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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402419
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
STJ
Ano
2024
Cargo
AJ

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.

 

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pego.

 

Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão.

 

Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: “gratificar-se-á generosamente”, ou “receberá uma boa gratificação”. Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o açoitasse.

 

Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas, por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir, também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.

 

Machado de Assis. Pai contra Mãe. In: Machado de Assis.
Relíquias da casa velha, 1906 (com adaptações).

Machado de Assis inicia o conto Pai contra Mãe — escrito em 1906 e publicado na coletânea Relíquias da casa velha —, mencionando “ofícios e aparelhos” da escravidão no Brasil. O conto aborda a história de Cândido Neves, personagem que trabalhava na captura de escravos fugidios. Considerando o fragmento desse conto apresentado anteriormente, julgue os itens a seguir.

 

A crítica do autor à sociedade escravagista da época fica explícita na observação sobre a venda de máscaras de ferro em lojas especializadas do ramo.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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A crítica à escravidão em "Pai contra Mãe": explícita ou implícita?

Gabarito: ERRADO. A afirmação de que a crítica do autor à sociedade escravagista fica explícita na observação sobre a venda de máscaras de ferro em lojas especializadas não encontra respaldo no texto. O trecho apenas descreve a existência e a função das máscaras, sem qualquer comentário avaliativo direto do narrador sobre a venda em si. A crítica, quando existe, é implícita e se constrói pela ironia, não por uma observação explícita sobre o comércio das máscaras.

O comando: compreensão, não inferência

O enunciado pede que se julgue a afirmação: "A crítica do autor à sociedade escravagista da época fica explícita na observação sobre a venda de máscaras de ferro em lojas especializadas do ramo." A palavra-chave é explícita. Isso muda tudo: a questão exige que você localize no texto uma passagem em que o autor diga claramente que a venda de máscaras é criticável. Não se trata de inferir, deduzir ou interpretar nas entrelinhas — trata-se de verificar se a crítica está literalmente expressa. Como não está, a assertiva é falsa.

O texto: descrição, não crítica direta

No primeiro parágrafo, o narrador descreve a máscara de folha-de-flandres:

"A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado."

Em seguida, menciona a venda:

"Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas."

Nenhuma dessas passagens contém um juízo de valor do narrador sobre a venda. Ele não diz "era um comércio abominável", "isso revela a crueldade da sociedade" ou algo equivalente. A descrição é objetiva: informa o que era a máscara, para que servia e onde era vendida. A crítica, se existe, está nas entrelinhas — na escolha dos detalhes (a máscara tapa a boca, tem só três buracos, é fechada com cadeado) e no tom irônico de frases como "a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel". Mas isso é inferência, não compreensão literal.

A técnica: distinguir explícito de implícito

A banca adora essa pegadinha: pega uma inferência legítima (a crítica à escravidão é perceptível) e a apresenta como se fosse uma afirmação literal do texto. Para não cair, pergunte: "O texto diz isso, ou eu deduzo isso?" Se a resposta for "deduzo", a alternativa que afirma que está explícito está errada.

No trecho, a crítica é construída por ironia — por exemplo, ao dizer que a máscara "fazia perder o vício da embriaguez" e que "aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas". O narrador aparenta elogiar o mecanismo, mas o leitor percebe a crueldade. Essa percepção, porém, é subjetiva e depende da interpretação. A assertiva, ao usar "explícita", exige que a crítica esteja na superfície — e não está.

Análise da assertiva

Crítica em "Pai contra Mãe"
  • 1Explícita (literal)
    • Não há juízo de valor direto
    • Descrição objetiva da venda
  • 2Implícita (inferível)
    • Ironia
    • Escolha de detalhes
    • Tom do narrador
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Assertiva — ❌ Errada

A assertiva afirma que a crítica fica explícita na observação sobre a venda de máscaras. O texto, porém, apenas descreve a venda:

"Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas."

Essa frase é informativa, não avaliativa. O narrador não comenta a venda, não a condena, não a ironiza diretamente. A crítica à escravidão, que existe no conto, é construída por outros meios — pela descrição dos aparelhos, pela naturalidade com que o narrador fala de coisas horríveis, pela ironia de frases como "a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco". Mas nada disso está explícito na passagem sobre a venda.

Erro da assertiva: extrapolação — atribui ao texto uma afirmação que ele não faz. A crítica é implícita (inferível), não explícita (literal). A palavra "explícita" é o termo que decide a questão: se a banca tivesse dito "implícita", a assertiva poderia ser considerada correta, pois a crítica pode ser inferida do conjunto. Mas, como está, é falsa.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre crítica implícita (presente nas entrelinhas, por ironia) e crítica explícita (dita literalmente). O candidato que "sente" a crítica e a projeta no trecho da venda cai na armadilha. Sempre desconfie de palavras como "explícito", "literal", "claramente" — elas exigem que a informação esteja na superfície do texto.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar assertivas, grife o comando ("explícita", "implícita", "infere-se", "afirma-se"). Se o comando pede compreensão, a resposta deve estar literal no texto; se pede interpretação, a resposta é uma dedução com base em pistas. Aqui, o comando usa "explícita", então a resposta deve ser literal — e não é.

Conclusão

A assertiva está errada porque a crítica à escravidão, embora presente no conto, não é explícita na observação sobre a venda de máscaras. O texto apenas descreve a venda, sem juízo de valor direto. A crítica é implícita, construída pela ironia e pela escolha dos detalhes — e isso exige inferência, não compreensão literal.

Gabarito: ERRADO.

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