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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402597
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UESB
Ano
2024
Cargo
Vest ( )

Dentre as coisas que levava, e talvez a que mais me machucava, era a minha língua. Era a língua ferida que havia expressado em sons durante os últimos anos as palavras que Belonísia evitava dizer por vergonha dos ruídos estranhos que haviam substituído sua voz. Era a língua que a havia retirado de certa forma do mutismo que se impôs com o medo da rejeição e da zombaria das outras crianças. E que por inúmeras vezes a havia libertado da prisão que pode ser o silêncio.


Itamar Vieira Jr. Torto Arado. São Paulo: Todavia, 2019.

Nesse trecho do romance Torto Arado, associa-se o silêncio à prisão porque a narradora

  1. Ateme a rejeição de Belonísia.
  2. Bconsidera a expressão oral uma forma de existir no mundo.
  3. Cpreocupa-se com a ameaça de censura a sua história.
  4. Ddemonstra vergonha pelos erros cometidos.
  5. Erejeita os sons que substituíram a voz de Belonísia.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — considera a expressão oral uma forma de existir no mundo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A língua como prisão e libertação em Torto Arado

Gabarito: letra B. O silêncio é associado à prisão porque a narradora considera a expressão oral uma forma de existir no mundo — a fala é o que a "libertou da prisão que pode ser o silêncio". A passagem que ancora a resposta está no final do trecho: "E que por inúmeras vezes a havia libertado da prisão que pode ser o silêncio". A alternativa B é a única que captura essa relação de oposição entre silêncio (prisão) e fala (libertação), sem acrescentar nada que o texto não diga.

O comando pede uma inferência — "associa-se o silêncio à prisão porque" —, ou seja, exige que você encontre a causa dessa associação. Não basta localizar a palavra "prisão"; é preciso entender o porquê dela. O texto constrói uma oposição clara: de um lado, o silêncio, imposto pelo "medo da rejeição e da zombaria"; de outro, a língua, que "libertou" a narradora dessa condição. A metáfora "prisão que pode ser o silêncio" só faz sentido se a fala for vista como o oposto — um meio de existir, de se expressar, de ocupar um lugar no mundo.

A técnica decisiva aqui é a paráfrase com causa: a alternativa correta reescreve a ideia do texto (fala = libertação) e a conecta à pergunta (por que silêncio = prisão?). As distratoras, por sua vez, cometem erros clássicos: algumas extrapolam (inventam motivos que o texto não dá), outras trocam o referente (atribuem à narradora sentimentos que são de Belonísia) e uma contradiz abertamente o texto.

"E que por inúmeras vezes a havia libertado da prisão que pode ser o silêncio."

Aqui está o núcleo: a língua (a fala) libertou a narradora da prisão do silêncio. Se a fala liberta, o silêncio aprisiona — e a razão é que a fala é o meio de expressão, de existência. A alternativa B traduz exatamente isso: "considera a expressão oral uma forma de existir no mundo".

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto diz que Belonísia evitava falar "por vergonha dos ruídos estranhos" e que o mutismo se impôs "com o medo da rejeição e da zombaria das outras crianças". Esse medo é de Belonísia, não da narradora. A alternativa transfere o sentimento de uma personagem para outra — uma troca de referente que o texto não autoriza. A narradora não teme a rejeição de Belonísia; ela é quem, pela língua, a libertou do mutismo.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Sustentação direta. A passagem "a havia libertado da prisão que pode ser o silêncio" estabelece a fala como instrumento de libertação. Se o silêncio é a prisão, a expressão oral é a chave — é o que permite "existir no mundo", sair do isolamento imposto pelo mutismo. A alternativa é uma paráfrase fiel da relação de causa e efeito montada pelo texto: silêncio aprisiona porque a fala é o que dá existência.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação (fuga ao tema). O texto não menciona censura, ameaça à história da narradora ou qualquer preocupação com a narrativa em si. A palavra "censura" não aparece; o que existe é o "medo da rejeição e da zombaria" — e isso é atribuído a Belonísia, não à narradora. A alternativa inventa um motivo externo ao texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: troca de referente + extrapolação. A vergonha é de Belonísia, que evitava falar "por vergonha dos ruídos estranhos". A narradora não demonstra vergonha por erros cometidos — o texto não menciona erros dela. A alternativa confunde as duas personagens e acrescenta um dado ("erros cometidos") que não existe no trecho.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A narradora não rejeita os sons que substituíram a voz de Belonísia; pelo contrário, é a sua própria língua que "havia expressado em sons" as palavras que Belonísia evitava dizer. A língua da narradora é o instrumento de libertação, não de rejeição. A alternativa inverte o papel da fala no texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a troca de referente — transfere para a narradora sentimentos que o texto atribui a Belonísia (medo, vergonha) e inverte a função da língua (de libertadora para rejeitada).

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, pergunte sempre: "quem faz o quê no texto?" — identifique o sujeito de cada verbo antes de escolher. Aqui, "havia libertado" tem como sujeito a língua da narradora; o medo e a vergonha são de Belonísia.

Gabarito: letra B. A resposta mora na oposição central do trecho: se a língua libertou da "prisão que pode ser o silêncio", então a expressão oral é, para a narradora, uma forma de existir no mundo. Teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?

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