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Questão de Português — Figuras de Linguagem — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
ce414539
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
InoversaSul
Ano
2025
Cargo
Prof ( )

JOÃO GRILO – Já fui barco, fui navio,
                          Mas hoje sou escaler.
                          Já fui menino, fui homem,
                          Só me falta ser mulher.
                          Valha-me Nossa Senhora (...)


A COMPADECIDA – Não, João, por que eu iria me zangar? Aquele é o versinho que Canário Pardo escreveu para mim e que eu agradeço. Não deixa de ser uma oração, uma invocação. Tem umas graças, mas isso até a torna alegre e foi coisa de que eu sempre gostei. (...)


PADRE (ajoelhando-se) – Ave-Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus.


JOÃO GRILO – Antes de respondermos, lembrem-se de dizer, em vez de “agora e na hora de nossa morte”, “agora na hora de nossa morte”, porque do jeito que nós estamos, está tudo misturado.


TODOS – Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora na hora de nossa morte. Amém.


Ariano Suassuna. Auto da Compadecida. 26 ed. Rio de Janeiro: Agir, 1993 (com adaptações).

Em relação à linguagem, aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto precedente, que apresenta um trecho da obra dramatúrgica Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, julgue o seguinte item.

 

Na primeira fala de João Grilo, identifica-se a figura de linguagem denominada metonímia no verso “Já fui barco, fui navio”, por meio da qual o eu lírico estabelece, em relação ao verso “Já fui menino, fui homem”, correspondência entre “barco” e “menino” e “navio” e “homem”.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Metonímia ou metáfora? A correspondência que o item inventa

Gabarito: Errado. O item erra ao classificar o verso “Já fui barco, fui navio” como metonímia e, principalmente, ao afirmar que há correspondência entre “barco” e “menino” e “navio” e “homem”. No texto, não existe essa relação: os versos “Já fui barco, fui navio” e “Já fui menino, fui homem” são paralelos, mas não estabelecem equivalência termo a termo entre embarcações e fases da vida. O que há é uma metáfora — o eu lírico se compara a um barco e a um navio, e a um menino e a um homem, mas sem que “barco” corresponda a “menino” nem “navio” a “homem”.

O comando

A questão pede que se julgue a afirmação sobre a figura de linguagem presente no verso. Isso exige dois passos: (1) identificar corretamente a figura (metonímia ou outra) e (2) verificar se a correspondência proposta pelo item existe de fato no texto. O item mistura os dois problemas: classifica errado e ainda inventa uma relação que o texto não sustenta.

O texto

Na fala de João Grilo, temos:

“Já fui barco, fui navio, / Mas hoje sou escaler. / Já fui menino, fui homem, / Só me falta ser mulher.”

O eu lírico enumera estados sucessivos — embarcações (barco, navio, escaler) e fases da vida (menino, homem, mulher). A intenção é mostrar transformação, não estabelecer equivalência entre os elementos das duas séries. Não há nenhuma pista textual que aproxime “barco” de “menino” ou “navio” de “homem”. A leitura correta é: assim como passou de barco a navio e agora é escaler, passou de menino a homem e ainda falta ser mulher. A comparação é global (entre a trajetória das embarcações e a trajetória humana), não ponto a ponto.

A técnica: metonímia × metáfora

Metonímia é a substituição de um termo por outro com relação de proximidade ou contiguidade — por exemplo, “li Machado de Assis” (autor pela obra), “o teto” (parte pelo todo). Já a metáfora é a comparação implícita, sem conectivo, entre seres de universos distintos — por exemplo, “ele é um leão” (valente).

No verso, o eu lírico se compara a um barco e a um navio. Isso é metáfora: ele não é literalmente uma embarcação; há uma transferência de sentido por semelhança (a ideia de navegar, de mudar de porte, de seguir em frente). Não há substituição por proximidade — logo, não é metonímia.

Além disso, a correspondência proposta pelo item (“barco” = “menino”, “navio” = “homem”) é uma invenção. O texto não autoriza essa leitura. Se houvesse, seria uma alegoria (sucessão de metáforas), mas mesmo assim a correspondência específica não está dada.

1Metonímia
Substituição por proximidade
Ex.: "li Machado de Assis"
2Metáfora
Comparação implícita
Ex.: "ele é um leão"
3Alegoria
Sucessão de metáforas
Figuras de linguagem
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Figuras de linguagem: Metonímia (Substituição por proximidade, Ex.: "li Machado de Assis"); Metáfora (Comparação implícita, Ex.: "ele é um leão"); Alegoria (Sucessão de metáforas)

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que o item está certo. Isso está errado por dois motivos:

  1. Classificação incorreta: o verso é metáfora, não metonímia. Não há relação de contiguidade entre “barco” e o eu lírico; há comparação implícita.

  2. Correspondência inventada: o texto não estabelece que “barco” corresponda a “menino” nem que “navio” corresponda a “homem”. Essa relação é extrapolação — o item acrescenta uma informação que não está no texto.

Portanto, a alternativa C contradiz o texto e extrapola seu conteúdo.

Alternativa E — ✅ Correta

A alternativa E afirma que o item está errado. É exatamente isso: o item falha na identificação da figura (é metáfora, não metonímia) e na correspondência proposta (inexistente no texto). A alternativa E é a única que respeita o que o texto realmente diz.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura duas armadilhas: troca metonímia por metáfora e ainda inventa uma correspondência que o texto não sustenta. Desconfie sempre de correspondências “ponto a ponto” que não estão explícitas.

PEGA ESSA DICA!

Para distinguir metonímia de metáfora, pergunte: há proximidade (metonímia) ou semelhança (metáfora)? E confira se a relação apontada pelo item está no texto — se não estiver, é extrapolação.

Conclusão: o item está errado porque classifica como metonímia o que é metáfora e estabelece uma correspondência que o texto não autoriza. A alternativa E é o gabarito.

Gabarito: letra E.

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