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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402509
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2024
Cargo
Vest ( )

Inteligências artificiais (IA) já foram capazes de vencer o campeão humano de xadrez e de passar em concursos de universidades de ponta, mas são capazes de contar histórias melhor do que nós? Um recente estudo mostrou que não. Pesquisadores espanhóis pediram que o premiado romancista argentino Patricio Pron e o ChatGPT-4 escrevessem histórias curtas sobre os mesmos temas. Em seguida, eles compararam os resultados com base na opinião de centenas de críticos literários. O desafio, que foi chamado de “Pron versus Prompt”, mostrou que as máquinas ainda estão longe de vencer o talento humano quando o assunto é criatividade. Esse exemplo foi trazido pelo acadêmico Edmundo de Souza e Silva durante mesa-redonda na 76.ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). “São essencialmente máquinas de estatística, com uma capacidade imensa de entender padrões, mas elas estão limitadas à sua base de dados, não vão criar nada”, afirmou o cientista da computação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O que está ocorrendo nessa revolução de IA é que as bases de dados se tornaram imensas, para além até da nossa capacidade de curadoria. Aliadas a um poder de processamento cada vez maior, surgiram máquinas com capacidade de dominar a linguagem natural (inglês, português etc.) para muito além do que os especialistas imaginavam ser possível. “Muitos imaginavam que, quando as máquinas dominassem a linguagem natural, elas seriam verdadeiramente inteligentes. Pois bem, está acontecendo”, refletiu o acadêmico Osvaldo Novais Jr., professor de física e especialista em linguística computacional. Por isso, embora ainda longe de dominarem a atividade criativa nas artes, as IA já estão perto de dominar outro ramo da cultura: a ciência. “Creio que estamos nos aproximando de um novo paradigma científico, segundo o qual a própria máquina vai gerar conhecimento. Essa será a maior de todas as revoluções tecnológicas, pois não precisará mais do humano no processo”, afirmou Novais.


Academia Brasileira de Ciências. Inteligência artificial não faz literatura, mas pode fazer ciência.
Internet: <https://www.abc.org.br> (com adaptações).

Imagem associada para resolução da questão

Cena do filme A regra do jogo, de 1939.


Em A regra do jogo, filme de Jean Renoir, de 1939, a gorda senhora pianista, com as mãos no colo, pode ser vista olhando, embevecida e melancólica, para a autonomia esquelética do teclado, atrás do qual as cordas do piano assumiram o controle total. Essa é uma síntese imagética da obra de arte nesse estágio particular de sua reprodução mecânica, olhando para o seu próprio poder alienado com fascinação mórbida. O pós-moderno, no entanto, alcançou um estágio mais avançado do que esse; ao contrário do deleite do moderno em seus projetos de máquinas que operam maravilhas, seu deleite com o colapso dessas máquinas no ponto crítico está sujeito aos mais graves mal-entendidos se não percebermos que é precisamente assim que a tecnologia pós-moderna consome e celebra a si mesma.


Fredric Jameson. Pós-modernismo. A lógica cultural do capitalismo tardio. Trad. Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática, 1997, p. 383 (com adaptações).

Com base nas informações dos textos precedentes acerca da relação entre tecnologia e arte, bem como na reflexão que o recorte da cena do filme A regra do jogo suscita, julgue os itensa seguir.

 

Em ambos os textos, a relação entre literatura e tecnologia é entendida como uma forma de enriquecimento da cultura humana, uma vez que a tecnologia, enquanto sujeita ao controle de seus criadores, não consegue ameaçar a criatividade do ser humano.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Relação entre tecnologia e arte nos textos

Gabarito: ERRADO. A afirmação inverte a tese central do primeiro texto: nele, a tecnologia não está sujeita ao controle dos criadores e já ameaça a criatividade humana em um domínio — a ciência. O próprio texto afirma que as IA "já estão perto de dominar outro ramo da cultura: a ciência" e que "a própria máquina vai gerar conhecimento", dispensando o humano. A alternativa, ao dizer que a tecnologia "não consegue ameaçar a criatividade do ser humano", contradiz frontalmente essa passagem.

