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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402508
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2024
Cargo
Vest ( )

Inteligências artificiais (IA) já foram capazes de vencer o campeão humano de xadrez e de passar em concursos de universidades de ponta, mas são capazes de contar histórias melhor do que nós? Um recente estudo mostrou que não. Pesquisadores espanhóis pediram que o premiado romancista argentino Patricio Pron e o ChatGPT-4 escrevessem histórias curtas sobre os mesmos temas. Em seguida, eles compararam os resultados com base na opinião de centenas de críticos literários. O desafio, que foi chamado de “Pron versus Prompt”, mostrou que as máquinas ainda estão longe de vencer o talento humano quando o assunto é criatividade. Esse exemplo foi trazido pelo acadêmico Edmundo de Souza e Silva durante mesa-redonda na 76.ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). “São essencialmente máquinas de estatística, com uma capacidade imensa de entender padrões, mas elas estão limitadas à sua base de dados, não vão criar nada”, afirmou o cientista da computação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O que está ocorrendo nessa revolução de IA é que as bases de dados se tornaram imensas, para além até da nossa capacidade de curadoria. Aliadas a um poder de processamento cada vez maior, surgiram máquinas com capacidade de dominar a linguagem natural (inglês, português etc.) para muito além do que os especialistas imaginavam ser possível. “Muitos imaginavam que, quando as máquinas dominassem a linguagem natural, elas seriam verdadeiramente inteligentes. Pois bem, está acontecendo”, refletiu o acadêmico Osvaldo Novais Jr., professor de física e especialista em linguística computacional. Por isso, embora ainda longe de dominarem a atividade criativa nas artes, as IA já estão perto de dominar outro ramo da cultura: a ciência. “Creio que estamos nos aproximando de um novo paradigma científico, segundo o qual a própria máquina vai gerar conhecimento. Essa será a maior de todas as revoluções tecnológicas, pois não precisará mais do humano no processo”, afirmou Novais.


Academia Brasileira de Ciências. Inteligência artificial não faz literatura, mas pode fazer ciência.
Internet: <https://www.abc.org.br> (com adaptações).

Imagem associada para resolução da questão

Cena do filme A regra do jogo, de 1939.


Em A regra do jogo, filme de Jean Renoir, de 1939, a gorda senhora pianista, com as mãos no colo, pode ser vista olhando, embevecida e melancólica, para a autonomia esquelética do teclado, atrás do qual as cordas do piano assumiram o controle total. Essa é uma síntese imagética da obra de arte nesse estágio particular de sua reprodução mecânica, olhando para o seu próprio poder alienado com fascinação mórbida. O pós-moderno, no entanto, alcançou um estágio mais avançado do que esse; ao contrário do deleite do moderno em seus projetos de máquinas que operam maravilhas, seu deleite com o colapso dessas máquinas no ponto crítico está sujeito aos mais graves mal-entendidos se não percebermos que é precisamente assim que a tecnologia pós-moderna consome e celebra a si mesma.


Fredric Jameson. Pós-modernismo. A lógica cultural do capitalismo tardio. Trad. Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática, 1997, p. 383 (com adaptações).

Com base nas informações dos textos precedentes acerca da relação entre tecnologia e arte, bem como na reflexão que o recorte da cena do filme A regra do jogo suscita, julgue os itensa seguir.


De acordo com o texto acerca da cena do filme A regra do jogo, verifica-se uma evolução positiva da relação entre arte e tecnologia ao longo da história moderna, pois o sujeito humano permanece, em todos os momentos, como o elemento central a ser celebrado pela tecnologia.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A relação entre arte e tecnologia no texto de Jameson

Gabarito: ERRADO. A afirmação de que há uma "evolução positiva" da relação entre arte e tecnologia, com o sujeito humano permanecendo "em todos os momentos" como elemento central, contradiz diretamente o texto de Jameson. O autor descreve, na verdade, um processo de alienação e perda de controle do humano sobre a máquina, culminando na celebração do colapso da tecnologia no pós-moderno, e não na celebração do humano.

