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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402523
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2024
Cargo
Vest ( )

As academias de Sião


Deu lugar a essa enorme ascensão de pensamentos o fato de quererem as quatro academias de Sião resolver este singular problema: — por que é que há homens femininos e mulheres másculas? E o que as induziu a isso foi a índole do jovem rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Vai senão quando uma das academias achou esta solução ao problema:


— Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se observa é uma questão de corpos errados.


— Nego, bradaram as outras três; a alma é neutra; nada tem com o contraste exterior.


Kinnara [a concubina preferida do rei] levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ela era a mulher máscula — um búfalo com penas de cisne. Era o búfalo que andava agora no aposento, mas daí a pouco foi o cisne que parou, e, inclinando o pescoço, pediu e obteve do rei, entre duas carícias, um decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada legítima e ortodoxa, e a outra, absurda e perversa. Entretanto, a bela Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto.


— Vossa Majestade decretou que as almas eram femininas e masculinas, disse Kinnara depois de um beijo. Suponha que os nossos corpos estão trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos os nossos...


— Não creio no meu próprio decreto, redarguiu ele, rindo; mas vá lá, se for verdade, troquemos... Mas por um semestre, não mais. No fim do semestre destrocaremos os corpos.


Ajustaram que seria nessa mesma noite. A primeira ação de Kalaphangko (daqui em diante entenda-se que é o corpo de rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bela siamesa com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias à academia sexual. Mandou chamar os acadêmicos; vieram todos menos o presidente, o ilustre U-Tong, que estava enfermo. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era um grande sábio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta, ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade, confessaram eles que U-Tong era um dos mais singulares estúpidos do reino, espírito raso, sem valor, nada sabendo e incapaz de aprender nada. Kalaphangko estava pasmado. Um estúpido? Três dias depois, U-Tong compareceu ao chamado do rei. E eis o que este lhe respondeu:


— Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: são treze camelos, com a diferença de que os camelos são modestos, e eles não; comparam-se ao sol e à lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais singulares pulhas do que essestreze...


[Kalaphangko] mandou chamar os outros acadêmicos, mas desta vez separadamente, a fim de não dar na vista, e para obter maior expansão. O primeiro que chegou, ignorando aliás a opinião de U-Tong, confirmou-a integralmente com a única emenda de serem doze os camelos, ou treze, contando o próprio U-Tong. O segundo não teve opinião diferente, nem o terceiro, nem os restantes acadêmicos. Diferiam no estilo; uns diziam camelos, outros usavam circunlóquios e metáforas, que vinham a dar na mesma coisa.

 

Chegou ao fim do semestre; chegou o momento de destrocar os corpos. Como da primeira vez, [Kalaphangko e Kinnara] meteram-se no barco real, à noite, e deixaram-se ir águas abaixo, ambos de má vontade, saudosos do corpo que iam restituir um ao outro. Proferiram ele a fórmula misteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Foram interrompidos por uma deleitosa música, ao longe. E a música vinha chegando, agora mais distinta, até que numa curva do rio apareceu aos olhos de ambos um barco magnífico, adornado de plumas e flâmulas. Vinham dentro os catorze membros da academia (contando U-Tong) e todos em coro mandavam aos ares o velho hino: “Glória a nós, que somos o arroz da c iência e a claridade do mundo!”. A bela Kinnara tinha os olhos esbugalhados de assombro. Não podia entender como é que catorze varões reunidos em academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de camelos.

 

Machado de Assis. As academias de Sião. In: 50 contos 

de Machado de Assis. Selecionados por John Gledson. São Paulo: Cia. das Letras, 2007, p. 303-310 (com adaptações).

Considerando o texto literário precedente, de Machado de Assis, julgue o item assinale a opção correta.


Nesse trecho de As academias de Sião, a narrativa desenvolve-se em primeira pessoa, o que aguça o ceticismo do leitor quanto à verossimilhança da história narrada.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Nesse trecho de As academias de Sião, a narrativa desenvolve-se em primeira pessoa, o que aguça o ceticismo do leitor quanto à verossimilhança da história narrada.

