Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402445
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TSE
Ano
2024
Cargo
AJ

A palavra ficção nos remete a histórias inventadas (total ou parcialmente). Pode ser uma fantasia, que envolva monstros, heróis ou fantasmas, pode ser uma ficção científica, que envolva tecnologias que vão muito além daquelas que existem hoje, e também pode ser um romance comum, totalmente realista, mas com enredo, personagens ou ambientes inventados.


Dessa forma, uma matéria jornalística jamais poderia ser considerada ficcional, já que um dos pilares do jornalismo é a busca pela verdade e a publicização das informações com precisão e veracidade. Um jornal que noticiasse ficções estaria ferindo um de seus princípios mais fundamentais.


Apesar de essa definição de ficção ser bem popular, os críticos e teóricos de cinema franceses Jacques Aumont e Michel Marie afirmam que a ficção é uma forma de discurso que faz referência a personagens ou a ações que só existem na imaginação daquele que a escreve ou lê. Segundo eles, a ficção não é uma mentira, mas um simulacro da realidade, uma das possíveis maneiras de se representar o real.


Assim, podemos dizer que todo relato é uma tentativa de representar a realidade por meio de palavras. Um relato de um acontecimento não é o próprio acontecimento em si. Os fatos ficam no passado, depois que acontecem. Qualquer tentativa de retomá-los no presente, por meio de uma história, será uma representação, será uma construção da mente de uma pessoa. Logo, será uma ficção.


Lucia Mascarenhas de Miranda. A fronteira entre fato e ficção.

In: Ciência Hoje, outubro de 2024. Internet: <cienciahoje.org.br> (com adaptações). FimDoTexto

Texto CB1A1-II

 

Julgue o item a seguir com base nas ideias apresentadas no texto CB1A1-II.

 

A ficção é um tipo de discurso por meio do qual se apreende o real, atualizando-o por meio de palavras.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A ficção como representação do real

Gabarito: ERRADO. A afirmação de que a ficção é um discurso por meio do qual se apreende o real, atualizando-o contradiz a tese central do texto. Para a autora, a ficção é uma representação da realidade, uma construção da mente, e não uma apreensão direta do real. A passagem que decide a questão está no 4º parágrafo: "Qualquer tentativa de retomá-los no presente, por meio de uma história, será uma representação, será uma construção da mente de uma pessoa. Logo, será uma ficção."

O comando e o texto

A questão pede um julgamento Certo/Errado com base nas ideias do texto. Isso significa que a resposta deve ser uma paráfrase fiel do que a autora defende — nada de inferências além do que está escrito, nem de conhecimento de mundo sobre o que é ficção. O texto é dissertativo-argumentativo: a autora parte da definição popular de ficção (histórias inventadas), contrapõe a visão dos teóricos Aumont e Marie (ficção como simulacro da realidade) e conclui com sua própria tese no último parágrafo.

A tese da autora: representação, não apreensão

O ponto central é a distinção entre representar e apreender. A autora afirma que todo relato é uma "tentativa de representar a realidade por meio de palavras" e que "um relato de um acontecimento não é o próprio acontecimento em si". Ou seja, a ficção não captura o real diretamente; ela o reconstrói a partir da imaginação de quem escreve ou lê. A palavra "atualizando-o" na assertiva sugere que a ficção traria o real para o presente de forma direta, o que não corresponde à ideia de "construção da mente" defendida no texto.

"Os fatos ficam no passado, depois que acontecem. Qualquer tentativa de retomá-los no presente, por meio de uma história, será uma representação, será uma construção da mente de uma pessoa. Logo, será uma ficção."

A passagem mostra que a ficção é uma mediação — uma representação construída — e não uma apreensão imediata do real. A assertiva, ao dizer que a ficção "apreende o real, atualizando-o", contradiz essa tese, pois apreender sugere captar diretamente, enquanto o texto fala em representar, construir.

A pegadinha da banca

A banca explora a troca de vocábulo que inverte o sentido. A assertiva usa "apreende o real" — verbo que sugere captura direta, acesso imediato à realidade. O texto, porém, usa "representar" e "construção da mente", que indicam uma reconstrução subjetiva, não uma captura. Quem lê rapidamente pode achar que a assertiva resume bem o texto, mas a troca de "representar" por "apreender" muda completamente o sentido.

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca o verbo "representar" (usado no texto) por "apreender" (que sugere captura direta do real). A ficção, para a autora, é uma construção, não uma apreensão.

Análise do item

Item — ❌ ERRADO

A assertiva afirma que a ficção é um discurso "por meio do qual se apreende o real, atualizando-o por meio de palavras". O texto, no entanto, sustenta exatamente o oposto: a ficção é uma representação da realidade, uma "construção da mente de uma pessoa", e não uma apreensão direta. A autora é explícita ao dizer que "todo relato é uma tentativa de representar a realidade por meio de palavras" e que "um relato de um acontecimento não é o próprio acontecimento em si".

O erro está na troca de conceito: "apreender" (captar, assimilar diretamente) versus "representar" (reconstruir, recriar). A ficção, no texto, não atualiza o real; ela o reapresenta de forma mediada pela imaginação. Portanto, a afirmação contradiz o texto.

Conclusão

A questão se resolve pela fidelidade ao vocabulário do texto. A autora nunca diz que a ficção apreende o real; ela diz que a ficção o representa. Sempre que uma assertiva trocar um verbo central por outro de sentido próximo, mas não idêntico, desconfie: a banca está testando se você percebe a diferença entre apreender e representar.

Gabarito: ERRADO.

Link permanente: /questoes/ce402445