Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce414484
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
FUNPRESP-EXE
Ano
2025
Cargo
APC ( )
Sentimos a dor, mas não a ausência da dor; sentimos a
inquietação, mas não a ausência da inquietação; o temor, mas não
a segurança. Sentimos o desejo e o anelo, como sentimos a fome
e a sede; mas, uma vez satisfeitos, tudo acaba, assim como o
bocado que, uma vez engolido, deixa de existir para a nossa
sensação. Enquanto possuímos os três maiores bens da vida,
saúde, mocidade e liberdade, não temos consciência deles, e só os
apreciamos depois de os havermos perdido, porque esses também
são bens negativos. Só notamos os dias felizes da nossa vida
passada depois de darem lugar aos dias de tristeza. À medida que
os nossos prazeres aumentam, tornam-nos cada vez mais
insensíveis; o hábito já não é um prazer. Por isso mesmo, a nossa
faculdade de sofrer é mais viva; todo hábito suprimido causa um
sentimento doloroso. As horas correm tanto mais rápidas quanto
mais agradáveis são, tanto mais demoradas quanto mais tristes,
porque o gozo não é positivo, diferentemente da dor, cuja
presença se faz sentir. O aborrecimento dá-nos a noção do tempo;
a distração tira-a. Não se poderia absolutamente imaginar uma
grande e viva alegria se esta não sucedesse a uma grande miséria,
porque nada há que possa atingir um estado de alegria serena e
durável; o mais que se consegue fazer é distrair, satisfazer a
vaidade. É por este motivo que todos os poetas são obrigados a
colocar os seus heróis em situações cheias de ansiedades e de
tormentos, a fim de os livrarem delas: drama e poesia épica só
nos mostram homens que lutam, que sofrem mil torturas, e cada
romance oferece-nos em espetáculo os espasmos e as convulsões
do pobre coração humano. Voltaire, o feliz Voltaire, que tão
favorecido foi pela natureza, pensa como eu, quando diz: “A
felicidade não passa de um sonho; só a dor é real”. E acrescenta:
“Há oitenta anos que o experimento; não sei fazer outra coisa
senão resignar-me e dizer a mim mesmo que as moscas nasceram
para serem comidas pelas aranhas, e os homens, para serem
devorados pelos pesares”.
Arthur Schopenhauer. Dores do mundo. Rio de Janeiro:
Edições de Ouro – Coleção Universidade (com adaptações).
Julgue o item a seguir, referente às ideias e a aspectos linguísticos do texto precedente.
No terceiro período, a palavra “negativos” está empregada com o sentido de contraproducentes.
CCerto
EErrado
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GabaritoE — Errado
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Sentido de “negativos” no texto de Schopenhauer
Gabarito: letra E (Errado). No terceiro período, “negativos” não significa “contraproducentes”; o texto o emprega no sentido de bens que só se percebem pela sua ausência — saúde, mocidade e liberdade são “bens negativos” porque não os notamos enquanto os temos, apenas quando os perdemos. A passagem que prova isso é:
“Enquanto possuímos os três maiores bens da vida, saúde, mocidade e liberdade, não temos consciência deles, e só os apreciamos depois de os havermos perdido, porque esses também são bens negativos.”
A palavra “negativos” aqui se opõe a “positivos” no sentido de presença/ausência: um bem positivo é sentido pela sua presença (como a dor, que “se faz sentir”); um bem negativo só é percebido quando falta. “Contraproducente” significaria “que produz efeito contrário ao desejado”, o que não se aplica a saúde, mocidade e liberdade — o autor não diz que esses bens são prejudiciais, mas que são imperceptíveis enquanto presentes.
O comando
A questão pede para julgar se a afirmação sobre o sentido da palavra está correta. Isso é uma questão de compreensão (o que o texto diz) e de semântica contextual (o sentido da palavra no contexto). Não se trata de inferência, mas de verificar se a paráfrase proposta (“contraproducentes”) corresponde ao sentido que o texto autoriza.
O texto
O texto de Schopenhauer desenvolve a tese de que a dor é positiva (sentimos sua presença) e o prazer é negativo (só o notamos pela ausência). No terceiro período, o autor exemplifica com os “três maiores bens da vida”: saúde, mocidade e liberdade. A chave está na expressão “não temos consciência deles” — eles são negativos porque não se manifestam positivamente; só os valorizamos após perdê-los.
A técnica
Para resolver, pergunte: o que a palavra “negativos” está substituindo ou caracterizando no texto? Ela caracteriza “bens” que são percebidos pela falta, não pela presença. O sentido de “contraproducente” (que causa dano ou efeito contrário) é extrapolação: o texto não diz que saúde, mocidade e liberdade são prejudiciais; diz que são imperceptíveis enquanto presentes. A banca explora a polissemia de “negativo” (que pode significar “prejudicial” em outros contextos), mas aqui o contexto define o sentido como “ausência/percepção pela falta”.
Bens negativos (Schopenhauer): Sentido no texto (Percebidos pela ausência, Imperceptíveis enquanto presentes); Exemplos (Saúde, Mocidade, Liberdade); Oposição (Positivos (sentidos pela presença), Contraproducentes (não é o sentido))
Alternativa C — ❌ Incorreta
A afirmação de que “negativos” significa “contraproducentes” contradiz o texto. O autor não atribui a esses bens um caráter nocivo; pelo contrário, chama-os de “os três maiores bens da vida”. O sentido é de bens que não são sentidos enquanto presentes, como se lê em “não temos consciência deles”. A troca de “negativos” por “contraproducentes” inverte o sentido — é uma armadilha de troca de vocábulo.
Alternativa E — ✅ Correta (Gabarito)
A afirmação está errada porque o sentido de “negativos” no texto é “que só se percebem pela ausência”, não “contraproducentes”. A prova está no trecho citado: “não temos consciência deles, e só os apreciamos depois de os havermos perdido”. O autor explica que esses bens são negativos porque não são sentidos positivamente, e não porque sejam prejudiciais.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a polissemia de “negativo” (que pode significar “prejudicial” em outros contextos) para induzir à troca de sentido. No texto, o contexto define: “negativos” = “que só se percebem pela falta”.
PEGA ESSA DICA!
Ao julgar o sentido de uma palavra, volte ao texto e veja a que ela se refere e que ideia ela desenvolve. Se a paráfrase proposta não couber no contexto, está errada.
Conclusão: a palavra “negativos” está empregada com o sentido de “bens que só se percebem pela ausência”, e não “contraproducentes”. Portanto, o item está errado.