Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402430
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TSE
Ano
2024
Cargo
AJ
A palavra ficção nos remete a histórias inventadas (total ou parcialmente). Pode ser uma fantasia, que envolva monstros, heróis ou fantasmas, pode ser uma ficção científica, que envolva tecnologias que vão muito além daquelas que existem hoje, etambém pode ser um romance comum, totalmente realista, mas com enredo, personagens ou ambientes inventados.
Dessa forma, uma matéria jornalística jamais poderia ser considerada ficcional, já que um dos pilares do jornalismo é a busca pela verdade e a publicização das informações com precisão e veracidade. Um jornal que noticiasse ficções estaria ferindo um de seus princípios mais fundamentais.
Apesar de essa definição de ficção ser bem popular, os críticos e teóricos de cinema franceses Jacques Aumont e Michel Marie afirmam que a ficção é uma forma de discurso que faz referência a personagens ou a ações que só existem na imaginação daquele que a escreve ou lê. Segundo eles, a ficção não é uma mentira, mas um simulacro da realidade, uma das possíveis maneiras de se representar o real.
Assim, podemos dizer que todo relato é uma tentativa de representar a realidade por meio de palavras. Um relato de um acontecimento não é o próprio acontecimento em si. Os fatos ficam no passado, depois que acontecem. Qualquer tentativa de retomá-los no presente, por meio de uma história, será uma representação, será uma construção da mente de uma pessoa. Logo, será uma ficção.
Lucia Mascarenhas de Miranda. A fronteira entre
fato e ficção. In: Ciência Hoje, outubro de 2024. Internet: <cienciahoje.org.br> (com adaptações).
Texto CB1A1-II
Julgue o item a seguir com base nas ideias apresentadas no texto CB1A1-II.
No último parágrafo do texto, o autor conclui que, sendo a ficção uma representação da realidade, o relato de uma situação passada caracteriza-se como ficção.
CCerto
EErrado
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GabaritoC — Certo
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Ficção como representação da realidade
Gabarito: Certo (C). O item está correto porque o último parágrafo do texto conclui exatamente o que o enunciado afirma: todo relato é uma representação da realidade, e, por isso, o relato de uma situação passada caracteriza-se como ficção. A passagem decisiva é:
"Qualquer tentativa de retomá-los no presente, por meio de uma história, será uma representação, será uma construção da mente de uma pessoa. Logo, será uma ficção."
O conectivo "Logo" introduz a conclusão do raciocínio: se todo relato é uma representação (construção da mente), então todo relato é ficção. O item apenas parafraseia essa conclusão, sem acrescentar nada que o texto não diga.
O comando: compreensão, não inferência
O enunciado pede para julgar se a afirmação está "de acordo com as ideias apresentadas no texto". Isso é uma questão de compreensão (recorrência): a resposta está explícita no último parágrafo, não exige dedução além do que está escrito. Basta localizar a passagem que sustenta a ideia e comparar com a paráfrase do item. Não há armadilha de inferência aqui — o texto diz literalmente que o relato de um acontecimento passado é uma ficção.
O texto: a tese do último parágrafo
O texto começa com a definição popular de ficção (histórias inventadas) e, em seguida, apresenta a visão dos teóricos Aumont e Marie: a ficção é "um simulacro da realidade, uma das possíveis maneiras de se representar o real". No último parágrafo, o autor desenvolve essa ideia:
"todo relato é uma tentativa de representar a realidade por meio de palavras. Um relato de um acontecimento não é o próprio acontecimento em si. Os fatos ficam no passado, depois que acontecem. Qualquer tentativa de retomá-los no presente, por meio de uma história, será uma representação, será uma construção da mente de uma pessoa. Logo, será uma ficção."
A estrutura é clara: premissa (todo relato é representação) → desenvolvimento (o relato não é o fato, é construção mental) → conclusão (logo, é ficção). O item reproduz exatamente essa cadeia: "sendo a ficção uma representação da realidade, o relato de uma situação passada caracteriza-se como ficção".
A técnica: ancorar no texto, não no senso comum
A pegadinha desta questão é o conhecimento de mundo do candidato: no senso comum, "ficção" é sinônimo de "inventado", "falso". Por isso, muitos marcam "errado", pensando: "um relato de um fato real não pode ser ficção". Mas o texto não usa a definição popular; ele adota a definição teórica de Aumont e Marie, segundo a qual a ficção é uma representação do real, não uma mentira. O autor deixa isso explícito: "a ficção não é uma mentira, mas um simulacro da realidade". Portanto, o relato de um acontecimento passado, por ser uma reconstrução mental, é ficção — mesmo que o acontecimento tenha sido real.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre a definição popular de ficção (histórias inventadas) e a definição teórica apresentada no texto (representação da realidade). Quem se apega ao senso comum marca "errado", mas o texto autoriza a conclusão do item.
1Todo relato é representação
2Relato ≠ fato em si
3Fatos ficam no passado
4Retomada = construção mental
5Logo, é ficção
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Análise das alternativas
Alternativa C — ✅ Certo ⟵ GABARITO
O item está correto porque reproduz fielmente a conclusão do último parágrafo. O texto afirma que todo relato é uma representação da realidade e, portanto, é ficção. O item diz: "sendo a ficção uma representação da realidade, o relato de uma situação passada caracteriza-se como ficção". Isso é uma paráfrase da passagem citada, sem acrescentar ou suprimir nada. A palavra "caracteriza-se" é equivalente a "será uma ficção". Não há extrapolação nem restrição.
Alternativa E — ❌ Errado
A alternativa "errado" é incorreta porque contradiz o texto. O último parágrafo conclui exatamente o oposto: o relato de um acontecimento passado é ficção, pois é uma representação. Quem marca "errado" comete o erro de extrapolar o senso comum (ficção = inventado) e ignorar a definição teórica adotada pelo autor. O texto não diz que o relato de um fato real deixa de ser ficção; pelo contrário, diz que todo relato é ficção. Portanto, a alternativa E está errada.
Conclusão
A questão se resolve com uma única pergunta: o texto autoriza a afirmação? Sim, literalmente. O último parágrafo é uma conclusão explícita: "Logo, será uma ficção". O item apenas a parafraseia. Não caia na armadilha de trazer definições de fora do texto — em interpretação, o que vale é o que o autor diz, não o que você acha que ficção significa.