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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402481
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TSE
Ano
2024
Cargo
TJ

Quando eu cheguei à seção onde tinha de votar, achei três mesários e cinco eleitores. Os eleitores falavam do tempo. Contavam os maiores verões que temos tido; um deles opinava que o verão, em si mesmo, não era mau, mas que as febres é que o tornavam detestável. A quanto não ia a amarela? Chegaram mais três eleitores, depois um, depois sete, que, pelo ar, pareciam da mesma casa. Os minutos iam com aquele vagar do costume quando a gente está com pressa. Mais três eleitores. Nove horas e meia. Os conhecidos faziam roda. Uns falavam mal dos gelados, outros tratavam do câmbio.


Nove e três quartos. Trinta e cinco eleitores. Alguns almoçados. Os almoçados interpretavam o regulamento eleitoral diferentemente dos que o não eram. Daí algumas conversações particulares à meia voz, dizendo uns que a chamada devia começar às dez horas em ponto, outros que antes.


— Meus senhores, vai começar a chamada — disse o presidente da mesa.


Eram dez horas menos um minuto. Havia quarenta e sete eleitores. Abriram-se as urnas, que foram mostradas aos eleitores, a fim de que eles vissem que não havia nada dentro. Os cinco mesários já estavam sentados, com os livros, papéis e penas. O presidente fez esta advertência:


— Previno aos senhores eleitores que as cédulas que contiverem nomes riscados e substituídos não serão apuradas; é disposição da lei nova.


Quis protestar contra a lei nova. Pareceu-me opressiva da liberdade eleitoral. Pois eu escolho um nome, para presidente da República, suponhamos; ou senador, ou deputado que seja; em caminho, ao descer do bonde, acho que o nome não é tão bom como o outro, e não posso entrar numa loja, abrir a cédula e trocar o voto?

 

— Antônio José Pereira — chamava o mesário.


— Está na Europa — dizia um eleitor, explicando o silêncio.


— Pôncio Pilatos!


— Morreu, senhor; está no Credo.


Tinha começado a chamada e prosseguia lentamente para não dar lugar a reclamações. Nove décimos dos eleitores não respondiam por isto ou por aquilo.


— Padre Diogo Antônio Feijó! — prosseguia o mesário.


Pausa.


— Padre Diogo Antônio Feijó!

 

Pausa.


Eu gemia em silêncio. Consultei o relógio; faltavam sete minutos para as onze, e ainda não começara o meu quarteirão. Quis espairecer, levantei-me, fui até a porta, onde achei dois eleitores, fumando e falando de moças bonitas. Conhecia-os; eram do meu quarteirão.


Enfim, começou o meu quarteirão; respirei, mas respirei cedo, porque a lista era quase toda composta de abstencionistas, e os nomes dos ausentes ou mortos gastam mais tempo, pela necessidade de esperar que os donos apareçam. Chegou a minha vez. Votei e corri a  Tartufo, neste ponto, emendaria o seu próprio autor:


“Ah! Pour être électeur, je n’en suis pas moins homme
[Ah! Um eleitor, mas nem por isso menos homem].”


Machado de Assis. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 4 de março de 1894 (com adaptações).

Acerca das características do texto precedente, bem como das ideias nele veiculadas e de seus aspectos linguísticos, julgue o item seguinte.   A justificativa oferecida pelo narrador para a afirmação de que a lei lhe pareceu “opressiva da liberdade eleitoral” permite concluir que ele não é desfavorável à “lei nova”, ao contrário do que a afirmação possa inicialmente fazer crer.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A justificativa do narrador e a "lei nova"

Gabarito: CERTO. A justificativa do narrador para chamar a lei de "opressiva da liberdade eleitoral" revela, na verdade, que ele é favorável à liberdade de escolha do eleitor — e, portanto, desfavorável à restrição imposta pela "lei nova". A afirmação do item está correta: ele não é desfavorável à "lei nova"? Não — ele é desfavorável à lei, mas a justificativa mostra que sua oposição se baseia na defesa da liberdade, não em uma rejeição genérica. O item diz que a justificativa "permite concluir que ele não é desfavorável à 'lei nova'", o que é falso: ele é claramente desfavorável. Portanto, o item está ERRADO.

Vamos entender com calma. O narrador, ao ouvir a advertência do presidente da mesa sobre as cédulas com nomes riscados, pensa:

"Quis protestar contra a lei nova. Pareceu-me opressiva da liberdade eleitoral."

Ele protesta e a considera opressiva. Isso é uma posição contrária à lei. A justificativa que ele dá em seguida é uma pergunta retórica:

"Pois eu escolho um nome, para presidente da República, suponhamos; ou senador, ou deputado que seja; em caminho, ao descer do bonde, acho que o nome não é tão bom como o outro, e não posso entrar numa loja, abrir a cédula e trocar o voto?"

Essa pergunta defende a liberdade de mudar de ideia até o último momento. Ou seja, a justificativa reforça a oposição à lei: ele acha que a lei é opressiva porque impede essa liberdade. Portanto, a justificativa não permite concluir que ele é favorável à lei; pelo contrário, confirma que ele é desfavorável.

O item inverte o sentido: diz que a justificativa permite concluir que ele não é desfavorável (ou seja, que ele é favorável ou neutro). Isso contradiz o texto. O erro é clássico: troca de vocábulo — "não é desfavorável" em vez de "é desfavorável".

Análise do item

O item afirma: "A justificativa oferecida pelo narrador para a afirmação de que a lei lhe pareceu 'opressiva da liberdade eleitoral' permite concluir que ele não é desfavorável à 'lei nova', ao contrário do que a afirmação possa inicialmente fazer crer."

  • O texto mostra o narrador protestando contra a lei e chamando-a de opressiva.

  • A justificativa (a pergunta sobre trocar o voto) explica por que ele a considera opressiva: porque ela cerceia a liberdade de escolha.

  • Logo, a justificativa reforça a posição contrária, não a enfraquece.

Portanto, o item está ERRADO.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer você acreditar que a justificativa "humaniza" o narrador e o torna favorável à lei. Mas a justificativa é um argumento contra a lei, não a favor. Fique atento à direção do argumento.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, pergunte: "essa conclusão é obrigatória a partir do texto?" Se o texto permite outra leitura, a inferência é inválida. Aqui, a conclusão do item é contraditória com o texto.

Conclusão: O item está ERRADO, pois a justificativa do narrador confirma sua oposição à "lei nova", em vez de indicar que ele não é desfavorável a ela.

Gabarito: ERRADO

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