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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce402615
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2024
Cargo
Vest ( )

Ouvia-o, sem o interromper, tanto interesse me inspirava o mísero escravo.

 

— Amanhã, continuou ele, hei de ser castigado; porque saí do serviço, antes das seis horas, hei de ter trezentos açoites; mas minha mãe morrerá se ele a encontrar. Estava no serviço, coitada! Minha mãe caiu, desfalecida; o feitor lhe impôs que trabalhasse, dando-lhe açoites; ela deitou a correr gritando. Ele correu atrás. Eu corri também, corri até aqui porque foi esta a direção que tomaram. Mas, onde está ela, onde estará ele?

Maria Firmina dos Reis. A escrava.

 

— Lucrécia, olha a vara!

A pequena abaixou a cabeça, aparando o golpe, mas o golpe não veio. Era uma advertência; se à noitinha a tarefa não estivesse pronta, Lucrécia receberia o castigo do costume.
Damião olhou para a pequena; era uma negrinha, magricela, um frangalho de nada, com uma cicatriz na testa e uma queimadura na mão esquerda. Contava onze anos. Damião reparou que tossia, mas para dentro, surdamente, a fim de não interromper a conversação. Teve pena da negrinha, e resolveu apadrinhá-la, se não acabasse a tarefa. Sinhá Rita não lhe negaria o perdão...
Demais, ela rira por achar-lhe graça; a culpa era sua, se há culpa em ter chiste.

(...)

 

Era a hora de recolher os trabalhos. Sinhá Rita examinou-os; todas as discípulas tinham concluído a tarefa. Só Lucrécia estava ainda à almofada, meneando os bilros, já sem ver; Sinhá Rita chegou-se a ela, viu que a tarefa não estava acabada, ficou furiosa, e agarrou-a por uma orelha.

(...)

— Sr. Damião, dê-me aquela vara, faz favor?
Damião ficou frio... Cruel instante! Uma nuvem passou-lhe pelos olhos. Sim, tinha jurado apadrinhar a pequena, que, por causa dele, atrasara o trabalho...

— Dê-me a vara, Sr. Damião!

Damião chegou a caminhar na direção da marquesa. A negrinha pediu-lhe então por tudo o que houvesse mais sagrado, pela mãe, pelo pai, por Nosso Senhor...

— Me acuda, meu sinhô moço!

Sinhá Rita, com a cara em fogo e os olhos esbugalhados, instava pela vara, sem largar a negrinha, agora presa de um acesso de tosse. Damião sentiu-se compungido; mas ele precisava tanto sair do seminário! Chegou à marquesa, pegou na vara e entregou-a a Sinhá Rita.

 

Machado de Assis. O caso da vara.

Leia os trechos abaixo.

 

A partir desses trechos das obras A escrava, de Maria Firmina dos Reis, e O caso da vara, de Machado de Assis, julgue o seguinte item, acerca dessas obras, de seu contexto de produção e da questão que suscitam.

 

Nos excertos apresentados das obras de Maria Firmina dos Reis e de Machado de Assis, observam-se diferenças no que diz respeito à voz narrativa: no trecho de A escrava, o narrador está em primeira pessoa e manifesta-se apenas no primeiro parágrafo; no trecho de O caso da vara, o narrador está em terceira pessoa e ocupa a maior parte do texto.

  1. CCerto
  2. EErrado
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Voz narrativa em A escrava e O caso da vara

Gabarito: ERRADO. A afirmação de que, no trecho de A escrava, o narrador em primeira pessoa "manifesta-se apenas no primeiro parágrafo" é falsa: a primeira pessoa perpassa todo o excerto, tanto na narração quanto nos diálogos transcritos. No trecho de O caso da vara, o narrador é, de fato, em terceira pessoa, mas a comparação proposta pela banca contém uma restrição indevida que a torna incorreta.

O comando

A questão pede um julgamento (Certo/Errado) sobre uma comparação entre dois trechos literários. O foco está na voz narrativa — ou seja, em quem conta a história e de que perspectiva. É uma questão de compreensão (informação explícita no texto), não de inferência: basta verificar, em cada excerto, se o narrador usa a primeira ou a terceira pessoa e por quanto tempo.

O texto

No trecho de A escrava, de Maria Firmina dos Reis, o narrador é personagem e fala em primeira pessoa desde a abertura: "Ouvia-o, sem o interromper, tanto interesse me inspirava o mísero escravo." A primeira pessoa não se limita ao primeiro parágrafo: ela aparece na narração ("Eu corri também, corri até aqui") e nos diálogos do escravo ("— Amanhã, continuou ele, hei de ser castigado"). Já no trecho de O caso da vara, de Machado de Assis, o narrador é observador, em terceira pessoa, e assim permanece ao longo de todo o excerto ("Damião olhou para a pequena", "Sinhá Rita examinou-os").

A técnica que decide

A armadilha está na expressão "apenas no primeiro parágrafo". O texto de A escrava não apoia essa restrição: a primeira pessoa está presente em todo o trecho, inclusive nos diálogos. Veja a passagem que prova:

"Ouvia-o, sem o interromper, tanto interesse me inspirava o mísero escravo."

E, mais adiante, ainda em primeira pessoa:

"Eu corri também, corri até aqui porque foi esta a direção que tomaram."

O narrador de A escrava é um narrador-personagem que participa da cena e relata em primeira pessoa do início ao fim do excerto. A banca tentou restringir essa presença a um único parágrafo, o que é uma generalização indevida (ou melhor, uma restrição indevida).

Análise da alternativa

Alternativa C — ❌ Incorreta (afirmação falsa) ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que "no trecho de A escrava, o narrador está em primeira pessoa e manifesta-se apenas no primeiro parágrafo". Isso é falso por dois motivos:

  1. A primeira pessoa não se limita ao primeiro parágrafo: ela aparece na narração e nos diálogos ao longo de todo o trecho. O narrador diz "Eu corri também" e "tanto interesse me inspirava", o que comprova a presença contínua da primeira pessoa.

  2. A segunda parte da afirmação sobre O caso da vara é verdadeira, mas a primeira parte já invalida o item como um todo. Em questões de Certo/Errado, basta um fragmento incompatível para tornar o item ERRADO.

Portanto, a alternativa C está incorreta e, como a banca pediu para julgar o item, o gabarito é ERRADO.

Conclusão

A questão testa a capacidade de localizar e comparar a voz narrativa em dois textos. A pegadinha foi restringir a primeira pessoa a um único parágrafo, quando ela perpassa todo o excerto de A escrava. Dica: ao julgar itens de Certo/Errado, desconfie de palavras absolutas como "apenas", "somente", "todo", "sempre" — elas costumam sinalizar uma restrição indevida. Confronte sempre com o texto.

Gabarito: ERRADO (alternativa E).

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