O comando

A questão pede um julgamento Certo/Errado com base nos textos. Isso é uma tarefa de compreensão: a resposta deve ser ancorada no que os textos afirmam explicitamente, não em opiniões pessoais ou em inferências livres. O candidato precisa confrontar cada parte da assertiva com o conteúdo dos textos e verificar se há correspondência ou contradição.

O texto

O primeiro texto trata da relação entre inteligência artificial e criatividade. A tese central é que as IA não conseguem criar arte (literatura), mas já estão perto de dominar a ciência, gerando conhecimento sem a necessidade do humano. Veja os trechos decisivos:

"as máquinas ainda estão longe de vencer o talento humano quando o assunto é criatividade"

"embora ainda longe de dominarem a atividade criativa nas artes, as IA já estão perto de dominar outro ramo da cultura: a ciência"

"Creio que estamos nos aproximando de um novo paradigma científico, segundo o qual a própria máquina vai gerar conhecimento. Essa será a maior de todas as revoluções tecnológicas, pois não precisará mais do humano no processo"

O segundo texto, de Jameson, discute a relação entre arte e tecnologia de forma mais filosófica, mas não sustenta a ideia de que a tecnologia está sob controle dos criadores. Pelo contrário, fala em "poder alienado" e em tecnologia que "consome e celebra a si mesma".

A técnica

A assertiva contém duas afirmações: (1) a relação entre literatura e tecnologia é de enriquecimento da cultura; (2) a tecnologia, sujeita ao controle dos criadores, não ameaça a criatividade. A primeira parte é parcialmente verdadeira (o texto diz que as IA não vencem na literatura), mas a segunda é falsa — o texto mostra que a tecnologia ameaça a criatividade em outro campo (a ciência) e que não está sob controle total (as bases de dados "se tornaram imensas, para além até da nossa capacidade de curadoria").

A banca usa a técnica de inverter a tese: pega uma ideia verdadeira (IA não faz literatura) e a generaliza para afirmar que a tecnologia não ameaça a criatividade, ignorando a parte em que o texto diz que ela já domina a ciência. É uma extrapolação com contradição.

Tese do texto 1
  • 1IA e literatura
    • Não vencem o talento humano
  • 2IA e ciência
    • Já perto de dominar
    • Geram conhecimento sem o humano
  • 3Controle humano
    • Bases imensas além da curadoria
  • 4Tese do texto 2
    • Arte e tecnologia
      • Poder alienado
      • Tecnologia consome a si mesma
  • 5Assertiva
    • Inverte a tese
    • Generaliza a limitação na literatura
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Análise da assertiva

A assertiva diz: "Em ambos os textos, a relação entre literatura e tecnologia é entendida como uma forma de enriquecimento da cultura humana, uma vez que a tecnologia, enquanto sujeita ao controle de seus criadores, não consegue ameaçar a criatividade do ser humano."

  • "Em ambos os textos": o segundo texto não trata de literatura, mas de arte em geral (piano, máquinas). Já há um problema aqui.

  • "relação entre literatura e tecnologia é entendida como uma forma de enriquecimento": o primeiro texto mostra que a IA não vence na literatura, mas não diz que isso enriquece a cultura; diz apenas que as máquinas estão longe de vencer o talento humano.

  • "tecnologia, enquanto sujeita ao controle de seus criadores": o texto diz o contrário — as bases de dados "se tornaram imensas, para além até da nossa capacidade de curadoria", ou seja, não estão sob controle.

  • "não consegue ameaçar a criatividade do ser humano": o texto afirma que as IA já estão perto de dominar a ciência, o que é uma forma de ameaçar a criatividade humana (gerar conhecimento sem o humano).

Portanto, a assertiva é falsa.

Conclusão

A assertiva contradiz o texto ao afirmar que a tecnologia não ameaça a criatividade, quando o texto mostra que ela já ameaça em outro domínio. A banca explora a generalização indevida: pega a limitação das IA na literatura e a estende para toda a criatividade, ignorando a ciência. Gabarito: ERRADO.

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