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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402416
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
STJ
Ano
2024
Cargo
AJ

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.

 

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pego.

 

Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão.

 

Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: “gratificar-se-á generosamente”, ou “receberá uma boa gratificação”. Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o açoitasse.

 

Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas, por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir, também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.

 

Machado de Assis. Pai contra Mãe. In: Machado de Assis.
Relíquias da casa velha, 1906 (com adaptações).

Machado de Assis inicia o conto Pai contra Mãe — escrito em 1906 e publicado na coletânea Relíquias da casa velha —, mencionando “ofícios e aparelhos” da escravidão no Brasil. O conto aborda a história de Cândido Neves, personagem que trabalhava na captura de escravos fugidios. Considerando o fragmento desse conto apresentado anteriormente, julgue os itens a seguir.

 

O autor justifica a citação do ferro ao pescoço, do ferro ao pé e da máscara por se associarem a determinado ofício.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A justificativa do autor para citar os aparelhos da escravidão

Gabarito: Certo (C). O autor justifica a citação do ferro ao pescoço, do ferro ao pé e da máscara por se associarem a determinado ofício, como se lê no primeiro parágrafo: "Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício." A afirmação do item é uma paráfrase fiel dessa passagem — não há inferência, é compreensão direta.

O comando

O item pede um julgamento de compreensão ("O autor justifica..."), ou seja, exige localizar uma informação explícita no texto. Não se trata de inferir, deduzir ou interpretar nas entrelinhas: basta encontrar a passagem que sustenta a afirmação. Em questões de compreensão, a alternativa correta é sempre uma reescritura (paráfrase) do que está escrito, sem acrescentar nada de fora.

O texto e a passagem decisiva

O fragmento de Pai contra Mãe abre com uma declaração geral: a escravidão levou consigo ofícios e aparelhos. Em seguida, o narrador explica por que menciona alguns aparelhos:

"Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício."

A expressão "senão por" tem valor de restrição: significa "a não ser por", "apenas porque". Ou seja, o autor só cita aqueles aparelhos (ferro ao pescoço, ferro ao pé, máscara) porque eles estão ligados a um ofício específico — no caso, o ofício de capturar escravos fugidios, que será desenvolvido ao longo do conto. O item diz exatamente isso: "O autor justifica a citação... por se associarem a determinado ofício." É uma paráfrase da passagem, com as mesmas ideias: citação, associação e ofício.

A técnica que decide

Para resolver, basta confrontar o item com o texto e verificar se há correspondência. O item não acrescenta, não restringe, não inverte nada: ele apenas reformula o que está dito. Não há armadilha de extrapolação, generalização ou opinião embutida. A banca, aqui, testa a leitura atenta do primeiro parágrafo — quem marcou "Errado" provavelmente não percebeu que a justificativa está explícita logo no início, ou confundiu o item com uma inferência sobre o ofício (que, aliás, também está no texto: "pegar escravos fugidios era um ofício do tempo").

PEGA ESSA DICA!

Em itens de "julgar", grife o verbo do comando ("justifica", "afirma", "infere-se"). Se pede compreensão, procure a paráfrase; se pede inferência, procure a pista que autoriza a dedução. Aqui, a palavra "justifica" aponta para uma informação explícita.

Conclusão

O item está Certo, pois reproduz fielmente a justificativa do autor, ancorada na passagem "Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício". A resposta é direta: Certo (C).

Gabarito: Certo (C).

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