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Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsOutras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
ce414514
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
InoversaSul
Ano
2025
Cargo
Prof ( )

O repórter conta antes do memorialista, e o torna inútil. Sabemos hoje de cada literato o que ele come e bebe, o clube esportivo a que se consagrou, o número de seus sapatos e de suas camisas, se é supersticioso, se ajuda a mulher em casa, se fila cigarros ou os compra, se tem medo de morrer e se ronca. O escritor deixa-se fotografar de pijama, brincando com os netos ou soltando pandorga na praia.


É visível que tais circunstâncias não deixam margem à sobrevivência dos gêneros clássicos da biografia, da autobiografia, do diário íntimo e das memórias. A fórmula jornalística superou a calma atitude do homem que sacava da pena de pato para confiar ao papel de boa fibra um segredo da juventude a ser revelado aos pósteros.


Essa contínua e imediata exposição do presente retira ao homem uma de suas dimensões essenciais, que é o passado. Inibe-o de recordar, porque ele já não acumula no esquecimento, para depois reviver. Sua vida vai desfilando ao alcance e à mercê de seus olhos e dos alheios, e, se está enfastiado de se assistir viver em todo o impudor dessa publicidade, só lhe resta apertar um botão e desfigurar essa espécie de aparelho supersônico em que, como num filme falado, nossa vida moderna se desenrola.


E, mais do que nenhum outro ser, o escritor precisaria de retraimento que o reconduzisse à intimidade consigo mesmo e às raízes da vida, que lhe cabe pesquisar e interpretar. Sua pessoa devia ser objeto de clausura perfeita, só interrompida pelos surtos naturais de sua avidez de comunicação, ou pelas atividades peculiares ao ofício.


Nem se chame a isto de solidão orgulhosa ou inumana, prejudicial às fontes da criação. O melhor ou o único, porque específico, do escritor é o que ele escreve; o mais se dilui nas condições comuns a todo cidadão.


Já é tempo de o escritor voltar a seu ofício.


Carlos Drummond de Andrade. Memórias. In: 

A manhã; suplemento letras e artes, 15/3/1953. Internet: <memoria.bn.gov.br> (com adaptações)

Considerando o texto apresentado, julgue o item a seguir.   A expressão “o mais” representa uma marca de oralidade reproduzida pelo autor no texto.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A expressão “o mais” e a marca de oralidade

Gabarito: letra E (ERRADO). A expressão “o mais”, no trecho “o mais se dilui nas condições comuns a todo cidadão”, não representa uma marca de oralidade — trata-se de um uso formal e culto da língua, equivalente a “o restante”, “o que sobra”. O texto, de Carlos Drummond de Andrade, é um ensaio de tom erudito e argumentativo, e a expressão em questão cumpre função coesiva de retomada, sem qualquer traço coloquial.

O comando da questão

O enunciado pede um julgamento (Certo/Errado) sobre uma afirmação a respeito do texto. A tarefa é de compreensão e análise linguística: é preciso verificar se a expressão “o mais” carrega, no contexto, uma marca de oralidade. Isso exige observar o nível de linguagem empregado pelo autor e o valor semântico da expressão no trecho.

O texto e o movimento argumentativo

O texto de Drummond critica a exposição excessiva da vida dos escritores pela imprensa, defendendo que o escritor precisa de retraimento e intimidade para criar. No quinto parágrafo, o autor afirma:

“O melhor ou o único, porque específico, do escritor é o que ele escreve; o mais se dilui nas condições comuns a todo cidadão.”

Aqui, “o mais” retoma tudo aquilo que não é a obra — a vida pessoal, os hábitos, as circunstâncias —, que se dilui no que é comum a qualquer pessoa. A expressão é usada em um contexto de registro formal, com construção sintática elaborada e vocabulário culto, típico do ensaio.

A técnica que decide

Marca de oralidade é um traço de linguagem informal, coloquial, próprio da fala — como gírias, contrações (“pra”, “tá”), expressões populares ou interjeições. No trecho, “o mais” é uma expressão da norma culta, sinônima de “o restante”, “o que sobra”, e não apresenta nenhum desses traços. O texto, como um todo, é formal e erudito: o autor usa construções como “retraimento que o reconduzisse à intimidade”, “surtos naturais de sua avidez de comunicação”, “clausura perfeita”. Não há marcas de coloquialidade.

A banca explora a confusão entre o valor semântico da expressão e o registro linguístico. “O mais” pode soar, para alguns, como uma expressão “simples” ou “popular”, mas, no contexto, é um uso formal e coeso, não uma marca de oralidade.

Análise da alternativa

Alternativa E — ❌ Errado ⟵ GABARITO

A afirmação está errada. A expressão “o mais” não representa uma marca de oralidade. Ela é usada em um texto de registro formal e culto, com valor de “o restante”, “o que sobra”. Não há traço coloquial na expressão nem no contexto em que aparece. O texto de Drummond é um ensaio argumentativo, com linguagem erudita, e “o mais” cumpre função coesiva de retomada, sem qualquer marca de informalidade.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer o candidato confundir registro linguístico com valor semântico. “O mais” pode parecer uma expressão “simples”, mas, no texto, é uso formal e culto, equivalente a “o restante”. A armadilha é atribuir oralidade a uma expressão que, no contexto, é perfeitamente formal.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens sobre “marca de oralidade”, pergunte: há gíria, contração, expressão popular ou interjeição? Se não há, não é oralidade. “O mais” é formal e coeso.

Conclusão: a expressão “o mais” é um uso formal e culto, não uma marca de oralidade. Portanto, o item está errado.

Gabarito: letra E (ERRADO).

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