Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402467
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TSE
Ano
2024
Cargo
AJ

O sofista e o ignorante ocupam mais o pensamento de Platão que o mentiroso, e quando ele distingue entre o erro e a mentira — quer dizer, entre “involuntário e voluntário” — é, de modo significativo, mais duro em relação àqueles que “chafurdam na ignorância de porcos” que em relação aos mentirosos. Terá isso acontecido porque era ainda desconhecida a mentira organizada, que domina a coisa pública, à diferença do mentiroso privado que tenta a sua sorte por sua própria conta?


A mentira tradicional implicava apenas particulares e nunca visava enganar literalmente toda a gente; dirigia-se ao inimigo e só a ele queria enganar. Como os fatos se produzem sempre num contexto, uma mentira particular — quer dizer, uma falsificação que não se esforça por alterar todo o contexto — faz, por assim dizer, um buraco no tecido dos fatos. Como todo o historiador sabe, pode-se detectar uma mentira observando-se incongruências, buracos, ou junturas dos espaços consertados. Enquanto a textura no seu todo for conservada intacta, a mentira mostrar-se-á imediatamente de modo espontâneo.


Se as mentiras políticas modernas são tão grandes que requerem um completo rearranjo de toda a textura factual — o fabrico de uma outra realidade, por assim dizer, na qual se encaixam sem costuras, fendas nem fissuras, exatamente como os fatos encaixavam no seu contexto original —, o que é que impede estas histórias, imagens e não fatos novos de se tornarem um substituto adequado da realidade e da factualidade?


Hannah Arendt. Verdade e política.
Internet: <edisciplinas.usp.br> (com adaptações).

Texto CB1A2-II

 

No que se refere aos sentidos e às ideias do texto CB1A2-II, julgue o item a seguir.

 

Do desenvolvimento do texto depreende-se que a frase interrogativa que constitui o último parágrafo visa estimular a reflexão do leitor, e não fazer, de fato, uma pergunta sobre algo que a autora desconhece.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A função retórica da pergunta no último parágrafo

Gabarito: CERTO. A frase interrogativa do último parágrafo — "o que é que impede estas histórias, imagens e não fatos novos de se tornarem um substituto adequado da realidade e da factualidade?" — tem função retórica: não busca informação que a autora desconheça, mas provoca a reflexão do leitor sobre o problema levantado. A própria construção do parágrafo, que apresenta uma hipótese ("Se as mentiras políticas modernas são tão grandes..."), seguida da pergunta, revela que a autora já sabe a resposta e quer conduzir o leitor a pensar sobre ela.

O comando: depreender ≠ localizar

O enunciado pede que se depreenda (inferência) uma função da pergunta. Isso é diferente de uma questão de recorrência (localizar informação explícita). Aqui, a resposta não está escrita literalmente — "esta pergunta é retórica" —, mas é uma dedução ancorada em pistas do texto. A pista central é o contexto argumentativo: a pergunta vem depois de uma constatação (a grandeza das mentiras políticas modernas) e antes da conclusão implícita (que essas mentiras podem, sim, se tornar substitutos da realidade). A pergunta, portanto, amarra o raciocínio, convidando o leitor a refletir, e não a responder algo que a autora ignore.

A técnica: pergunta retórica em texto dissertativo-argumentativo

Em textos dissertativo-argumentativos (como este, de Hannah Arendt), a pergunta retórica é um recurso argumentativo clássico. Ela:

  • Engaja o leitor: faz com que ele participe ativamente da construção do sentido.

  • Antecipa uma objeção ou uma dúvida: a autora levanta a questão para, em seguida, respondê-la ou deixá-la como provocação.

  • Reforça a tese: a pergunta "o que impede...?" já carrega a pressuposição de que algo poderia impedir, mas que, na prática, nada impede — ou seja, a autora já tem a posição dela.

A alternativa não afirma que a pergunta é "apenas" um recurso estilístico vazio; afirma que ela visa estimular a reflexão e não é uma pergunta sobre algo que a autora desconhece. Isso é exatamente o que a leitura do parágrafo sustenta: a autora domina o tema (ela acabou de explicar o mecanismo das mentiras políticas) e usa a pergunta como ferramenta de persuasão.

Por que a afirmativa está correta

"Se as mentiras políticas modernas são tão grandes que requerem um completo rearranjo de toda a textura factual — o fabrico de uma outra realidade, por assim dizer, na qual se encaixam sem costuras, fendas nem fissuras, exatamente como os fatos encaixavam no seu contexto original —, o que é que impede estas histórias, imagens e não fatos novos de se tornarem um substituto adequado da realidade e da factualidade?"

A pergunta é introduzida por "Se..." (condição) e apresenta uma consequência lógica ("o que é que impede...?"). A autora não está perguntando "o que impede?" porque não sabe; ela está provocando o leitor a perceber que, se as mentiras são tão perfeitas, nada as impede de virar a "realidade". A pergunta é o clímax argumentativo do parágrafo, não uma dúvida genuína.

Fechamento

A questão testa a capacidade de distinguir entre uma pergunta informativa (que busca resposta) e uma retórica (que busca reflexão). A pista é o contexto: a autora já apresentou os fatos e a pergunta conclui o raciocínio, não o inicia. Gabarito: CERTO.

  1. 1Engaja o leitor
  2. 2Antecipa objeção/dúvida
  3. 3Reforça a tese
  4. 4Conclui o raciocínio
LEVEL · soulevel.com.br

Link permanente: /questoes/ce402467