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Questão de Português — Vozes (Voz Passiva e Voz Ativa) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsVozes (Voz Passiva e Voz Ativa)
Código
ce402612
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2024
Cargo
Vest ( )

O impacto devastador de doenças trazidas pelos europeus ao Brasil entre os índios é largamente conhecido. Além da baixa imunidade, os hábitos coletivos e a falta de tratamentos tornavam a população nativa especialmente vulnerável a doenças trazidas por estrangeiros, como conta o professor de antropologia da Universidade Estadual de Santa Cruz Carlos José Santos. “Povos inteiros foram massacrados pelos contágios de doenças infecciosas. Aliás, muitos foram considerados extintos por elas, como é o caso dos goitacás”, diz Santos, que é indígena e conhecido pelo nome Casé Angatu. Doenças como varíola, sarampo, febre amarela ou mesmo a gripe estão entre as razões para o declínio das populações indígenas no território nacional, passando de 3 milhões de índios em 1500, segundo estimativa da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), para cerca de 750 mil, hoje, de acordo com dados do governo. As causas dessas epidemias são comumente tratadas pela história como involuntárias. Há, no entanto, diversos relatos de infecção proposital de tribos indígenas no país. Segundo a antropóloga Helena Palmquist, que pesquisa genocídio indígena no Brasil, o método de infecção era comum. “É uma estratégia muito difícil de provar, e os casos aconteciam em rincões, no Brasil profundo, lugares em que ninguém queria entrar.” Feito em 1967 e só divulgado ao público 45 anos depois, o Relatório Figueiredo, produzido pelo procurador Jader Figueiredo a pedido do governo militar, relata o uso de vários tipos de violência contra os indígenas por membros do órgão que deveria resguardá-los, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Entre os assassinatos, abusos sexuais, casos de tortura e corrupção denunciados, o relatório ressalta as acusações de que uma tribo de índios pataxó do sul da Bahia teria sido levada à extinção por uma infecção proposital.

 

Leonardo Neiva. Como colonizadores infectaram milhares de índios no Brasil com presentes e promessas falsas. BBC NEWS BRASIL. São Paulo, jul./2020 (com adaptações).

Leia o texto.   Em relação aos sentidos e aspectos linguísticos e textuais do texto precedente e a múltiplos aspectos a ele relacionados, julgue o item abaixo.   Por meio do emprego da voz passiva em ‘Povos inteiros foram massacrados pelos contágios de doenças infecciosas’ (terceiro período), enfatiza-se o agente da ação verbal.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Voz passiva e o papel do agente

Gabarito: ERRADO. A voz passiva em “Povos inteiros foram massacrados pelos contágios de doenças infecciosas” não enfatiza o agente da ação — ela enfatiza o sujeito paciente (“Povos inteiros”), que é o termo que sofre a ação. O agente da passiva (“pelos contágios”) é apenas o complemento que indica quem pratica a ação, mas a construção passiva existe justamente para destacar o paciente, não o agente. A afirmação do item inverte essa lógica.

O comando

A questão pede que você julgue uma afirmação sobre aspectos linguísticos do texto, especificamente sobre o efeito de sentido do emprego da voz passiva. Não se trata de interpretação de conteúdo, mas de gramática aplicada ao texto: você precisa saber o que a voz passiva faz com os termos da oração e conferir se a afirmação está correta.

O texto e a passagem

No trecho citado, o professor Carlos José Santos diz:

“Povos inteiros foram massacrados pelos contágios de doenças infecciosas.”

Aqui temos uma voz passiva analítica: verbo auxiliar ser (foram) + particípio do verbo principal (massacrados). O sujeito é “Povos inteiros” — ele recebe a ação de ser massacrado. O termo “pelos contágios de doenças infecciosas” é o agente da passiva, ou seja, quem pratica a ação de massacrar. Mas a construção passiva não foi usada para dar destaque a esse agente; ela foi usada para colocar em evidência quem sofreu a ação: os povos indígenas.

A técnica que decide

A regra é clara: na voz passiva, o sujeito é paciente — ele sofre a ação. O agente da passiva é um termo que pode até ser omitido (como em “Povos inteiros foram massacrados”), e sua presença é secundária. A passiva serve para enfatizar o paciente ou para esconder/desconhecer o agente. Portanto, dizer que a passiva “enfatiza o agente” é contradizer a própria natureza da voz passiva.

Veja a estrutura:

Termo

Função

Papel na ação

Povos inteiros

Sujeito paciente

Sofre a ação

foram massacrados

Locução verbal (passiva)

Indica a ação sofrida

pelos contágios

Agente da passiva

Pratica a ação (mas não é o foco)

A ênfase recai sobre “Povos inteiros”, não sobre “contágios”. Se o autor quisesse enfatizar o agente, usaria a voz ativa: “Os contágios de doenças infecciosas massacraram povos inteiros”.

Análise do item

O item afirma: “Por meio do emprego da voz passiva em ‘Povos inteiros foram massacrados pelos contágios de doenças infecciosas’, enfatiza-se o agente da ação verbal.”

Isso está errado. A voz passiva não enfatiza o agente; ela enfatiza o sujeito paciente. O agente da passiva é um termo periférico, muitas vezes omitido. A banca inverteu os papéis: trocou o que é foco (paciente) pelo que é coadjuvante (agente).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre sujeito paciente e agente da passiva. Ela afirma que a passiva destaca o agente, quando na verdade destaca o paciente. Fique atento: na passiva, o sujeito é sempre quem sofre a ação.

PEGA ESSA DICA!

Para resolver questões assim, identifique primeiro o sujeito da oração. Se ele sofre a ação, a voz é passiva e o destaque é para ele. O agente da passiva é apenas o complemento que indica quem pratica — e não é o foco.

Conclusão

A afirmação está incorreta porque inverte o papel do agente da passiva. A voz passiva enfatiza o sujeito paciente (“Povos inteiros”), não o agente (“pelos contágios”). Portanto, o item é ERRADO.

Gabarito: ERRADO.

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