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Questão de Português — Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto. — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsReescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
Código
ce402417
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
STJ
Ano
2024
Cargo
AJ

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.

 

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pego.

 

Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão.

 

Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: “gratificar-se-á generosamente”, ou “receberá uma boa gratificação”. Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o açoitasse.

 

Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas, por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir, também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.

 

Machado de Assis. Pai contra Mãe. In: Machado de Assis.
Relíquias da casa velha, 1906 (com adaptações).

Machado de Assis inicia o conto Pai contra Mãe — escrito em 1906 e publicado na coletânea Relíquias da casa velha —, mencionando “ofícios e aparelhos” da escravidão no Brasil. O conto aborda a história de Cândido Neves, personagem que trabalhava na captura de escravos fugidios. Considerando o fragmento desse conto apresentado anteriormente, julgue os itens a seguir.

 

Sem prejuízo da correção gramatical e dos sentidos do texto, o quarto período do primeiro parágrafo poderia ser reescrito da seguinte forma: A máscara fazia que perdessem aos escravos o vício da embriaguez, porque tapava suas bocas.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Reescrita com crase: "fazia que perdessem aos escravos"

Gabarito: Errado (E). A reescrita proposta está incorreta porque emprega a crase indevidamente: em "perdessem aos escravos", o "a" é preposição exigida pelo verbo "perder" (quem perde, perde algo a alguém), e "escravos" é palavra masculina plural — não há artigo feminino "a" para justificar o acento grave. A forma correta seria "perdessem a escravos" (apenas preposição, sem crase), como se lê no trecho original: "A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos".

O comando pede que se julgue se a reescrita mantém a correção gramatical e os sentidos do texto. Trata-se de uma questão de reescritura de frases — o foco está na gramática (crase, regência, pronome) e na preservação do sentido. Não é uma questão de interpretação profunda, mas de análise sintático-semântica de uma paráfrase proposta.

No texto-base, o trecho original é:

"A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca."

A reescrita proposta foi: "A máscara fazia que perdessem aos escravos o vício da embriaguez, porque tapava suas bocas."

Aqui, o verbo "perder" é transitivo direto e indireto: perde-se algo (objeto direto: "o vício da embriaguez") a alguém (objeto indireto: "aos escravos"). O objeto indireto é introduzido pela preposição "a". Como "escravos" é um substantivo masculino plural, não há artigo feminino "a" que se funda com a preposição — logo, não há crase. O correto é "perdessem a escravos", sem acento grave.

A banca explora exatamente essa confusão: o candidato vê "aos" no original e acha que a crase é obrigatória na reescrita. Mas a crase só ocorre quando há a fusão da preposição "a" com o artigo feminino "a" (ou com os pronomes "aquele", "aquela", "aquilo"). Como "escravos" é masculino, a crase é proibida.

Além disso, há outra mudança sutil: o original usa "por lhes tapar a boca" (causa expressa por infinitivo com pronome oblíquo "lhes"), enquanto a reescrita usa "porque tapava suas bocas" (oração causal desenvolvida com pronome possessivo "suas"). Essa troca, embora mantenha o sentido causal, altera a estrutura — mas o erro fatal é a crase.

1Verbo "perder"
Quem perde, perde algo a alguém
Exige preposição "a"
2"Escravos" é masculino plural
Não há artigo feminino "a"
Crase proibida
3Correto
"perdessem a escravos" (sem acento)
4Teste da crase
Trocar por palavra masculina
"perder a homens" → sem crase
Crase em "perdessem aos escravos"
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Crase em "perdessem aos escravos": Verbo "perder" (Quem perde, perde algo a alguém, Exige preposição "a"); "Escravos" é masculino plural (Não há artigo feminino "a", Crase proibida); Correto ("perdessem a escravos" (sem acento)); Teste da crase (Trocar por palavra masculina, "perder a homens" → sem crase)

Item — ❌ Errado ⟵ GABARITO

A reescrita "A máscara fazia que perdessem aos escravos o vício da embriaguez" está gramaticalmente incorreta. O verbo "perder" rege a preposição "a" para o objeto indireto, mas "escravos" é masculino, então não há artigo "a" para formar a crase. O correto seria "perdessem a escravos".

PEGA ESSA DICA!

Para testar a crase, substitua a palavra feminina por uma masculina. Se na masculina aparecer "ao" (preposição + artigo), há crase; se aparecer apenas "a" (preposição), não há. Ex.: "perder a escravos" → "perder a homens" (sem crase).

Conclusão: a reescrita não preserva a correção gramatical, pois emprega crase indevida diante de palavra masculina. Portanto, o item está Errado.

Gabarito: letra E (Errado).

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