Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — CESPE / CEBRASPE 2024
Português›Significação de Vocábulo e Expressões
Código
ce402434
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TSE
Ano
2024
Cargo
AJ
A palavra ficção nos remete a histórias inventadas (total ou parcialmente). Pode ser uma fantasia, que envolva monstros, heróis ou fantasmas, pode ser uma ficção científica, que envolva tecnologias que vão muito além daquelas que existem hoje, e também pode ser um romance comum, totalmente realista, mas com enredo, personagens ou ambientes inventados.
Dessa forma, uma matéria jornalística jamais poderia ser considerada ficcional, já que um dos pilares do jornalismo é a busca pela verdade e a publicização das informações com precisão e veracidade. Um jornal que noticiasse ficções estaria ferindo um de seus princípios mais fundamentais.
Apesar de essa definição de ficção ser bem popular, os críticos e teóricos de cinema franceses Jacques Aumont e Michel Marie afirmam que a ficção é uma forma de discurso que faz referência a personagens ou a ações que só existem na imaginação daquele que a escreve ou lê. Segundo eles, a ficção não é uma mentira, mas um simulacro da realidade, uma das possíveis maneiras de se representar o real.
Assim, podemos dizer que todo relato é uma tentativa de representar a realidade por meio de palavras. Um relato de um acontecimento não é o próprio acontecimento em si. Os fatos ficam no passado, depois que acontecem. Qualquer tentativa de retomá-los no presente, por meio de uma história, será uma representação, será uma construção da mente de uma pessoa. Logo, será uma ficção.
Lucia Mascarenhas de Miranda. A fronteira entre
fato e ficção. In: Ciência Hoje, outubro de 2024. Internet: <cienciahoje.org.br> (com adaptações).
Texto CB1A1-II
A respeito dos aspectos linguísticos do texto CB1A1-II, julgue o item que se segue.
No primeiro parágrafo, as três ocorrências da forma verbal “pode” expressam sentido de possibilidade.
CCerto
EErrado
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — Certo
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
O sentido de “pode” no primeiro parágrafo
Gabarito: Certo (C). As três ocorrências de “pode” no primeiro parágrafo expressam, sim, sentido de possibilidade — e não de permissão, capacidade ou obrigação. O verbo “poder”, nesse contexto, apresenta alternativas que podem se realizar, como se lê em: “Pode ser uma fantasia... pode ser uma ficção científica... e também pode ser um romance comum”. A banca quer que você perceba que o verbo está sendo usado para listar possibilidades, não para dar ordem ou autorização.
O comando da questão
O enunciado pede um julgamento (Certo/Errado) sobre um aspecto linguístico: o sentido da forma verbal “pode”. Isso é uma questão de semântica no contexto — você não deve analisar o verbo isoladamente, mas sim observar como ele é empregado no trecho. A pergunta é direta: as três ocorrências expressam possibilidade? Para responder, basta reler o primeiro parágrafo e verificar o efeito de sentido que o verbo produz.
O texto e o movimento argumentativo
No primeiro parágrafo, a autora define o que é ficção, apresentando exemplos de tipos de ficção:
“Pode ser uma fantasia, que envolva monstros, heróis ou fantasmas, pode ser uma ficção científica, que envolva tecnologias que vão muito além daquelas que existem hoje, e também pode ser um romance comum, totalmente realista, mas com enredo, personagens ou ambientes inventados.”
Aqui, “pode ser” não está dando permissão (“pode ser assim, se você quiser”), nem indicando capacidade (“é capaz de ser”), nem obrigação (“deve ser”). O sentido é de possibilidade: a ficção pode assumir várias formas, todas igualmente possíveis. A autora está enumerando alternativas que se oferecem ao conceito de ficção, e o verbo “poder” é o operador linguístico que introduz essas possibilidades.
A técnica: distinguir os sentidos de “poder”
O verbo “poder” é um verbo modal e pode expressar:
Possibilidade (modalidade epistêmica): indica que algo pode ocorrer, é provável ou hipotético. Ex.: “Pode chover amanhã.”
Permissão (modalidade deôntica): indica que algo é permitido. Ex.: “Pode entrar.”
Capacidade (modalidade dinâmica): indica habilidade. Ex.: “Ele pode nadar muito bem.”
Obrigação (raro, mas possível): em contextos formais, “poder” pode equivaler a “dever”. Ex.: “O réu pode ser condenado.” (aqui, possibilidade, não obrigação)
No texto, o contexto é de enumeração de possibilidades: a ficção pode ser fantasia, ficção científica ou romance realista. Não há qualquer ideia de permissão (ninguém está autorizando a ficção a ser isso ou aquilo), nem de capacidade (não se diz que a ficção é capaz de ser algo), nem de obrigação. O verbo está no presente do indicativo, mas com valor de hipótese — o que reforça a leitura de possibilidade.
A pegadinha da banca
A banca adora explorar a confusão entre os sentidos de “poder”. Em questões de concurso, é comum aparecer “pode” com sentido de permissão (ex.: “Pode sair?”) e o candidato marcar errado por achar que é possibilidade. Aqui, porém, o contexto é claro: a autora está listando exemplos do que a ficção pode ser, e isso é possibilidade, não permissão.
NÃO CAIA NESSA!
A banca quer que você confunda “possibilidade” com “permissão”. No texto, “pode ser” não autoriza nada; apenas apresenta alternativas possíveis. Fique atento ao contexto: se há enumeração de opções, é possibilidade.
PEGA ESSA DICA!
Para testar se “pode” indica possibilidade, tente substituir por “é possível que seja”. Se a frase continuar fazendo sentido, é possibilidade. Ex.: “É possível que seja uma fantasia” — funciona. Já “É permitido que seja uma fantasia” não faz sentido no contexto.
Análise do item
Sentidos do verbo "poder": Possibilidade (epistêmica) (Algo pode ocorrer, Enumera alternativas); Permissão (deôntica) (Algo é permitido); Capacidade (dinâmica) (Habilidade do sujeito); Obrigação (raro) (Equivale a "dever")
Item — ✅ CERTO
A afirmação está correta. As três ocorrências de “pode” no primeiro parágrafo expressam possibilidade. Veja o trecho:
“Pode ser uma fantasia, que envolva monstros, heróis ou fantasmas, pode ser uma ficção científica, que envolva tecnologias que vão muito além daquelas que existem hoje, e também pode ser um romance comum, totalmente realista, mas com enredo, personagens ou ambientes inventados.”
Cada “pode” introduz uma alternativa possível para o que a ficção pode ser. A autora não está dando permissão para a ficção ser isso ou aquilo; está dizendo que a ficção pode assumir essas formas. O sentido é de possibilidade, e não de permissão, capacidade ou obrigação.
Conclusão: como a banca pediu um julgamento (Certo/Errado) e a afirmação é verdadeira, o gabarito é Certo (C). A resposta está ancorada no próprio texto: o verbo “poder” é usado para listar possibilidades, e não para expressar permissão. Lembre-se: em questões de semântica, o contexto é soberano — analise o verbo dentro da frase, não isoladamente.