Com o próximo casamento e partida para a Europa de
minha filha Susana, andei arquitetando um meio de extorquir-lhe
o meu retrato, feito por Candinho Portinari em 1938, que ora lhe
pertence, de que muito gosto e que deve ter, aliás, na obra do
pintor, certa importância, pois foi o primeiro, ao que eu saiba,
realizado com inteira liberdade, depois da grande série de
“retratos sociais” (chamemo-los assim, sem qualquer desdouro,
nem para o artista, nem para os retratados) que ele andou
pintando de alguns membros ilustres de nossa sociedade e de
nossa inteligência. Lembra-me mesmo que, ao me propor fazê-lo,
sabendo que eu estava de partida para a Inglaterra, Candinho
sugeriu-me, com aquela eterna rabugice sua, que eu o deixasse
pintar livremente, pois estava um pouco cansado do gênero de
retratos que fazia e que tanto afagavam a vaidade da maioria dos
retratados. Sei que em duas poses, em sua antiga casa das
Laranjeiras, o retrato estava pronto e era como se se respirasse
um novo ar dentro dele. Dias depois, estando eu no cais para
embarcar em minha primeira grande viagem, chega ele
sobraçando o retrato, que vinha oferecer-me. Mas a primogênita
foi inflexível, no egoísmo do seu amor filial.
Vinicius de Moraes. Para viver um grande amor. 2008, p. 34 (com adaptações).
Em relação aos sentidos e a aspectos linguísticos do texto apresentado, julgue o item que se segue.
No segmento “que vinha oferecer-me”, também estaria correto o uso de próclise do pronome ao auxiliar — que me vinha oferecer.
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GabaritoC — Certo
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Colocação pronominal em locução verbal: próclise facultativa
Gabarito: CERTO. No segmento “que vinha oferecer-me”, a troca para “que me vinha oferecer” é gramaticalmente correta, pois, em locução verbal com verbo principal no infinitivo, a próclise do pronome ao verbo auxiliar é facultativa, mesmo havendo palavra atrativa (o pronome relativo “que”). A banca explora exatamente essa regra: a presença do “que” atrai a próclise, mas, por se tratar de infinitivo, a ênclise também é aceita — e a próclise ao auxiliar é uma das opções válidas.
O comando da questão
O item pede um julgamento sobre a reescritura de um trecho do texto, mantendo a correção gramatical. Não se trata de interpretação de sentido, mas de aplicação das regras de colocação pronominal em uma locução verbal. A banca quer saber se você reconhece que a posição do pronome oblíquo átono “me” pode variar sem prejuízo à norma culta.
O trecho em análise
“Dias depois, estando eu no cais para embarcar em minha primeira grande viagem, chega ele sobraçando o retrato, que vinha oferecer-me.”
Aqui temos a locução verbal “vinha oferecer” (auxiliar “vinha” + infinitivo “oferecer”). O pronome “me” está enclítico ao infinitivo (oferecer-me). A proposta é deslocá-lo para antes do auxiliar: “que me vinha oferecer”.
A regra que decide
Em locuções verbais, o pronome oblíquo átono pode ocupar três posições, desde que não haja palavra atrativa obrigando a próclise:
Próclise ao auxiliar: “que me vinha oferecer” — o pronome vem antes do verbo auxiliar.
Ênclise ao auxiliar: “que vinha-me oferecer” — o pronome vem depois do auxiliar, com hífen.
Próclise ao principal: “que vinha me oferecer” — o pronome vem antes do infinitivo.
Ênclise ao principal: “que vinha oferecer-me” — o pronome vem depois do infinitivo, com hífen.
Todas essas posições são corretas quando não há palavra atrativa. No trecho, há uma palavra atrativa: o pronome relativo “que”, que obriga a próclise em relação ao verbo que o segue. Porém, há uma exceção importante: com verbo no infinitivo, a próclise é facultativa, mesmo havendo palavra atrativa. Isso significa que, embora o “que” atraia o pronome, a ênclise ao infinitivo também é aceita.
Aplicando ao caso
No trecho original, o pronome “me” está enclítico ao infinitivo (“oferecer-me”), o que é permitido pela exceção do infinitivo. A proposta é deslocá-lo para antes do auxiliar (“me vinha oferecer”), o que também é correto, pois:
O pronome relativo “que” atrai a próclise, então “que me vinha oferecer” é uma colocação adequada.
A exceção do infinitivo permite a ênclise ao principal, mas não proíbe a próclise ao auxiliar.
Portanto, a reescrita “que me vinha oferecer” é gramaticalmente correta, e o item está CERTO.
Por que as outras posições também seriam corretas?
Para reforçar o entendimento, veja as possibilidades:
Posição
Exemplo
Correção
Próclise ao auxiliar
que me vinha oferecer
✅ Correta
Ênclise ao auxiliar
que vinha-me oferecer
✅ Correta
Próclise ao principal
que vinha me oferecer
✅ Correta
Ênclise ao principal
que vinha oferecer-me
✅ Correta
Todas são aceitas pela norma culta, pois a palavra atrativa “que” não impede a variação quando o verbo principal é infinitivo.
Colocação pronominal em locução verbal
1Palavra atrativa (que, não, advérbios)
Próclise obrigatória
Exceção: verbo no infinitivo
Próclise facultativa
2Posições possíveis
Próclise ao auxiliar (me vinha oferecer)
Ênclise ao auxiliar (vinha-me oferecer)
Próclise ao principal (vinha me oferecer)
Ênclise ao principal (vinha oferecer-me)
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NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre a regra geral (palavra atrativa obriga próclise) e a exceção do infinitivo (próclise facultativa). Muitos candidatos marcam ERRADO por acharem que o “que” obriga a próclise, esquecendo que, com infinitivo, a ênclise também é aceita.
PEGA ESSA DICA!
Em locuções verbais com infinitivo, memorize: “palavra atrativa + infinitivo = próclise facultativa”. Isso resolve a maioria das questões de colocação pronominal em provas.
Conclusão
A reescrita “que me vinha oferecer” é correta, pois a próclise ao auxiliar é permitida mesmo com palavra atrativa, devido à exceção do infinitivo. Portanto, o item está CERTO.