco de Jefferson tenha passado por 86 alterações...?"

Essa pergunta é retórica: a autora não espera uma resposta do leitor, mas sim provoca uma reflexão sobre a importância das origens dos documentos. Ela mesma responde em seguida, mostrando que as origens não determinam as consequências. O recurso serve para engajar o leitor e introduzir o argumento de que o que importa são os efeitos, não a gênese.

A técnica que decide

A alternativa errada confunde pergunta retórica com recurso de verificação de entendimento. A pergunta retórica é um recurso argumentativo que:

  • Envolve o leitor no raciocínio;

  • Introduz uma ideia que será desenvolvida;

  • Cria expectativa e direciona a leitura.

Já um recurso para "verificar o entendimento do leitor" seria algo como uma pergunta direta que exige resposta, ou um exercício de fixação — o que não ocorre no texto. O texto é um ensaio acadêmico, não um material didático interativo.

Análise da assertiva

A assertiva diz que o questionamento "constitui um recurso de linguagem utilizado para verificar o entendimento do leitor quanto à argumentação". Isso é falso por dois motivos:

  1. Não é um recurso de verificação: a pergunta não testa o leitor; ela conduz a argumentação.

  2. Não é sobre o entendimento: a pergunta questiona a relevância das origens, não a compreensão do leitor.

Portanto, a assertiva contradiz a função real do recurso, que é retórico-argumentativa.

Conclusão

A banca explora a confusão entre pergunta retórica (recurso de engajamento) e recurso de verificação (como um quiz). A pergunta no texto é uma estratégia argumentativa, não um teste de compreensão. Logo, o item está ERRADO.

Gabarito: letra E (ERRADO).

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