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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce414564
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
ANM
Ano
2025
Cargo
AA ( )

Observando os mineiros trabalharem, você percebe, por um breve instante, como são diferentes os universos habitados por diferentes pessoas. Os subterrâneos onde se escava o carvão são uma espécie de mundo à parte, e é fácil viver toda uma vida sem jamais ouvir falar dele. É provável que a maioria das pessoas até prefira não ouvir falar dele. E, contudo, esse mundo é a contraparte indispensável do nosso mundo da superfície. Praticamente tudo que fazemos, desde tomar um sorvete até atravessar o Atlântico, desde assar um filão de pão até escrever um romance, envolve usar carvão, direta ou indiretamente. Para todas as artes da paz, o carvão é necessário; e, se a guerra irrompe, é ainda mais necessário. Em épocas de revolução, o mineiro precisa continuar trabalhando, do contrário a revolução tem que parar, pois o carvão é essencial tanto para a revolta como para a reação. Seja lá o que for que aconteça na superfície, as pás e picaretas têm que continuar escavando sem trégua — ou fazendo uma pausa de algumas semanas, no máximo. Porém, de modo geral, não temos consciência disso; todos sabemos que “precisamos de carvão”, mas raramente, ou nunca, nos lembramos de tudo o que está envolvido no processo para se obter carvão.


Aqui estou eu escrevendo, sentado diante da minha confortável lareira a carvão. De quinze em quinze dias, a carroça de carvão para na porta e uns homens de blusão de couro trazem o carvão para dentro de casa em sacos robustos, cheirando a piche, e o despejam no depósito de carvão embaixo da escada. É só muito raramente, quando faço um esforço mental bem definido, que estabeleço a conexão entre esse carvão e o penoso trabalho realizado lá longe, nas minas. É apenas “carvão”, algo que eu preciso ter, uma coisa escura que chega misteriosamente, vinda de nenhum lugar em especial, como o maná, só que devemos pagar por ele.


Seria fácil atravessar de carro todo o norte da Inglaterra sem lembrar, nem uma só vez, que, dezenas de metros abaixo da estrada, os mineiros estão atacando o carvão com suas picaretas. E, contudo, são eles que estão fazendo seu carro andar. O mundo deles lá embaixo, iluminado por suas lâmpadas, é tão necessário para o mundo da superfície, da luz do dia, como a raiz é necessária para a flor.


George Orwell. O caminho para Wigan Pier. Trad. Isa Mara Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 (com adaptações).

Texto CG1A1

 

Em relação às ideias do texto CG1A1, julgue o item que se segue.

 

Infere-se do texto que, em geral, as pessoas que não trabalham nas minas estão alienadas, de modo presumivelmente deliberado, do trabalho dos mineiros.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência sobre a alienação das pessoas em relação ao trabalho dos mineiros

Gabarito: Certo (C). Infere-se do texto que as pessoas que não trabalham nas minas estão alienadas do trabalho dos mineiros, e essa alienação é presumivelmente deliberada — ou seja, há indícios de que elas preferem não saber o que acontece nas minas. A passagem que ancora essa inferência é: “É provável que a maioria das pessoas até prefira não ouvir falar dele.” O verbo “prefira” indica uma escolha, um ato de vontade, o que sustenta a ideia de deliberação.

O comando: inferência, não compreensão literal

O enunciado usa o verbo “infere-se”, o que muda completamente o método de resolução. Não se trata de localizar uma informação explícita (compreensão/recorrência), mas de deduzir uma ideia que não está dita diretamente, a partir de pistas deixadas no texto. A inferência legítima se apoia em pressupostos — marcas linguísticas que apontam para uma conclusão. Já a extrapolação acrescenta informação que o texto não autoriza. Aqui, a banca quer que você perceba que o texto sugere a alienação e a deliberação, sem afirmá-las literalmente.

