Questão de Português — Conjunção — CESPE / CEBRASPE 2025
Português›Conjunção
Código
ce414497
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
InoversaSul
Ano
2025
Cargo
Ana ( )
Na base da estratificação social, como a camada mais
explorada, sem qualquer representação ou direito, ficava a grande
massa escrava de trabalhadores das minas, das lavouras e dos
transportes. Todo o aparato ostensivo de repressão vigiava, em
cada vila, a esses miseráveis, para prevenir as fugas, a vadiagem
e, sobretudo, as rebeliões. A insurreição surge, porém, na classe
alta, de que se destaca uma elite letrada, que se propõe formular
um projeto alternativo ao colonial de reordenação da sociedade.
Trata-se do mais ousado dos projetos libertários da história
colonial brasileira, uma vez que previa estruturar uma república
de molde norte-americano, que aboliria a escravidão, decretaria a
liberdade de comércio e promoveria a industrialização. A eclosão da mal chamada Inconfidência Mineira deveria ter lugar
em 1789. Presos por denúncia, todos os inconfidentes foram
desterrados para a África, onde morreram, exceto Tiradentes, a
figura principal da conspiração, enforcado após três anos de
cárcere e, depois, esquartejado e exposto nos lugares onde antes
conspirara, para escarmento da população.
Darcy Ribeiro. O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil.
São Paulo: Global, 2013, p. 278-279 (com adaptações).
Julgue o próximo item, em relação às ideias e a aspectos linguísticos do texto precedente.
Levando-se em consideração a articulação das ideias do texto, é correto afirmar que o vocábulo “porém” está empregado com o mesmo sentido de portanto.
CCerto
EErrado
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GabaritoE — Errado
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O valor semântico de “porém” no texto
Gabarito: letra E (ERRADO). O vocábulo “porém” está empregado com sentido adversativo (oposição, quebra de expectativa), e não com sentido conclusivo de “portanto”. No trecho, a conjunção introduz uma ressalva ao que foi dito antes: a insurreição não surge na massa escrava, mas sim na classe alta. A passagem que comprova é:
“A insurreição surge, porém, na classe alta, de que se destaca uma elite letrada”
O “porém” marca a contraposição entre a expectativa de que a revolta viesse dos escravos (camada mais explorada) e o fato de ela ter vindo da elite. Já “portanto” indicaria conclusão — uma consequência lógica do que foi dito, o que não ocorre aqui.
Desenvolvimento: como resolver questões de conectivos
1. Leia o comando com atenção. A questão pede para julgar se “porém” tem o mesmo sentido de “portanto”. Isso é uma questão de semântica do conectivo — você precisa identificar a relação lógica que a conjunção estabelece entre as ideias, e não apenas reconhecer a classe gramatical.
2. Identifique o valor do conectivo no contexto. “Porém” é uma conjunção coordenativa adversativa, que expressa oposição, contraste, quebra de expectativa. No texto, a frase anterior fala da repressão aos escravos e da possibilidade de rebeliões; a frase com “porém” introduz uma informação contrária: a revolta não veio dos escravos, mas da elite. Veja o trecho:
“Todo o aparato ostensivo de repressão vigiava, em cada vila, a esses miseráveis, para prevenir as fugas, a vadiagem e, sobretudo, as rebeliões. A insurreição surge, porém, na classe alta”
A relação é de adversidade: espera-se que a insurreição venha dos oprimidos, mas ela vem dos privilegiados. “Portanto”, por sua vez, é uma conjunção coordenativa conclusiva, que introduz uma conclusão ou consequência do que foi dito. Exemplo: “Estudou muito, portanto passou”. Não há conclusão aqui; há contraste.
3. Teste a substituição. Se você substituir “porém” por “portanto”, o sentido muda completamente:
Original: “A insurreição surge, porém, na classe alta” → ideia de oposição.
Com “portanto”: “A insurreição surge, portanto, na classe alta” → ideia de conclusão, como se a elite fosse a consequência lógica da repressão, o que não faz sentido no texto.
A substituição altera o sentido, logo a afirmação está errada.
4. Cuidado com a pegadinha. A banca explora a confusão entre adversativas e conclusivas. Ambas são coordenativas, mas têm valores opostos: adversativas marcam oposição; conclusivas marcam consequência. Memorize os principais conectivos de cada grupo:
Adversativas
Conclusivas
mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto
logo, portanto, por conseguinte, por isso, assim, pois (pós-verbo)
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca o valor do conectivo: “porém” é adversativo, “portanto” é conclusivo. Quem não atenta ao contexto cai na armadilha.
PEGA ESSA DICA!
Sempre que a questão pedir “mesmo sentido de”, substitua mentalmente o conectivo pelo outro e veja se a relação lógica se mantém. Se mudar, está errado.
Análise da assertiva
Assertiva — ❌ ERRADO
A afirmativa diz que “porém” está empregado com o mesmo sentido de “portanto”. Isso é falso. No texto, “porém” tem valor adversativo — expressa oposição entre a expectativa de revolta dos escravos e a revolta real da elite. “Portanto” teria valor conclusivo, o que não se aplica. A passagem que comprova é:
“A insurreição surge, porém, na classe alta”
A conjunção contrasta a informação anterior (repressão aos escravos) com a nova informação (revolta na elite). Não há relação de causa e consequência, mas de quebra de expectativa. Portanto, a assertiva está errada.
Conclusão: a banca cobra a distinção entre conjunções adversativas e conclusivas. “Porém” é adversativo; “portanto” é conclusivo. Como os sentidos são diferentes, a afirmação é falsa.