Questão de Português — Linguagem Formal e Informal — CESPE / CEBRASPE 2024
Português›Linguagem Formal e Informal
Código
ce402586
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2024
Cargo
Vest ( )
O fundador dessa casa, Machado de Assis, como poeta, valorizou sob muitos ângulos, assim como seus contemporâneos, a diversidade das culturas dos povos indígenas. É bom a gente lembrar disso, porque fica parecendo que nós é que somos as pessoas modernas, que somos capazes de olhar ao nosso redor e dizer, olha, aqui tem gente indígena, e aqui também tem gente negra que veio da África, e aqui tem gente árabe, aqui tem gente de diferentes continentes formando esse Brasil. Não. No século XIX, quem nos antecedeu já tinha compreensão e uma visão muito mais sensível sobre essa nossa complexa formação. Eu já mencionei aqui o romance Escrava Isaura, e ele dá bem uma ideia do que era capaz de alguém projetar de lá do século XIX, numa sociedade ainda escravocrata, antes da princesa Isabel ser convocada a assinar qualquer livro que veio abolir a escravatura no nosso país. Abolir a escravatura não é abolir a escravidão. Quem dera fosse. Se abolir a escravatura fosse abolir a escravidão, nós estaríamos vivendo numa sociedade com menos desigualdade e brutalidade no tratamento com as nossas diferenças do que nós vivemos hoje.
Ailton Krenak. Discurso de posse na Academia Brasileira de Letras.
Internet: <academia.org.br>(com adaptações).
O texto anterior é um trecho do discurso pronunciado por Ailton Krenak ao assumir a vaga de imortal na Academia Brasileira de Letras, em 2024. A respeito dos sentidos e das estruturas linguísticas do texto precedente, bem como de aspectos relacionados à literatura brasileira, julgue o item a seguir. O gênero textual do discurso oral, como o pronunciado por Krenak, admite certa informalidade, empregada muitas vezes para capturar a atenção do ouvinte, tal como ocorre no trecho “olha, aqui tem gente indígena” (segundo período).
CCerto
EErrado
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GabaritoC — Certo
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Discurso oral e informalidade: adequação ao gênero
Gabarito: Certo (C). O item está correto porque o trecho “olha, aqui tem gente indígena” é, de fato, um exemplo de informalidade típica da oralidade, e essa informalidade é adequada ao gênero discurso oral, servindo para aproximar o orador do ouvinte. A banca não pede que você julgue se a linguagem é “certa” ou “errada” pela norma culta, mas se ela é adequada à situação comunicativa — e, no caso, é.
O comando da questão
O enunciado pede que você julgue uma afirmação sobre o texto: que o gênero discurso oral admite informalidade, e que essa informalidade aparece no trecho citado com função de capturar a atenção do ouvinte. Isso é uma questão de compreensão (você precisa reconhecer o que está no texto e o que é característico do gênero), não de inferência profunda. A resposta está ancorada em dois pontos: (1) o gênero textual em questão — discurso oral — e (2) a presença de marcas de oralidade no trecho.
O texto e o gênero
O texto é um discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, proferido oralmente por Ailton Krenak. Mesmo sendo um evento formal, o gênero “discurso oral” permite — e muitas vezes incentiva — o uso de uma linguagem mais próxima da fala, com marcas de interação com o público. No trecho, Krenak diz:
“olha, aqui tem gente indígena, e aqui também tem gente negra que veio da África”
A expressão “olha” é uma marca típica da oralidade: funciona como um chamamento, um recurso para capturar a atenção do ouvinte e criar proximidade. Além disso, a construção “tem gente” (em vez de “há pessoas”) é coloquial, própria da fala. Essas escolhas não são descuido: são estratégias de adequação ao gênero — um discurso falado, diante de uma plateia, busca engajamento.
A técnica: adequação, não norma
A pegadinha clássica aqui é pensar: “discurso de posse na ABL é formal, logo informalidade é erro”. Isso é um equívoco. A adequação linguística não exige que todo texto formal seja 100% formal; exige que a linguagem se ajuste à situação. No discurso oral, a informalidade controlada é um recurso legítimo. O próprio texto mostra que Krenak alterna registros: ele usa “É bom a gente lembrar disso” (coloquial) e também “quem nos antecedeu já tinha compreensão” (mais formal). Essa variação é natural e eficaz.
Análise do item
Discurso oral: Gênero textual (Admite informalidade, Estratégia de aproximação); Marcas de oralidade ("Olha" (chamamento), "Tem gente" (coloquial)); Adequação linguística (Ajuste à situação, Alternância de registros)
Item — ✅ CERTO ⟵ GABARITO
A afirmação está correta por três razões:
O gênero admite informalidade: o discurso oral, mesmo em contexto solene, aceita marcas de coloquialidade para criar vínculo com o ouvinte.
O trecho citado é informal: “olha” é uma interjeição típica da fala, e “tem gente” é construção coloquial.
A função é capturar a atenção: o “olha” funciona como um chamamento direto ao ouvinte, exatamente como o item descreve.
Não há nenhum elemento no texto que contradiga a afirmação. Pelo contrário, o trecho é a prova viva da tese do item.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de adequação linguística, pergunte-se: “essa linguagem é adequada ao gênero e à situação?” — não “essa linguagem segue a norma culta?”. A norma é um dos critérios, mas não o único.
Conclusão: o item está certo. A informalidade no discurso oral é um recurso de aproximação com o ouvinte, e o trecho “olha, aqui tem gente indígena” exemplifica perfeitamente essa estratégia. Gabarito: Certo (C).