Aprendemos desde cedo que a linguagem verbal serve para comunicar e frequentemente dizemos que o importante é a comunicação. Quando se fala em comunicação, muitas vezes, pensamos que se está falando na transmissão de informações. Comunicar não se limita, entretanto, a transmitir informações. Realmente, há momentos em que desejamos apenas fornecer uma informação, mas, muito frequentemente, temos outros objetivos, como: dar uma ordem, expressar um sentimento, fazer um pedido, exercer algum tipo de influência, fazer o outro mudar de opinião...
O ser humano vive em sociedade, isto é, fazemos parte de grupos sociais e agimos em conjunto com nossos semelhantes; interagimos. Na verdade, é para interagir que nos comunicamos, falamos e escrevemos. Por isso, não podemos nos esquecer de que a comunicação, ou a interação, envolve mais do que simplesmente informação; envolve, sobretudo, alguma forma de ação sobre o outro.
Ana Lúcia Tinoco Cabral. A força das palavras. São Paulo: Editora Contexto, 2010, p. 10-11 (com adaptações).
Texto CB1A1-III
Considerando os aspectos textuais e linguísticos do texto CB1A1-III, bem como as ideias nele veiculadas, julgue o item seguinte.
Sem prejuízo da correção gramatical do texto, as palavras “é” e “que”, presentes no segundo período do segundo parágrafo, poderiam ser suprimidas.
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GabaritoE — Errado
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Supressão de “é” e “que” no segundo parágrafo
Gabarito: letra E (ERRADO). A supressão das palavras “é” e “que” no trecho “é para interagir que nos comunicamos” não é possível sem prejuízo da correção gramatical, pois elas formam a locução expletiva de realce “é...que”, que, embora dispensável semanticamente, não pode ser retirada sem comprometer a estrutura sintática do período. A banca explora a confusão entre a possibilidade de supressão sem prejuízo de sentido (que é verdadeira) e a supressão sem prejuízo gramatical (que é falsa).
O comando da questão
O enunciado pede que se julgue se as palavras “é” e “que” poderiam ser suprimidas “sem prejuízo da correção gramatical do texto”. O foco não é o sentido, mas a gramática: a retirada desses vocábulos deixaria o período “é para interagir que nos comunicamos” sem verbo principal, o que inviabiliza a oração. A banca não pergunta se a locução é expletiva (o que seria verdadeiro), mas se a supressão é gramaticalmente possível — e não é.
O trecho em análise
No segundo parágrafo, lê-se:
“Na verdade, é para interagir que nos comunicamos, falamos e escrevemos.”
Aqui, “é...que” é uma partícula expletiva de realce (também chamada de palavra denotativa expletiva). Ela serve apenas para dar ênfase ao termo “para interagir”, sem acrescentar informação nova. Se a retirarmos, o sentido permanece o mesmo:
“é para interagir que nos comunicamos” → “para interagir nos comunicamos” (sentido mantido, mas a frase fica agramatical).
A técnica que decide
A pegadinha está em distinguir dois tipos de prejuízo: o semântico (de sentido) e o sintático (de estrutura). A locução expletiva pode ser suprimida sem alterar o sentido, mas, no caso concreto, a supressão quebra a estrutura da oração, pois o verbo “é” é o único verbo principal do período. Sem ele, a frase “para interagir que nos comunicamos” não tem verbo finito — fica um fragmento, não uma oração.
Compare com um caso em que a supressão é possível:
“Foi ele que fez o bolo” → “Ele fez o bolo” (aqui, o verbo “fez” já é o principal; “foi...que” é só realce).
No texto, porém, o verbo “é” é o núcleo do predicado. Retirá-lo deixa o período sem verbo, o que é um erro gramatical grave.
Análise da alternativa
Supressão de "é...que": Natureza da locução (Expletiva de realce, Dispensável semanticamente); Estrutura sintática ("é" é o verbo principal, Retirada deixa oração sem verbo); Critério decisivo (Sem prejuízo de sentido → possível, Sem prejuízo gramatical → [-] impossível)
Alternativa E — ❌ Errado ⟵ GABARITO
A afirmação está errada. A supressão de “é” e “que” no trecho “é para interagir que nos comunicamos” não é possível sem prejuízo da correção gramatical. O verbo “é” é o núcleo do predicado; sem ele, a oração fica sem verbo principal, tornando o período agramatical. A banca explora a confusão entre a natureza expletiva da locução (que permite a retirada sem mudança de sentido) e a impossibilidade sintática de retirá-la neste contexto específico.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca o critério: afirma que a supressão é possível “sem prejuízo da correção gramatical”, mas a locução expletiva, embora dispensável semanticamente, não pode ser retirada quando o verbo “é” é o único verbo principal da oração. O candidato que sabe que “é...que” é expletiva marca “certo” sem verificar se a retirada preserva a estrutura sintática.
PEGA ESSA DICA!
Ao julgar itens sobre supressão de palavras, pergunte-se: “o que sobra depois da retirada?”. Se sobrar uma oração com verbo principal, a supressão é possível; se sobrar um fragmento sem verbo, não é.
Conclusão: a locução “é...que” é expletiva de realce, mas, no trecho, o verbo “é” é essencial à estrutura da oração. Sua retirada compromete a correção gramatical. Portanto, o item está errado.