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Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsOutras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
ce414554
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
InoversaSul
Ano
2025
Cargo
Prof ( )

Como se deve ler um livro?


Quero enfatizar, antes de tudo, o ponto de interrogação no fim do meu título. Ainda que eu pudesse responder à pergunta, a resposta só se aplicaria a mim, não a você. De fato, o único conselho sobre leitura que uma pessoa pode dar a outra é não aceitar conselho algum, seguir os próprios instintos, usar o próprio bom senso e tirar suas próprias conclusões. Se estamos de acordo quanto a isso, sinto-me então em condições de apresentar algumas ideias e lhe fazer sugestões, pois assim você não permitirá que elas restrinjam a característica mais importante que um leitor pode ter: sua independência. Afinal, que leis se podem formular sobre livros? A Batalha de Waterloo foi, sem dúvida, travada em certo dia; mas será Hamlet uma peça melhor do que Rei Lear? Ninguém o pode dizer; cada um deve decidir por si mesmo essa questão. Admitir autoridades em nossas bibliotecas, por mais embecadas e empelicadas que estejam, e deixar que elas nos digam como ler, o que ler e que valor atribuir ao que lemos é destruir o espírito de liberdade que dá alento a esses santuários. Em qualquer outra parte, podemos ser limitados por convenções e leis — mas lá não temos nenhuma.


Virginia Woolf. O valor do riso e outros ensaios. 

Tradução: Leonardo Fróes. São Paulo: Cosac Naify, 2014 (com adaptações).

No que se refere às ideias veiculadas no texto precedente, bem como às relações de coesão e coerência nele estabelecidas, julgue o próximo item.   Os termos “o”, em “Ninguém o pode dizer”, e “lá”, em “mas lá não temos nenhuma”, pertencem a classes morfológicas distintas, porém ambos funcionam no texto como elementos de retomada anafórica.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Esta resolução diverge do gabarito oficial. A banca deu Certo; a resolução abaixo sustenta o contrário e explica por quê — ela não foi reescrita para concordar. Acontece nos dois sentidos: há gabarito que cai em recurso e há resolução que erra. Confira na fonte antes de fixar o entendimento.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão referencial: "o" e "lá" no texto de Virginia Woolf

Gabarito: ERRADO. A afirmação está incorreta porque, embora "o" e "lá" pertençam a classes morfológicas distintas (pronome demonstrativo e advérbio de lugar, respectivamente), apenas "o" funciona como elemento de retomada anafórica; "lá" é um elemento dêitico/exofórico, que remete a um lugar fora do texto (as bibliotecas), não a um termo anterior. A passagem que prova isso é:

"Admitir autoridades em nossas bibliotecas, por mais embecadas e empelicadas que estejam, e deixar que elas nos digam como ler, o que ler e que valor atribuir ao que lemos é destruir o espírito de liberdade que dá alento a esses santuários. Em qualquer outra parte, podemos ser limitados por convenções e leis — mas lá não temos nenhuma."

O "lá" retoma "bibliotecas" (lugar), mas de forma dêitica, pois o referente é um espaço físico mencionado, não um termo que exige retomada coesiva. Já o "o" em "Ninguém o pode dizer" retoma anaforicamente a oração anterior: "será Hamlet uma peça melhor do que Rei Lear?". Portanto, a assertiva erra ao afirmar que ambos são anafóricos.

Desenvolvimento: o que a questão realmente cobra

O comando pede que você julgue uma afirmação sobre coesão e coerência, especificamente sobre o funcionamento anafórico de dois termos. Isso é uma questão de interpretação de texto aliada a conhecimento gramatical (classes de palavras e mecanismos de coesão). Não se trata de decorar regra, mas de observar como os elementos linguísticos se conectam no texto.

O texto de Virginia Woolf defende a independência do leitor diante de autoridades e convenções. No trecho final, ela contrasta "qualquer outra parte" (onde há limitações) com "lá" (as bibliotecas, onde não há). O "lá" aponta para um lugar — as bibliotecas —, mas esse lugar é mencionado no texto ("nossas bibliotecas"), não é um termo que precise ser retomado por coesão. A coesão anafórica ocorre quando um elemento retoma um termo ou ideia já expressa para evitar repetição, como o "o" que retoma a pergunta sobre Hamlet e Rei Lear.

A técnica que decide: para saber se um elemento é anafórico, pergunte: ele retoma um termo/ideia anterior? Se sim, é anáfora. Se aponta para fora do texto (tempo, espaço, situação), é dêixis. O "o" retoma a oração "será Hamlet uma peça melhor do que Rei Lear?" — é anáfora. O "lá" aponta para "bibliotecas", mas de forma dêitica, pois o referente é um lugar físico que existe fora do texto (as bibliotecas reais), não um termo que precisa ser retomado coesivamente. A banca explora exatamente essa confusão.

A pegadinha: a banca afirma que ambos são anafóricos, mas "lá" é dêitico (exofórico). A dêixis é um mecanismo de referência situacional, não coesiva. Enquanto a anáfora retoma um elemento do texto, a dêixis aponta para elementos do contexto extralinguístico. No caso, "lá" aponta para as bibliotecas, mas como um lugar — e o leitor precisa saber que bibliotecas são lugares para entender. Isso não é coesão referencial, é dêixis.

Coesão referencial
  • 1Anáfora (retomada de termo/ideia)
    • "o" → retoma a pergunta anterior
    • É anafórico
  • 2Dêixis (referência situacional)
    • "lá" → aponta para as bibliotecas (lugar)
    • Não é anafórico
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Item — ❌ ERRADO

A assertiva diz: "Os termos 'o', em 'Ninguém o pode dizer', e 'lá', em 'mas lá não temos nenhuma', pertencem a classes morfológicas distintas, porém ambos funcionam no texto como elementos de retomada anafórica."

Análise:

  • "o" em "Ninguém o pode dizer": é um pronome demonstrativo (equivale a "isso") e retoma anaforicamente a oração anterior: "será Hamlet uma peça melhor do que Rei Lear?". Veja o trecho:

"mas será Hamlet uma peça melhor do que Rei Lear? Ninguém o pode dizer"

Aqui, "o" retoma a pergunta — é uma anáfora clássica.

  • "lá" em "mas lá não temos nenhuma": é um advérbio de lugar e aponta para "bibliotecas" (mencionadas antes), mas de forma dêitica, pois o referente é um lugar físico — as bibliotecas reais, fora do texto. Não é uma retomada coesiva, mas uma referência situacional.

Portanto, a afirmação está errada porque generaliza: nem todo elemento que remete a algo anterior é anafórico. "Lá" é dêitico.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer você acreditar que "lá" é anafórico porque retoma "bibliotecas". Mas a anáfora exige retomada de um termo/ideia para evitar repetição; a dêixis aponta para elementos do contexto (lugar, tempo, pessoa). "Lá" aponta para um lugar — é dêitico.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar se um termo é anafórico, pergunte: "ele retoma um termo/ideia anterior?" Se sim, é anáfora. Se aponta para fora do texto (tempo, espaço, situação), é dêixis. No caso, "o" retoma a pergunta; "lá" aponta para as bibliotecas como lugar.

Conclusão: como a banca pediu para julgar a assertiva, e ela está errada, o gabarito é ERRADO. A única forma de acertar é distinguir anáfora (retomada coesiva) de dêixis (referência situacional).

Gabarito: ERRADO

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