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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
ce402580
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2024
Cargo
Vest ( )

Meu tio o Iauretê


Me deixaram aqui sozinho, eu nhum. Me deixaram pra trabalhar de matar, de tigreiro. Não deviam. Não sabiam que eu era parente delas? Oh ho! Oh ho! Tou amaldiçoando, tou desgraçando, porque matei tanta onça, por que é que eu fiz isso?! É porque onça não contava uma pra outra, não sabem que  eu vim pra mor de acabar com todas. Tinham dúvida em mim não, farejam que eu sou parente delas... Eh, onça é meu tio, o jaguaretê, todas. Fugiam de mim não, então eu matava... Depois, só na hora é que ficavam sabendo, com muita raiva... Eh, juro pra mecê: matei mais não! Não mato. Posso não, não devia. Castigo veio... Gosto de pensar que matei, não. Meu parente, como é que posso?! Ai, ai, ai, meus parentes... Careço de chorar, senão elas ficam com raiva. Elas sabem que eu sou do povo delas. Primeira que eu vi e não matei, foi Maria-Maria. Eh, parente meu é a onça, jaguaretê, meu povo. Mãe minha dizia, mãe minha sabia, uê-uê...Jaguaretê é meu tio, tio meu. Ã-hã. Nhem? Mas eu matei onça? Matei, pois matei. Mas não mato mais, não! Nhuão Guede trouxe eu pr’aqui, ninguém não queria me deixar trabalhar junto com outros... Por causa que eu não prestava. Só ficar aqui sozinho, o tempo todo. Prestava mesmo não, sabia trabalhar direito não, não gostava. Sabia só matar onça. Ah, não devia! Ninguém não queria me ver, gostavam de mim não, todo mundo me xingando. Maria-Maria veio, veio. Então eu ia matar Maria-Maria? Como é que eu podia? Podia matar onça nenhuma não, onça parente meu, tava triste de ter matado... Tava com medo, por ter matado. Nhum nenhum? Ai, ai, gente...

 

João Guimarães Rosa. Meu tio o Iauaretê. In: Estas estórias.

Rio de Janeiro: José Olympio, 1962, p. 6, 8, 15 e 16 (com adaptações).

O fragmento de texto precedente foi extraído do conto Meu tio o Iauaretê, de Guimarães Rosa, que versa sobre um indígena que é contratado para trabalhar como um tigreiro matador de onças. Julgue o item seguinte a respeito das ideias veiculadas no texto e de seus aspectos linguísticos e literários.

 

A frequente repetição da ideia de que “Podia matar onça nenhuma não”, ao longo de todo o texto, transmite ao leitor o estado de ânimo perturbado do narrador diante da condição a que foi submetido para sobreviver: ir contra a tradição de seu povo.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

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A repetição de “Podia matar onça nenhuma não” e o estado de ânimo do narrador

Gabarito: CERTO. A afirmativa está correta porque a repetição da ideia de que não podia matar onças, ao longo de todo o texto, transmite o estado de ânimo perturbado do narrador, que se vê em conflito com a tradição de seu povo. O texto sustenta isso em passagens como “Meu parente, como é que posso?!” e “Tava com medo, por ter matado”, que revelam o sofrimento e o remorso do personagem.

O comando pede uma interpretação do texto: não se trata de localizar uma informação literal, mas de inferir o efeito de sentido produzido pela repetição de uma ideia. A banca quer que o candidato perceba que a insistência do narrador em dizer que não podia matar onças não é mera redundância, mas um recurso expressivo que revela seu conflito interno. Para resolver, é preciso conectar a repetição ao contexto: o narrador é um indígena que foi contratado para matar onças, mas considera as onças seus parentes (“Eh, onça é meu tio, o jaguaretê, todas”). Essa contradição entre a função que exerce e sua identidade cultural gera o estado de perturbação.

A técnica que decide esta questão é a análise do efeito de sentido da repetição. Em textos literários, a repetição (anáfora) não é um defeito, mas um recurso estilístico que reforça uma ideia ou emoção. Aqui, a frase “Podia matar onça nenhuma não” aparece em variações como “matei mais não! Não mato”, “Posso não, não devia” e “Podia matar onça nenhuma não”, criando um ritmo obsessivo que ecoa a culpa e o medo do narrador. A repetição não é acidental: ela é a materialização linguística do tormento interior.

“Meu parente, como é que posso?!”

Essa exclamação, logo após a confissão de ter matado onças, mostra o conflito entre o ato cometido e o vínculo de parentesco que o narrador sente com os animais. A pergunta retórica não espera resposta; ela expressa a impossibilidade moral de continuar matando. O texto ainda reforça: “Tava com medo, por ter matado”, explicitando o temor que acompanha o remorso. A repetição da ideia de não poder matar, portanto, não é redundância vazia, mas a chave para compreender o estado psicológico do personagem.

A afirmativa também menciona a “condição a que foi submetido para sobreviver”. O texto mostra que o narrador foi contratado como tigreiro (“Me deixaram pra trabalhar de matar, de tigreiro”) e que essa função o obriga a agir contra sua tradição, pois as onças são seus parentes. A sobrevivência material (o trabalho) entra em choque com a identidade cultural, gerando a perturbação que a repetição verbal evidencia. Assim, a interpretação proposta está plenamente ancorada no texto.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de interpretação, desconfie de afirmações que parecem óbvias demais ou que acrescentam informações externas. Aqui, a repetição é um recurso estilístico intencional, não um defeito. Sempre pergunte: o texto autoriza essa leitura? Há pistas linguísticas (como exclamações, repetições, escolhas lexicais) que sustentam a interpretação?

1Recurso estilístico (anáfora)
Reforça ideia/emoção
Ritmo obsessivo
2Efeito de sentido
Estado de ânimo perturbado
Culpa e remorso
3Conflito do narrador
Função: tigreiro (matar onças)
Tradição: onças são parentes
4Pistas textuais
"Meu parente, como é que posso?!"
"Tava com medo, por ter matado"
Repetição de "Podia matar onça nenhuma não"
LEVELsoulevel.com.br
Repetição de "Podia matar onça nenhuma não": Recurso estilístico (anáfora) (Reforça ideia/emoção, Ritmo obsessivo); Efeito de sentido (Estado de ânimo perturbado, Culpa e remorso); Conflito do narrador (Função: tigreiro (matar onças), Tradição: onças são parentes); Pistas textuais ("Meu parente, como é que posso?!", "Tava com medo, por ter matado")

Item — ✅ CERTO

A afirmativa está correta porque a repetição da ideia de que “Podia matar onça nenhuma não” transmite o estado de ânimo perturbado do narrador, que se vê em conflito com a tradição de seu povo. O texto evidencia isso em passagens como “Meu parente, como é que posso?!” e “Tava com medo, por ter matado”, que revelam o sofrimento e o remorso do personagem. A repetição não é mero recurso de coesão, mas um mecanismo expressivo que materializa a obsessão e a culpa do narrador.

Conclusão: Como a banca pediu para julgar o item, e a afirmativa está inteiramente sustentada pelo texto, o gabarito é CERTO. A repetição é um recurso estilístico que reforça o conflito interno do narrador, e a interpretação proposta está ancorada em passagens explícitas do conto.

Gabarito: CERTO

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