Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Partícula "Se" — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsPartícula "Se"
Código
ce402623
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2024
Cargo
Vest ( )

“O que teria eu de fazer, até o fim da vida, era o “teatro desagradável”. Brecht inventou a “distância crítica” entre o espectador e a peça. Era uma maneira de isolar a emoção. Não me parece que tenha sido bem sucedido em tal experiência. O que se verifica, inversamente, é que ele faz toda a sorte de concessões ao patético. Ao passo que eu, na minha infinita modéstia, queria anular qualquer distância. A plateia sofreria tanto quanto o personagem e como se fosse também personagem. A partir do momento em que a plateia deixa de existir como plateia, está realizado o mistério teatral.

 

O “teatro desagradável” ofende e humilha e com o sofrimento está criada a relação mágica. Não há distância. O espectador subiu ao palco e não tem a noção da própria identidade. Está ali como o homem. E, depois, quando acaba tudo, só então é que se faz a “distância crítica”. A grande vida da boa peça só começa quando baixa o pano. É o momento de fazer nossa meditação sobre o amor e sobre a morte.

 

Depois viriam Anjo Negro, Senhora dos Afogados, Doroteia, Perdoa-me por me Traíres. Esta última estreou no Teatro Municipal. Mas ao baixar o pano, no terceiro ato, o teatro veio abaixo. Explodiu uma vaia jamais concebida. Senhoras, grã-finérrimas, subiam nas cadeiras e assoviavam como apaches. Meu texto não tinha um mísero palavrão. Quem dizia os palavrões era a plateia. No camarote, o então vereador Wilson Leite Passos puxou um revólver. E, como um Tom Mix, queria, decerto, fuzilar o meu texto.

Nelson Rodrigues. A verdadeira apoteose é a vaia.


Internet:<www.nelsonrodrigues.com.br> (com adaptações).

Tendo como referência o texto precedente, a peça Perdoa-me por me traíres, de Nelson Rodrigues, e a obra A exceção e a regra, de Bertold Brecht, bem como aspectos a eles relacionados, julgue o item a seguir.

 

No trecho “só então é que se faz a ‘distância crítica’” (quinto período do segundo parágrafo), o vocábulo “se” indica que o sujeito da oração é indeterminado.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O valor do “se” em “só então é que se faz a ‘distância crítica’”

Gabarito: ERRADO. No trecho “só então é que se faz a ‘distância crítica’”, o vocábulo “se” não indica sujeito indeterminado; ele é partícula apassivadora, pois o verbo “fazer” é transitivo direto e há um sujeito paciente explícito: “a ‘distância crítica’”. A prova está na possibilidade de converter a frase em voz passiva analítica: “a ‘distância crítica’ é feita”. Como se lê no segundo parágrafo do texto, a oração equivale a “a distância crítica é feita”, o que caracteriza voz passiva sintética, e não indeterminação do sujeito.

O comando

A questão pede que se julgue a afirmação sobre a função sintática do “se” em um trecho específico. Trata-se de uma questão de gramática aplicada ao texto: não basta compreender o sentido; é preciso analisar a estrutura sintática da oração. O verbo do enunciado é “julgar”, o que exige verificar se a classificação apresentada está correta ou não.

O texto e o trecho

No segundo parágrafo, Nelson Rodrigues escreve:

“E, depois, quando acaba tudo, só então é que se faz a ‘distância crítica’.”

A oração em destaque é “se faz a ‘distância crítica’”. O verbo “fazer” é transitivo direto (fazer algo). O termo “a ‘distância crítica’” funciona como objeto direto na voz ativa, mas, na construção com “se”, ele passa a ser o sujeito paciente. Isso é típico da voz passiva sintética, também chamada de passiva pronominal.

A regra que decide

A distinção entre partícula apassivadora (PA) e índice de indeterminação do sujeito (IIS) é clássica em provas:

  • PA: ocorre com verbo transitivo direto (VTD) ou transitivo direto e indireto (VTDI). O “se” é apassivador e o verbo concorda com o sujeito paciente. Pode ser convertido em passiva analítica (com “ser” + particípio).

  • IIS: ocorre com verbo intransitivo (VI), verbo de ligação (VL) ou transitivo indireto (VTI). O verbo fica na 3ª pessoa do singular e não há conversão para passiva analítica.

No trecho, “fazer” é VTD, e o termo “a ‘distância crítica’” é o sujeito paciente. Portanto, o “se” é partícula apassivadora, e o sujeito é simples (determinado), não indeterminado.

Confirme com a conversão:

  • Voz ativa: “Alguém faz a distância crítica.”

  • Voz passiva sintética: “Faz-se a distância crítica.”

  • Voz passiva analítica: “A distância crítica é feita.”

Como a conversão é possível, o “se” é PA.

"Se" + verbo
  • 1Partícula apassivadora (PA)
    • Verbo transitivo direto (VTD/VTDI)
    • Sujeito paciente explícito
    • Converte em passiva analítica ("é feita")
  • 2Índice de indeterminação do sujeito (IIS)
    • Verbo intransitivo (VI)
    • Verbo de ligação (VL)
    • Verbo transitivo indireto (VTI)
    • Não converte em passiva analítica
LEVEL · soulevel.com.br

Análise da assertiva

A assertiva afirma que o “se” indica sujeito indeterminado. Isso está errado, pois o sujeito é determinado (“a ‘distância crítica’”). A banca explora a confusão entre os dois usos do “se”, que muitas vezes são difíceis de distinguir. A dica é sempre verificar a transitividade do verbo e a possibilidade de conversão para a voz passiva analítica.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer você acreditar que, por não haver agente explícito, o sujeito é indeterminado. Mas a presença de um sujeito paciente explícito (“a ‘distância crítica’”) e a possibilidade de conversão para “é feita” desmontam essa interpretação.

PEGA ESSA DICA!

Ao encontrar “se” + verbo, pergunte: o verbo é transitivo direto? Há um termo que pode ser sujeito paciente? Se sim, é partícula apassivadora. Se o verbo for intransitivo, de ligação ou transitivo indireto, aí sim pode ser índice de indeterminação.

Conclusão: a afirmação está errada, pois o “se” em “se faz” é partícula apassivadora, e o sujeito é determinado. Gabarito: ERRADO.

Link permanente: /questoes/ce402623