Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402593
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UESB
Ano
2024
Cargo
Vest ( )
Se soubesse que tudo que se passa em meus pensamentos, essa procissão de lembranças enquanto meu cabelo vai se tornando branco, serviria de coisa valiosa para quem quer que fosse, teria me empenhado em escrever da melhor forma que pudesse. Teria comprado cadernos com o dinheiro das coisas que vendia na feira, e os teria enchido das palavras que não me saem da cabeça. Teria deixado a curiosidade que tive ao ver a faca com cabo de marfim se transformar na curiosidade pelo que poderia me tornar, porque de minha boca poderiam sair muitas histórias que serviriam de motivação para nosso povo, para nossas crianças, para que mudassem suas vidas de servidão aos donos da terra, aos donos das casas na cidade.
Itamar Vieira Jr. Torto Arado (p. 170). Todavia. Edição do Kindle.
Depreende-se da leitura desse trecho de Torto Arado que a personagem
Adeixou de comprar cadernos com o dinheiro que recebia na feira.
Blamenta não ter aprendido a ler e a escrever.
Cse considera uma exímia contadora de histórias para crianças.
Dsonhava em se tornar escritora desde que era criança.
Eestá no final de sua vida relembrando o seu passado.
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GabaritoA — deixou de comprar cadernos com o dinheiro que recebia na feira.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Depreende-se da leitura do trecho de Torto Arado
Gabarito: letra A. A personagem afirma que, se soubesse que seus pensamentos seriam valiosos, "teria comprado cadernos com o dinheiro das coisas que vendia na feira" — o uso do futuro do pretérito composto indica uma ação não realizada no passado, ou seja, ela deixou de comprar os cadernos. O comando "depreende-se" pede uma inferência ancorada em pistas linguísticas do texto, e a pista aqui é o verbo no futuro do pretérito, que marca exatamente a não concretização da compra.
O comando: inferência, não recorrência
O verbo "depreender" no enunciado sinaliza que a resposta não está literalmente escrita, mas deve ser deduzida a partir de pistas do texto. Isso é diferente de uma questão de "compreensão", que pediria apenas localizar uma informação explícita. Aqui, a banca quer que você perceba o que está implícito nas escolhas verbais e lexicais da personagem. A técnica é: identificar a pista (o tempo verbal, a palavra-chave) e verificar qual alternativa é a única conclusão necessária dessa pista — sem acrescentar nada de fora.
O texto: a hipótese contrafactual
O trecho é construído sobre uma hipótese contrafactual: "Se soubesse... teria me empenhado... Teria comprado cadernos... Teria deixado a curiosidade...". Tudo isso descreve o que poderia ter sido feito, mas não foi. A personagem imagina um passado alternativo em que teria registrado suas histórias. Essa estrutura é a chave: cada "teria" aponta para uma ação não realizada. A alternativa A captura exatamente isso para o caso dos cadernos.
A técnica: o futuro do pretérito como marca de irrealidade
O futuro do pretérito composto ("teria comprado") expressa um fato hipotético, dependente de uma condição não realizada. No texto, a condição é "se soubesse que... serviria de coisa valiosa" — e o contexto deixa claro que ela não sabia (ou não tinha certeza) disso na época. Logo, a compra dos cadernos não aconteceu. Essa é uma inferência obrigatória: o tempo verbal não deixa margem para outra leitura. As demais alternativas ou extrapolam (C, D), ou contradizem o texto (B), ou dependem de informação ausente (E).
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Teria comprado cadernos com o dinheiro das coisas que vendia na feira"
O futuro do pretérito composto indica ação não concretizada no passado. A personagem não comprou os cadernos — ela apenas imagina que teria comprado se soubesse do valor de seus pensamentos. A alternativa A é a paráfrase correta dessa não realização: "deixou de comprar" = "não comprou". A inferência é direta e ancorada no verbo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O trecho não diz que a personagem não sabe ler e escrever. Pelo contrário, ela diz que "teria me empenhado em escrever da melhor forma que pudesse" — o que pressupõe que ela sabe escrever (só se empenha em escrever melhor quem já escreve). A alternativa B inverte essa informação: atribui a ela um analfabetismo que o texto não sustenta. É uma extrapolação com aparência de plausibilidade, mas que contradiz a pista do verbo "escrever".
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapola. O texto diz que "de minha boca poderiam sair muitas histórias que serviriam de motivação para nosso povo, para nossas crianças" — ou seja, ela imagina que poderia contar histórias, não que já se considera uma contadora. A alternativa C transforma uma possibilidade hipotética em uma autopercepção atual. Além disso, o texto fala em "motivação para nosso povo", não especificamente "para crianças" como plateia. É uma generalização indevida.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: extrapola. O texto não menciona que a personagem sonhava em ser escritora desde criança. Ela diz que "teria me empenhado em escrever" se soubesse do valor — mas isso é uma reflexão presente sobre o passado, não um sonho de infância. A alternativa D acrescenta a informação "desde que era criança", que não está no texto e não pode ser inferida de nenhuma pista. É uma extrapolação clássica: preenche uma lacuna com imaginação.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: extrapola. O texto diz "enquanto meu cabelo vai se tornando branco" — o que indica envelhecimento, mas não que a personagem esteja no final da vida. "Cabelo branco" é um sinal de idade avançada, mas não equivale a "morte iminente". A alternativa E radicaliza a pista: transforma um indício de envelhecimento em uma afirmação sobre o fim da vida. É uma inferência que ultrapassa o que o texto autoriza.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre inferência legítima (A, ancorada no tempo verbal) e extrapolação (C, D, E). As distratoras usam palavras do texto ("histórias", "escrever", "cabelo branco") para parecerem fiéis, mas acrescentam informações que não estão lá — como "desde criança" ou "final da vida".
PEGA ESSA DICA!
Em questões de "depreende-se", grife os tempos verbais e as palavras modais (teria, poderia, se). Eles são as pistas mais fortes para inferências. Desconfie de alternativas que acrescentam detalhes ("desde criança", "final da vida") — o texto não precisa de complementos externos.
Gabarito: letra A. A única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a que reconhece a não realização da compra dos cadernos, marcada pelo futuro do pretérito. As demais ou contradizem o texto (B) ou extrapolam para além das pistas (C, D, E).