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Questão de Português — Concordância (Verbal e Nominal) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsConcordância (Verbal e Nominal)
Código
ce402420
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
STJ
Ano
2024
Cargo
AJ

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.

 

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pego.

 

Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão.

 

Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: “gratificar-se-á generosamente”, ou “receberá uma boa gratificação”. Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o açoitasse.

 

Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas, por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir, também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.

 

Machado de Assis. Pai contra Mãe. In: Machado de Assis.
Relíquias da casa velha, 1906 (com adaptações).

Machado de Assis inicia o conto Pai contra Mãe — escrito em 1906 e publicado na coletânea Relíquias da casa velha —, mencionando “ofícios e aparelhos” da escravidão no Brasil. O conto aborda a história de Cândido Neves, personagem que trabalhava na captura de escravos fugidios. Considerando o fragmento desse conto apresentado anteriormente, julgue os itens a seguir.

 

No segundo período do último parágrafo, a forma verbal “mantêm” está flexionada no plural porque estabelece concordância com os termos “lei” e “propriedade”.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoC — Certo

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Concordância verbal: o plural de “mantêm”

Gabarito: letra C (CERTO). A forma verbal “mantêm” está no plural porque concorda com o sujeito composto “a lei e a propriedade”, como se lê no trecho: “por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade”. A banca pede apenas que se identifique o referente da concordância — e o texto autoriza plenamente a afirmação.

O comando é de compreensão gramatical aplicada ao texto: não se trata de inferir nada além do que está escrito, mas de reconhecer a relação sintática entre o verbo e seu sujeito. Em questões assim, o caminho é localizar o verbo, perguntar “quem mantém?” e conferir se o núcleo do sujeito está no plural. Aqui, a resposta está no próprio período: o sujeito é composto por dois núcleos — “lei” e “propriedade” — unidos pela conjunção “e”, o que exige verbo na 3ª pessoa do plural.

A técnica que decide esta questão é a identificação do sujeito por meio da pergunta ao verbo. No trecho, “se mantêm” é verbo pronominal passivo (ou reflexivo com valor passivo): “a lei e a propriedade se mantêm”. Se invertermos a ordem, fica evidente: “a lei e a propriedade mantêm-se”. O pronome “se” não altera a concordância — o verbo continua concordando com o sujeito paciente, que é composto e plural. A armadilha da banca seria o candidato achar que “mantêm” concorda com “força” (singular), mas “força” é apenas o núcleo do adjunto adnominal “da força”, não o sujeito.

“por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade

A passagem prova que o sujeito de “mantêm” é “a lei e a propriedade”. O verbo “manter”, na 3ª pessoa do plural do presente do indicativo, recebe acento circunflexo diferencial: “mantêm” (plural) em oposição a “mantém” (singular). A concordância, portanto, está correta e a justificativa apresentada no item é fiel ao texto.

1Sujeito composto
"a lei"
"e a propriedade"
2Verbo na 3ª pessoa do plural
"mantêm" (plural)
"mantém" (singular)
3Armadilha da banca
"força" (singular) é adjunto, não sujeito
Concordância de "mantêm"
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Concordância de "mantêm": Sujeito composto ("a lei", "e a propriedade"); Verbo na 3ª pessoa do plural ("mantêm" (plural), "mantém" (singular)); Armadilha da banca ("força" (singular) é adjunto, não sujeito)

Item — ✅ CERTOGABARITO

A afirmativa diz que “mantêm” está no plural porque concorda com “lei” e “propriedade”. Isso é exatamente o que ocorre: o sujeito é composto (“a lei e a propriedade”), e o verbo concorda com o conjunto dos núcleos, indo para o plural. Não há qualquer extrapolação ou restrição — a justificativa é gramatical e textualmente correta.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de concordância, sempre faça a pergunta ao verbo: “quem mantém?”. Se a resposta trouxer dois núcleos ligados por “e”, o verbo vai para o plural. Desconfie de termos intercalados (como “da força”) que tentam “puxar” o verbo para o singular.

Conclusão: o item está CERTO porque a forma “mantêm” concorda com o sujeito composto “a lei e a propriedade”, exatamente como afirma o enunciado. A regra de ouro: o verbo concorda com o núcleo do sujeito, e não com palavras que aparecem entre ele e o verbo.

Gabarito: letra C (CERTO).

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