Questão de Raciocínio Lógico — Argumentos - Métodos Decorrentes da Tabela Verdade — CESPE / CEBRASPE 2024
Raciocínio Lógico›Argumentos - Métodos Decorrentes da Tabela Verdade
Código
ce403507
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TC DF
Ano
2024
Cargo
ACE ( )
Julgue o próximo item, relativos à seguinte proposição P: ”Defendo causas ruins com bons argumentos, mas não boas causas com argumentos ruins.”.
Considere um argumento que, além da proposição P, tenha também como premissa a seguinte proposição: “Se eu defender boas causas com argumentos ruins, serei derrotado.”. Nesse caso, o argumento será válido se tiver como conclusão a sentença “Não serei derrotado.”.
CCerto
EErrado
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GabaritoE — Errado
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Lógica de Argumentação: Validade de Argumentos
Gabarito: letra E (ERRADO). O argumento descrito é inválido, pois a conclusão "Não serei derrotado" não é uma consequência lógica necessária das premissas apresentadas. A validade de um argumento depende exclusivamente da sua forma lógica, e não do conteúdo das proposições — e, neste caso, a estrutura não garante a verdade da conclusão quando as premissas são verdadeiras.
Para entender por que o argumento é inválido, precisamos primeiro dominar o conceito central: um argumento é um conjunto de premissas que dão suporte a uma conclusão. A validade é uma propriedade estrutural: um argumento é válido quando, se todas as premissas forem verdadeiras, a conclusão necessariamente também será verdadeira. Isso significa que não importa se as premissas são, no mundo real, verdadeiras ou falsas — o que importa é a relação lógica entre elas e a conclusão. O material de apoio reforça exatamente isso: "A validade ou invalidade de um argumento está relacionada com a sua estrutura, e não com o seu conteúdo" e "é possível formar um argumento inválido com premissas e conclusões verdadeiras".
Vamos formalizar o argumento da questão. Temos duas premissas:
P: "Defendo causas ruins com bons argumentos, mas não boas causas com argumentos ruins." — Esta é uma conjunção: (Defendo causas ruins com bons argumentos) e (não defendo boas causas com argumentos ruins). Simbolicamente, podemos chamar de , onde = "defendo causas ruins com bons argumentos" e = "defendo boas causas com argumentos ruins".
Q: "Se eu defender boas causas com argumentos ruins, serei derrotado." — Esta é uma condicional: , onde = "serei derrotado".
A conclusão proposta é: "Não serei derrotado", ou seja, .
O erro do item está em tentar usar a negação do antecedente da condicional como se fosse uma regra de inferência válida. A condicional afirma que se ocorre, então ocorre. Mas ela não afirma nada sobre o que acontece quando não ocorre. Se é falso, a condicional é verdadeira independentemente do valor de — pode ser verdadeiro ou falso. Portanto, a partir de (que é uma das informações da premissa P), não podemos concluir . Essa é a clássica falácia da negação do antecedente (também chamada de denying the antecedent).
Vejamos com um exemplo concreto para fixar. Suponha a premissa: "Se chover, a rua fica molhada." Agora, suponha que não choveu. Podemos concluir que a rua não está molhada? Não! A rua pode estar molhada por outros motivos (um caminhão-pipa passou, alguém lavou a calçada, etc.). A condicional só garante que a chuva é uma condição suficiente para a rua molhada, não uma condição necessária. Da mesma forma, a premissa Q diz que defender boas causas com argumentos ruins é uma condição suficiente para ser derrotado, mas não diz que é a única forma de ser derrotado. Logo, não defender boas causas com argumentos ruins não implica que não serei derrotado.
A pegadinha da banca está em explorar exatamente essa confusão: o candidato vê a premissa P afirmando "não defendo boas causas com argumentos ruins" e a condicional Q "se defender boas causas com argumentos ruins, serei derrotado", e intuitivamente conclui "não serei derrotado". Mas essa intuição é logicamente inválida. Para o argumento ser válido, precisaríamos de uma premissa que afirmasse que somente defender boas causas com argumentos ruins leva à derrota (ou seja, que ), o que não é o caso. A forma correta de usar a condicional com a negação do consequente seria concluir a negação do antecedente (modus tollens): se , então . Mas o argumento faz o caminho inverso, que é inválido.
Caso
Premissas (A ∧ ¬B, B → D)
Conclusão (¬D)
Resultado
1
A = V, B = F, D = F
V
Válido
2
A = V, B = F, D = V
F
Inválido
Validade do argumento: Estrutura lógica (Premissas verdadeiras → conclusão necessária, Não depende do conteúdo); Condicional B → D (Modus ponens (B → D), Modus tollens (¬D → ¬B), Negação do antecedente (¬B → ¬D)); Falácia formal (Premissas verdadeiras + conclusão falsa, Argumento inválido)
Item — ❌ ERRADO
O item afirma que o argumento será válido com a conclusão "Não serei derrotado". Isso está errado. A validade do argumento depende da impossibilidade de as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa simultaneamente. Vamos testar essa possibilidade: podemos ter as premissas P e Q verdadeiras e a conclusão falsa (ou seja, verdadeiro)? Sim! Basta que a pessoa seja derrotada por outro motivo que não seja "defender boas causas com argumentos ruins". Por exemplo, ela pode ser derrotada por defender causas ruins com maus argumentos, ou por qualquer outra razão. Nesse cenário, as premissas P (que diz que ela não defende boas causas com argumentos ruins) e Q (que diz que se ela defendesse, seria derrotada) são verdadeiras, mas a conclusão "não serei derrotado" é falsa. Como existe essa situação em que premissas verdadeiras geram conclusão falsa, o argumento é inválido. A conclusão não é uma decorrência necessária das premissas.
A regra de ouro para levar para a prova: a validade de um argumento com uma premissa condicional só permite duas inferências diretas — o modus ponens (afirmar e concluir ) e o modus tollens (negar e concluir ). Qualquer outra combinação, como negar o antecedente () para concluir a negação do consequente (), é uma falácia formal e torna o argumento inválido.