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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
ce402503
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
Pref Aracaju
Ano
2024
Cargo
Prof ( )

Uma galinha


Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.


Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto voo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro voo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado
onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.


Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.


Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.


Clarice Lispector.

Laços de Família. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998 (com adaptações).

Julgue o item a seguir, referente a recursos estilísticos e estruturais do fragmento apresentado do conto Uma galinha, de Clarice Lispector. A expressão “o almoço” (quarto período do segundo parágrafo) retoma, por coesão lexical, o termo que nomeia a personagem título do texto.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão lexical: o referente de “o almoço”

Gabarito: letra E (ERRADO). A expressão “o almoço” não retoma, por coesão lexical, o termo que nomeia a personagem título do texto (a galinha). O que ela retoma é a ideia de que a galinha seria servida como alimento — uma relação de metonímia (a causa pelo efeito), não de sinonímia ou substituição lexical. A passagem que prova isso está no segundo parágrafo: “A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé”.

O comando: o que a banca pede

A questão cobra coesão referencial — mais especificamente, a identificação do referente de uma expressão nominal (“o almoço”) e o tipo de mecanismo coesivo empregado. O enunciado afirma que “o almoço” retoma “o termo que nomeia a personagem título do texto”, ou seja, a palavra “galinha”. Para julgar, é preciso responder a duas perguntas: (1) “o almoço” se refere à galinha? (2) essa retomada é feita por coesão lexical (sinônimo, hiperônimo, etc.)?

O texto: onde mora a resposta

No segundo parágrafo, a narrativa descreve a fuga da galinha pelos telhados. O trecho decisivo é:

“A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé.”

Aqui, “o almoço” não é um sinônimo de “galinha”. A galinha é um ser vivo; “almoço” é a refeição que se faria com ela. Há uma relação de contiguidade semântica: a galinha é a causa (o animal que seria abatido) e o almoço é o efeito (a refeição). Essa substituição de um termo por outro com o qual mantém relação de causa e efeito é um caso clássico de metonímia, não de coesão lexical por sinonímia.

A técnica: coesão lexical × metonímia

Coesão lexical é o mecanismo que retoma um termo por meio de sinônimos, hiperônimos, hipônimos, nominalizações etc., sempre mantendo uma relação de equivalência semântica — por exemplo, “a galinha” retomada por “a ave” ou “o animal”. Já a metonímia substitui um termo por outro com o qual mantém uma relação de contiguidade (causa/efeito, autor/obra, continente/conteúdo). No texto, “o almoço” não é um sinônimo de “galinha”; é o resultado de se cozinhar a galinha. Portanto, a retomada é metonímica, não lexical.

Análise da assertiva

Retomada de “o almoço”
  • 1Coesão lexical
    • Sinônimo
    • Hiperônimo
    • Hipônimo
    • Equivalência semântica
  • 2Metonímia
    • Contiguidade semântica
    • Causa → efeito
    • Galinha → refeição
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Assertiva — ❌ ERRADO

A assertiva afirma que “o almoço” retoma, por coesão lexical, o termo que nomeia a personagem título do texto. Isso é falso por dois motivos:

  1. Não é coesão lexical: “almoço” não é sinônimo, hiperônimo ou hipônimo de “galinha”. A relação é de metonímia (a causa pelo efeito).

  2. O referente não é exatamente “galinha”: “o almoço” refere-se à galinha enquanto alimento, ou seja, à ideia de que ela seria servida como refeição. Não é uma retomada direta do animal como ser vivo.

A passagem que comprova é:

“A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé.”

A família vê a galinha no telhado, mas a chama de “almoço” porque é o que ela representa naquele contexto: a refeição que seria preparada. Isso é metonímia, não coesão lexical.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer você acreditar que “almoço” é um sinônimo de “galinha”. Mas sinônimo é uma palavra de sentido equivalente; “almoço” é o efeito de se cozinhar a galinha. A relação é de contiguidade, não de equivalência.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar coesão lexical, pergunte: “essa palavra poderia substituir a anterior sem mudar o sentido?” Se não puder, não é coesão lexical — pode ser metonímia, elipse, etc.

Conclusão: a assertiva está errada, pois “o almoço” não retoma “galinha” por coesão lexical, mas por metonímia. O gabarito é letra E.

Gabarito: letra E

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