O comando pede um julgamento (Certo/Errado) com base na compreensão do texto sobre a cena do filme. Isso significa que a resposta deve ser ancorada no que está explícito ou diretamente inferível do trecho de Jameson, sem acrescentar opiniões ou fatos externos. A banca não quer saber o que você acha sobre tecnologia e arte; quer saber se a leitura da assertiva é fiel ao texto.

O texto de Jameson descreve a cena do filme como uma "síntese imagética da obra de arte nesse estágio particular de sua reprodução mecânica, olhando para o seu próprio poder alienado com fascinação mórbida". A palavra-chave aqui é "alienado": o poder da obra de arte (o piano, a máquina) está separado do humano (a pianista, que olha "embevecida e melancólica" para o teclado que "assumiu o controle total"). Não há celebração do humano; há a contemplação de sua própria perda de controle.

A assertiva erra ao afirmar que o sujeito humano permanece como "elemento central a ser celebrado". O texto mostra exatamente o contrário: a pianista é uma figura passiva, que observa o teclado "assumir o controle total". A tecnologia não celebra o humano; ela o aliena. No pós-moderno, o texto afirma que a tecnologia "consome e celebra a si mesma", não o humano.

"a autonomia esquelética do teclado, atrás do qual as cordas do piano assumiram o controle total"

Essa passagem é decisiva: o controle está com a máquina, não com o humano. A pianista é apenas espectadora. Portanto, a ideia de que o humano é "o elemento central a ser celebrado" é uma inversão do que o texto sustenta.

"o pós-moderno... seu deleite com o colapso dessas máquinas no ponto crítico... é precisamente assim que a tecnologia pós-moderna consome e celebra a si mesma"

Aqui, o texto mostra que a celebração é da própria tecnologia, não do humano. A assertiva, ao dizer que o humano é celebrado "em todos os momentos", contradiz frontalmente essa passagem.

1Moderno
Obra de arte com poder alienado
Humano perde o controle
Fascinação mórbida
2Pós-moderno
Deleite com o colapso
Tecnologia celebra a si mesma
3Assertiva (errada)
"Evolução positiva"
Humano como centro celebrado
Relação arte × tecnologia (Jameson)
LEVELsoulevel.com.br
Relação arte × tecnologia (Jameson): Moderno (Obra de arte com poder alienado, Humano perde o controle, Fascinação mórbida); Pós-moderno (Deleite com o colapso, Tecnologia celebra a si mesma); Assertiva (errada) ("Evolução positiva", Humano como centro celebrado)

Item — ❌ Errado ⟵ GABARITO

A assertiva está errada porque inverte o sentido do texto. O texto de Jameson não fala em "evolução positiva" nem em celebração do humano; fala em alienação e em perda de controle do humano para a máquina. A pianista olha "embevecida e melancólica" para o teclado que "assumiu o controle total" — não há celebração do humano, há fascinação mórbida pelo poder alienado da obra de arte. No pós-moderno, a tecnologia "consome e celebra a si mesma", não o humano. Portanto, a afirmação de que o humano permanece como "elemento central a ser celebrado" é uma extrapolação e uma contradição com o texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca o sujeito da celebração: no texto, quem é celebrada é a tecnologia (que "consome e celebra a si mesma"); na assertiva, é o humano. Além disso, usa o termo "evolução positiva" para mascarar o tom crítico do autor.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de certo/errado, desconfie de palavras absolutas como "todos", "sempre", "em todos os momentos". Elas costumam sinalizar uma generalização indevida. Confronte com o texto: o autor fala em "estágio particular" e em "colapso", não em evolução linear positiva.

Conclusão: a assertiva está errada porque contradiz o texto de Jameson, que descreve a alienação do humano e a autofagia da tecnologia, não uma evolução positiva com o humano como centro. Gabarito: ERRADO.

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