O texto: tema, tese e movimento argumentativo

O texto de George Orwell descreve a relação paradoxal entre a superfície e o subsolo: as pessoas usam carvão para tudo, mas não têm consciência do trabalho dos mineiros. O autor afirma: “de modo geral, não temos consciência disso; todos sabemos que ‘precisamos de carvão’, mas raramente, ou nunca, nos lembramos de tudo o que está envolvido no processo para se obter carvão.” Essa falta de consciência é o núcleo da alienação. O texto ainda reforça com a imagem do carvão que “chega misteriosamente, vinda de nenhum lugar em especial, como o maná” — ou seja, as pessoas consomem o produto sem pensar na origem, no trabalho penoso.

A técnica: inferência com pista no texto

A inferência pedida tem duas partes: (1) as pessoas estão alienadas do trabalho dos mineiros; (2) essa alienação é presumivelmente deliberada. A primeira parte é quase explícita: “não temos consciência disso”, “raramente, ou nunca, nos lembramos”. A segunda parte — a deliberação — é que exige inferência. A pista está na frase: “É provável que a maioria das pessoas até prefira não ouvir falar dele.” O verbo “prefira” expressa uma escolha, uma atitude voluntária: não é que as pessoas simplesmente não saibam; elas preferem não saber. Isso autoriza a conclusão de que a alienação é, ao menos em parte, deliberada. O advérbio “presumivelmente” no enunciado também é importante: ele indica que se trata de uma suposição razoável, não de uma certeza absoluta — exatamente o que a inferência a partir de “é provável” sustenta.

A pegadinha: confundir inferência com extrapolação

A banca poderia ter colocado uma alternativa que dissesse “as pessoas são obrigadas a ignorar o trabalho dos mineiros” (extrapolação) ou “as pessoas nunca pensam no carvão” (generalização). Aqui, porém, a afirmação é cuidadosamente calibrada: “em geral”, “presumivelmente deliberado” — termos que evitam o absoluto e se alinham às pistas do texto. A armadilha seria achar que “deliberado” exige uma prova explícita de intenção; mas a inferência não exige isso, basta a pista linguística do “prefira”.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre inferência legítima (com pista no texto) e extrapolação (acréscimo de informação externa). O verbo “prefira” é a pista que autoriza a deliberação; sem ele, a afirmação seria extrapolação.

Análise do item

Item — ✅ CERTO

A afirmação é correta porque o texto fornece pistas suficientes para a inferência. Vejamos as passagens que sustentam cada parte:

  • Alienação: “de modo geral, não temos consciência disso; todos sabemos que ‘precisamos de carvão’, mas raramente, ou nunca, nos lembramos de tudo o que está envolvido no processo para se obter carvão.” — aqui está a falta de consciência, a alienação.

  • Deliberação: “É provável que a maioria das pessoas até prefira não ouvir falar dele.” — o verbo “prefira” indica uma escolha, um ato de vontade, o que sustenta a ideia de que a alienação é presumivelmente deliberada.

Além disso, o autor reforça a ideia de que as pessoas não querem se conectar com o trabalho dos mineiros: “É apenas ‘carvão’, algo que eu preciso ter, uma coisa escura que chega misteriosamente, vinda de nenhum lugar em especial, como o maná, só que devemos pagar por ele.” A comparação com o maná (alimento que caía do céu, sem esforço humano) sugere que as pessoas preferem ignorar a origem do carvão — uma escolha deliberada de não pensar nisso.

Portanto, a inferência é legítima, pois se apoia em pistas textuais claras. Não há extrapolação, pois o texto não diz que as pessoas são forçadas a ignorar, mas que preferem não saber — exatamente o que a afirmação sustenta.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, procure sempre a pista linguística que autoriza a dedução. Aqui, o verbo “prefira” é a chave: ele transforma a alienação em algo deliberado. Sem essa pista, a afirmação seria extrapolação.

Conclusão: o item está certo, pois a inferência é sustentada por pistas textuais — a falta de consciência (“não temos consciência disso”) e a escolha deliberada (“prefira não ouvir falar”). A banca pediu uma inferência, e o texto a autoriza plenamente.

Gabarito: Certo (C).

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