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Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsSignificação de Vocábulo e Expressões
Código
ce414540
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
InoversaSul
Ano
2025
Cargo
Prof ( )

JOÃO GRILO – Já fui barco, fui navio,
                          Mas hoje sou escaler.
                          Já fui menino, fui homem,
                          Só me falta ser mulher.
                          Valha-me Nossa Senhora (...)


A COMPADECIDA – Não, João, por que eu iria me zangar? Aquele é o versinho que Canário Pardo escreveu para mim e que eu agradeço. Não deixa de ser uma oração, uma invocação. Tem umas graças, mas isso até a torna alegre e foi coisa de que eu sempre gostei. (...)


PADRE (ajoelhando-se) – Ave-Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus.


JOÃO GRILO – Antes de respondermos, lembrem-se de dizer, em vez de “agora e na hora de nossa morte”, “agora na hora de nossa morte”, porque do jeito que nós estamos, está tudo misturado.


TODOS – Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora na hora de nossa morte. Amém.


Ariano Suassuna. Auto da Compadecida. 26 ed. Rio de Janeiro: Agir, 1993 (com adaptações).

Em relação à linguagem, aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto precedente, que apresenta um trecho da obra dramatúrgica Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, julgue o seguinte item.

 

Na fala d’A Compadecida, o vocábulo “graças” é empregado com o sentido de benevolências, compatível com o cunho religioso do texto.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O sentido de “graças” na fala d’A Compadecida

Gabarito: ERRADO. O vocábulo “graças”, na fala d’A Compadecida, não tem o sentido de “benevolências” (favores divinos), mas sim de “charmes, atrativos, encantos” — algo que torna o versinho “alegre”, como a própria personagem explica. A banca explora a polissemia da palavra: o sentido religioso existe na língua, mas não é o que o contexto autoriza.

O comando

A questão pede que você julgue se a afirmação sobre o sentido de “graças” está correta. Isso é uma tarefa de compreensão de vocábulo em contexto: você não deve pensar no significado que a palavra tem no dicionário em geral, mas no sentido específico que ela adquire naquele trecho. O comando é explícito: “o vocábulo ‘graças’ é empregado com o sentido de benevolências”. Para resolver, você precisa voltar ao texto e verificar se essa interpretação se sustenta.

O texto e o contexto

Na fala d’A Compadecida, ela comenta o versinho que Canário Pardo escreveu para ela:

“Aquele é o versinho que Canário Pardo escreveu para mim e que eu agradeço. Não deixa de ser uma oração, uma invocação. Tem umas graças, mas isso até a torna alegre e foi coisa de que eu sempre gostei.”

Observe a estrutura: “Tem umas graças, mas isso até a torna alegre”. A conjunção “mas” indica uma oposição entre ter “graças” e ser “alegre”. Se “graças” significasse “benevolências” (algo sério, religioso), não haveria oposição com “alegre” — pelo contrário, seria algo compatível com o cunho religioso. A oposição só faz sentido se “graças” significar “charmes, atrativos, encantos” — ou seja, o versinho tem uns “charmes” (talvez até um certo charme sensual, dado o contexto da peça), e isso o torna alegre, não solene.

Além disso, a própria personagem diz que o versinho “não deixa de ser uma oração, uma invocação” — ela reconhece que há um tom religioso, mas não diz que as “graças” são bênçãos divinas. Pelo contrário, ela as vê como algo que torna o versinho alegre, o que reforça o sentido de “encantos” ou “atrativos”.

A técnica: polissemia e contexto

Polissemia é a propriedade de uma mesma palavra ter vários significados possíveis. “Graças” pode significar:

  • Benevolências, favores divinos (ex.: “graças a Deus”);

  • Charmes, atrativos, encantos (ex.: “ela tem muitas graças”);

  • Agradecimento (ex.: “muitas graças”).

A questão é: qual desses sentidos o contexto exige? O contexto é soberano. No trecho, a palavra está ligada a “umas graças” que “tornam alegre” o versinho. Isso aponta claramente para o sentido de “charmes”, não de “benevolências”.

A banca tenta fazer você cair na armadilha da associação automática: como o texto tem cunho religioso (orações, invocações, Ave-Maria), você pode ser levado a pensar que “graças” = “bênçãos”. Mas o texto não autoriza essa leitura. A palavra está em um contexto específico, e é esse contexto que define o sentido.

Sentido de “graças” no contexto
  • 1Benevolências (favores divinos)
    • sentido religioso existe na língua
    • não é o que o contexto autoriza
  • 2Charmes, atrativos, encantos
    • “umas graças” tornam o versinho alegre
    • oposição marcada por “mas”
  • 3Técnica: polissemia
    • vários significados possíveis
    • contexto é soberano
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Análise da assertiva

A assertiva afirma: “Na fala d’A Compadecida, o vocábulo ‘graças’ é empregado com o sentido de benevolências, compatível com o cunho religioso do texto.”

Isso está errado por dois motivos:

  1. O sentido não é “benevolências”: como vimos, o contexto indica “charmes, atrativos”.

  2. A compatibilidade com o cunho religioso é uma extrapolação: o texto tem elementos religiosos, mas isso não significa que cada palavra religiosa tenha sentido religioso. A palavra “graças” aqui é usada em seu sentido profano (encantos), não religioso.

Portanto, a assertiva contradiz o texto.

Conclusão

A resposta é ERRADO. A palavra “graças” não significa “benevolências” no contexto; significa “charmes, atrativos”. A banca explora a polissemia e a associação automática com o campo religioso, mas o texto é claro: as “graças” tornam o versinho alegre, não o tornam mais religioso.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar o sentido de uma palavra, sempre volte ao texto e veja como ela é usada. Desconfie de significados que parecem “óbvios” pelo tema geral — o contexto imediato é o que manda.

Gabarito: ERRADO.

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