Questão de Português — Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto. — CESPE / CEBRASPE 2025
Português›Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
Código
ce414400
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
PC DF
Ano
2025
Cargo
AAAPC ( )
Texto CB1A1
Embora as instituições nacionais ligadas à soberania
venham atuando nas últimas décadas em suporte às políticas
ambientais brasileiras, a relação entre as duas esferas nem sempre
se deu em bases cooperativas. Partindo-se de uma compreensão
estreita da segurança, a preservação do meio ambiente foi vista,
durante certo tempo, não como uma precondição para se garantir
a segurança nacional e humana, mas como uma ameaça à
integridade territorial e aos interesses nacionais brasileiros.
Temia-se, nesse sentido, que as inestimáveis riquezas naturais do
Brasil despertassem a cobiça internacional, de forma a
representar riscos às fronteiras nacionais e ao direito soberano do
país de gerenciar seus recursos naturais de maneira autônoma, em
busca do desenvolvimento.
Vigorava, portanto, a compreensão de que assumir
compromissos de cooperação na arena ambiental implicaria o
decréscimo da soberania nacional. O posicionamento defendido
pela delegação brasileira durante a Conferência das Nações
Unidas sobre Meio Ambiente Humano (CNUMAH), realizada
em Estocolmo em 1972, seria sintomático desse entendimento:
“Na área do aproveitamento de recursos naturais, os interesses
nacionais, em termos econômicos e de segurança, são de tal
monta, que qualquer fórmula que, sob o pretexto ecológico,
impusesse uma sistemática de consulta para projetos de
desenvolvimento seria simplesmente inaceitável para o Brasil.”
Nas décadas posteriores, as interpretações relativas às
preocupações ambientais foram gradualmente transformadas,
tanto no âmbito da sociedade quanto em meio às instituições de
defesa. O processo de redemocratização, o fortalecimento de
organizações da sociedade civil, o avanço dos estudos científicos
e a consolidação de uma estrutura federal de governança
ambiental favoreceram essas novas percepções e, sobretudo, a
aproximação desses dois setores.
Julgue o item a seguir, relativo a aspectos linguísticos do texto CB1A1.
A substituição de “mas” (segundo período do primeiro parágrafo) por embora manteria a coerência do texto e seus sentidos, uma vez que ambas as conjunções são adversativas.
CCerto
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Substituição de "mas" por "embora" — adversativa × concessiva
Gabarito: letra E (ERRADO). A substituição de "mas" por "embora" não manteria a coerência nem os sentidos do texto, porque as duas conjunções pertencem a classes diferentes: "mas" é coordenativa adversativa (oposição entre orações independentes), enquanto "embora" é subordinativa concessiva (ressalva que não invalida a oração principal, exigindo verbo no subjuntivo). A afirmação do item erra ao classificar "embora" como adversativa — e é exatamente essa troca de classe que quebra a estrutura sintática e o sentido do período.
O comando
O item pede um julgamento sobre reescritura de frases: a substituição de um conectivo por outro "manteria a coerência do texto e seus sentidos". Isso exige duas verificações: (1) a classe gramatical dos conectivos — são equivalentes? (2) o efeito de sentido no trecho — a relação lógica entre as orações se preserva? A justificativa dada no item ("ambas as conjunções são adversativas") já entrega o erro: ela afirma algo falso sobre "embora".
O texto
No segundo período do primeiro parágrafo, o autor escreve:
"a preservação do meio ambiente foi vista, durante certo tempo, não como uma precondição para se garantir a segurança nacional e humana, mas como uma ameaça à integridade territorial e aos interesses nacionais brasileiros."
A estrutura é clara: "não X, mas Y" — uma correlação adversativa clássica, em que "mas" opõe duas ideias (a visão correta vs. a visão equivocada). O "mas" liga dois termos de mesma função (predicativos do sujeito "a preservação do meio ambiente"), estabelecendo oposição direta entre eles.
A técnica que decide
A pegadinha central é a confusão entre conjunção adversativa e concessiva. Veja a diferença:
Conectivo
Classe
Relação
Exige verbo no...
mas
Coordenativa adversativa
Oposição entre orações/termos independentes
Indicativo
embora
Subordinativa concessiva
Ressalva que não impede a oração principal
Subjuntivo
No trecho, "mas" coordena dois predicativos: "não como uma precondição... mas como uma ameaça...". Se trocarmos por "embora", teríamos de reestruturar a frase inteira (ex.: "embora não fosse vista como precondição, foi vista como ameaça"), mudando a relação de oposição direta para uma relação de concessão — e ainda assim exigiria o verbo no subjuntivo. A simples substituição do conectivo, sem reescrever o período, quebraria a sintaxe e alteraria o sentido. Além disso, "embora" não é adversativa — é concessiva. A justificativa do item é, portanto, duplamente falsa.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão clássica entre adversativas (mas, porém, contudo, todavia) e concessivas (embora, conquanto, ainda que, mesmo que). São semanticamente próximas (ambas indicam contraste), mas sintaticamente distintas: a adversativa coordena; a concessiva subordina e exige subjuntivo. O item afirma que "embora" é adversativa — erro de classificação que invalida a substituição.
PEGA ESSA DICA!
Ao julgar substituição de conectivos, pergunte: (1) a classe é a mesma? (2) a relação lógica (oposição, causa, condição...) se preserva? (3) a estrutura sintática (coordenação × subordinação) continua válida? Se qualquer resposta for "não", a substituição altera o sentido.
Análise do item
Item — ❌ ERRADO ⟵ GABARITO
A afirmação de que "a substituição de 'mas' por 'embora' manteria a coerência do texto e seus sentidos" é falsa por dois motivos:
Classificação incorreta: "embora" não é conjunção adversativa; é conjunção subordinativa concessiva. As adversativas típicas são "mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto". As concessivas típicas são "embora, conquanto, ainda que, mesmo que, se bem que".
Efeito de sentido e sintaxe: no trecho, "mas" estabelece oposição direta entre dois predicativos ("não como precondição... mas como ameaça"). "Embora" introduziria uma ressalva que não invalida a oração principal, exigindo reestruturação completa do período e verbo no subjuntivo. A simples troca do conectivo, sem reescrever a frase, quebraria a coerência e alteraria o sentido.
Portanto, o item está ERRADO: a substituição não mantém a coerência nem os sentidos, e a justificativa apresentada ("ambas são adversativas") é factualmente incorreta.
Conclusão: a questão testa a distinção entre adversativas e concessivas. Guarde: adversativa = oposição entre orações independentes (mas, porém); concessiva = ressalva que não impede a principal, com verbo no subjuntivo (embora, ainda que). Confundir as duas é o erro clássico — e foi exatamente o que o item fez.