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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402466
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TSE
Ano
2024
Cargo
AJ

O sofista e o ignorante ocupam mais o pensamento de Platão que o mentiroso, e quando ele distingue entre o erro e a mentira — quer dizer, entre “involuntário e voluntário” — é, de modo significativo, mais duro em relação àqueles que “chafurdam na ignorância de porcos” que em relação aos mentirosos. Terá isso acontecido porque era ainda desconhecida a mentira organizada, que domina a coisa pública, à diferença do mentiroso privado que tenta a sua sorte por sua própria conta?


A mentira tradicional implicava apenas particulares e nunca visava enganar literalmente toda a gente; dirigia-se ao inimigo e só a ele queria enganar. Como os fatos se produzem sempre num contexto, uma mentira particular — quer dizer, uma falsificação que não se esforça por alterar todo o contexto — faz, por assim dizer, um buraco no tecido dos fatos. Como todo o historiador sabe, pode-se detectar uma mentira observando-se incongruências, buracos, ou junturas dos espaços consertados. Enquanto a textura no seu todo for conservada intacta, a mentira mostrar-se-á imediatamente de modo espontâneo.


Se as mentiras políticas modernas são tão grandes que requerem um completo rearranjo de toda a textura factual — o fabrico de uma outra realidade, por assim dizer, na qual se encaixam sem costuras, fendas nem fissuras, exatamente como os fatos encaixavam no seu contexto original —, o que é que impede estas histórias, imagens e não fatos novos de se tornarem um substituto adequado da realidade e da factualidade?


Hannah Arendt. Verdade e política.
Internet: <edisciplinas.usp.br> (com adaptações).

Texto CB1A2-II

 

No que se refere aos sentidos e às ideias do texto CB1A2-II, julgue o item a seguir.

 

Dados os sentidos do texto, é correto concluir do trecho “uma mentira particular — quer dizer, uma falsificação que não se esforça por alterar todo o contexto” (segundo período do segundo parágrafo) que há, pelo menos, um outro tipo de mentira: uma falsificação que se esforça por alterar todo o contexto.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência a partir de pressuposto: a mentira que altera todo o contexto

Gabarito: Certo (C). O trecho citado define a mentira particular como "uma falsificação que não se esforça por alterar todo o contexto". A negação "não" pressupõe a existência de uma falsificação que se esforça por alterar todo o contexto — exatamente o que o item afirma. A conclusão é uma inferência legítima, ancorada em pista linguística do próprio texto, não uma extrapolação.

O comando: inferência, não recorrência

O enunciado pede para "concluir" do trecho — verbo típico de inferência. Não se trata de localizar uma informação explícita (recorrência), mas de deduzir algo que está implícito, porém marcado linguisticamente. A diferença é crucial: em recorrência, a resposta é paráfrase do que está escrito; em inferência, a resposta é uma dedução obrigatória a partir de pistas do texto. Aqui, a pista é a estrutura de negação.

A pista no texto: a negação como pressuposto

"uma mentira particular — quer dizer, uma falsificação que não se esforça por alterar todo o contexto"

A expressão "quer dizer" introduz uma definição da mentira particular. Essa definição é construída com uma negação: "não se esforça por alterar todo o contexto". Toda negação pressupõe a existência do que é negado. Se digo "João não fuma", pressuponho que existe o ato de fumar e que João não o pratica. Da mesma forma, ao dizer que a mentira particular é uma falsificação que não se esforça por alterar todo o contexto, o texto pressupõe que existe uma falsificação que se esforça por alterar todo o contexto — ou seja, um outro tipo de mentira.

Essa pressuposição é reforçada no terceiro parágrafo, quando o autor fala das "mentiras políticas modernas" que "requerem um completo rearranjo de toda a textura factual". O texto, portanto, não apenas permite, mas exige a conclusão de que há, pelo menos, um outro tipo de mentira: a que altera todo o contexto.

A técnica: distinguir pressuposto de subentendido

O pressuposto é uma informação implícita, mas marcada linguisticamente — está "nas palavras", como a negação. O subentendido é uma insinuação não marcada, que depende de contexto extralinguístico. Nesta questão, a conclusão se apoia em um pressuposto (a negação), portanto é uma inferência legítima e necessária. Não é uma extrapolação, pois não acrescenta nada de fora do texto; apenas explicita o que a estrutura linguística já contém.

Por que as alternativas erradas falham

  • Alternativa E (Errado): Esta alternativa contradiz a lógica do texto. Ela nega que se possa concluir a existência de outro tipo de mentira, mas o próprio trecho, ao usar a negação "não se esforça", pressupõe exatamente essa existência. Quem marca E está ignorando o mecanismo da pressuposição e tratando o trecho como se fosse uma definição fechada, sem implicações. É o erro clássico de não perceber a pista linguística.

Conclusão

A resposta correta é Certo (C). A negação "não se esforça por alterar todo o contexto" é uma pista linguística que pressupõe a existência de uma falsificação que se esforça por alterar todo o contexto. A conclusão do item é uma inferência ancorada no texto, não uma extrapolação. Para questões de inferência, pergunte sempre: "há uma pista no texto que obriga a essa conclusão?" Se sim, a inferência é válida.

Inferência
  • 1Pressuposto (marcado linguisticamente)
    • Conclusão legítima e necessária
    • Ex.: negação "não se esforça"
  • 2Subentendido (não marcado)
    • Depende de contexto extralinguístico
    • Insinuação
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Gabarito: Certo (C).

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