Gabarito: Errado (E). A narrativa não se desenvolve em primeira pessoa: o narrador é onisciente e em terceira pessoa, pois conhece os pensamentos e intenções das personagens ("Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto") e as descreve de fora ("Kalaphangko era virtualmente uma dama"). O ceticismo do leitor, portanto, não decorre do uso da primeira pessoa, mas sim do conteúdo fantástico e irônico da história — a troca de almas entre corpos —, narrado por um observador externo.

O comando pede um julgamento (Certo/Errado) sobre uma característica formal do texto: a pessoa do discurso narrativo. Para resolver, é preciso distinguir narrador-personagem (1ª pessoa, participa da história) de narrador-observador/onisciente (3ª pessoa, conta a história de fora). No trecho, o narrador não se inclui na diegese: ele relata os fatos com verbos em 3ª pessoa ("Deu lugar", "levantou-se", "mandou chamar") e, sobretudo, revela o interior das personagens, o que é marca clássica do narrador onisciente. Veja a passagem decisiva:

"Entretanto, a bela Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto."

Aqui o narrador sabe o que Kinnara planeja — informação que só um narrador onisciente (3ª pessoa) poderia acessar. Se fosse 1ª pessoa, o narrador seria uma personagem contando sua própria experiência, e não teria como penetrar na mente de outra personagem dessa forma. Além disso, o trecho "A primeira ação de Kalaphangko (daqui em diante entenda-se que é o corpo de rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bela siamesa com a alma do Kalaphangko)" mostra o narrador explicando ao leitor a confusão de identidades, posição típica de quem narra de fora, com distanciamento.

A segunda parte da assertiva — "o que aguça o ceticismo do leitor quanto à verossimilhança" — também não se sustenta. O ceticismo do leitor é provocado pelo absurdo da premissa (almas que trocam de corpo, academias que se comparam a camelos, a ironia final de "catorze varões reunidos em academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de camelos"), e não pela pessoa do discurso. A ironia machadiana, aliás, é um recurso de narrador em 3ª pessoa que comenta a história com distanciamento crítico — o que reforça a inadequação da assertiva.

Alternativa E — ❌ Errada ⟵ GABARITO

A assertiva comete dois erros: (1) contradiz o texto ao afirmar que a narrativa é em 1ª pessoa, quando o narrador é claramente 3ª pessoa onisciente; e (2) extrapola ao atribuir o ceticismo do leitor à pessoa do discurso, quando ele decorre do conteúdo fantástico e da ironia do enredo. O texto prova o primeiro ponto com a onisciência do narrador:

"Kinnara levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ela era a mulher máscula — um búfalo com penas de cisne."

O narrador descreve Kinnara de fora ("um búfalo com penas de cisne") e, ao mesmo tempo, penetra em sua interioridade ("tinha um plano engenhoso e secreto"). Essa dupla capacidade é impossível para um narrador em 1ª pessoa, que só teria acesso à própria mente. Quanto ao ceticismo, o texto o provoca pela inverossimilhança deliberada da troca de almas — não há nenhuma pista de que a pessoa do discurso tenha relação com isso. A assertiva, portanto, é falsa em ambos os aspectos.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura duas características independentes — a pessoa do discurso (forma) e o efeito de sentido (ceticismo/ironia) — e as amarra numa relação de causa e consequência que o texto não autoriza. O candidato que não identifica o narrador onisciente cai na armadilha.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar a pessoa do discurso, procure verbos e pronomes: 1ª pessoa usa "eu/nós" e verbos como "vi, fiz, pensei"; 3ª pessoa usa "ele/ela" e verbos como "viu, fez, pensou". A onisciência (saber o que as personagens pensam) é a prova definitiva do narrador em 3ª pessoa.

Conclusão: a narrativa de As academias de Sião é conduzida por um narrador onisciente em 3ª pessoa, que conhece os pensamentos das personagens e comenta a história com ironia. O ceticismo do leitor decorre do conteúdo fantástico (troca de almas) e da ironia machadiana, não da pessoa do discurso. Logo, a assertiva está errada.

Gabarito: letra E (Errado).

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