Inferência e pressuposição no texto de Machado de Assis
Gabarito: Certo (C). O item está correto porque o texto de Machado de Assis, ao afirmar que a literatura pode "consorciar" os povos que a história separou, sugere exatamente a possibilidade de reunir, no plano literário, o que não ocorreu na realidade. A passagem que ancora essa leitura é o trecho final: "consorciando na literatura os que a fatalidade da história divorciou". A banca pede uma inferência — não uma informação literal — e a inferência é legítima porque se apoia em pistas textuais claras.
O comando: inferir, não localizar
O enunciado usa o verbo "sugere", o que indica que a questão é de interpretação/inferência, não de mera localização de informação explícita. Em questões de inferência, a resposta não está escrita palavra por palavra, mas é uma dedução ancorada em pistas do texto. Aqui, a pista é a expressão "consorciando na literatura os que a fatalidade da história divorciou". O verbo "consorciando" (unir, reunir) e o adjetivo "divorciou" (separou) formam uma oposição: a história separou, a literatura pode unir. Essa é a sugestão do autor.
O texto: tema e movimento argumentativo
O texto trata da influência dos poemas de Gonçalves Dias sobre as musas brasileiras, que passaram a se interessar pela história e costumes indígenas. O autor observa que as tribos desapareceram, mas deixaram informações preciosas que podem ser usadas como "elementos poéticos". No final, ele defende que a piedade deveria inclinar a imaginação dos poetas para esses povos, "consorciando na literatura os que a fatalidade da história divorciou". Ou seja: a história separou (os indígenas e os colonizadores), mas a literatura pode reuni-los simbolicamente. Essa é a tese central do trecho.
A técnica: inferência com pista textual
A alternativa correta é uma paráfrase inferencial do trecho final. O item diz: "é possível realizar, na literatura, o que poderia ter acontecido, mas não ocorreu, na realidade: reunir aqueles que a história separou". Isso corresponde exatamente à ideia de "consorciando na literatura os que a fatalidade da história divorciou". A palavra "possível" é autorizada pelo verbo "devera" (deveria), que expressa uma possibilidade/necessidade moral, e pelo gerúndio "consorciando", que indica uma ação que pode ser realizada. Não há extrapolação: o texto não diz que isso já aconteceu, mas que é possível fazê-lo na literatura.
Por que o item é Certo
"consorciando na literatura os que a fatalidade da história divorciou"
Essa passagem prova que o autor sugere a união, na literatura, daqueles que a história separou. O verbo "consorciando" (unir) e "divorciou" (separar) formam a oposição central. O item apenas reescreve essa ideia com outras palavras, sem acrescentar nada que o texto não autorize. Portanto, a inferência é legítima.
Fechamento
A regra de ouro: em questões de inferência, pergunte-se sempre "o texto me obriga a concluir isso?" — se a resposta for sim, a alternativa está correta. Aqui, a pista é clara e a inferência é necessária. Gabarito: Certo (C).