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Questão de Português — Conjunção — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsConjunção
Código
ce414566
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
ANM
Ano
2025
Cargo
AA ( )

Observando os mineiros trabalharem, você percebe, por um breve instante, como são diferentes os universos habitados por diferentes pessoas. Os subterrâneos onde se escava o carvão são uma espécie de mundo à parte, e é fácil viver toda uma vida sem jamais ouvir falar dele. É provável que a maioria das pessoas até prefira não ouvir falar dele. E, contudo, esse mundo é a contraparte indispensável do nosso mundo da superfície. Praticamente tudo que fazemos, desde tomar um sorvete até atravessar o Atlântico, desde assar um filão de pão até escrever um romance, envolve usar carvão, direta ou indiretamente. Para todas as artes da paz, o carvão é necessário; e, se a guerra irrompe, é ainda mais necessário. Em épocas de revolução, o mineiro precisa continuar trabalhando, do contrário a revolução tem que parar, pois o carvão é essencial tanto para a revolta como para a reação. Seja lá o que for que aconteça na superfície, as pás e picaretas têm que continuar escavando sem trégua — ou fazendo uma pausa de algumas semanas, no máximo. Porém, de modo geral, não temos consciência disso; todos sabemos que “precisamos de carvão”, mas raramente, ou nunca, nos lembramos de tudo o que está envolvido no processo para se obter carvão.


Aqui estou eu escrevendo, sentado diante da minha confortável lareira a carvão. De quinze em quinze dias, a carroça de carvão para na porta e uns homens de blusão de couro trazem o carvão para dentro de casa em sacos robustos, cheirando a piche, e o despejam no depósito de carvão embaixo da escada. É só muito raramente, quando faço um esforço mental bem definido, que estabeleço a conexão entre esse carvão e o penoso trabalho realizado lá longe, nas minas. É apenas “carvão”, algo que eu preciso ter, uma coisa escura que chega misteriosamente, vinda de nenhum lugar em especial, como o maná, só que devemos pagar por ele.


Seria fácil atravessar de carro todo o norte da Inglaterra sem lembrar, nem uma só vez, que, dezenas de metros abaixo da estrada, os mineiros estão atacando o carvão com suas picaretas. E, contudo, são eles que estão fazendo seu carro andar. O mundo deles lá embaixo, iluminado por suas lâmpadas, é tão necessário para o mundo da superfície, da luz do dia, como a raiz é necessária para a flor.


George Orwell. O caminho para Wigan Pier. Trad. Isa Mara Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 (com adaptações).

Texto CG1A1

 

Julgue o item subsequente, relativo a aspectos linguísticos do texto CG1A1.


o termo “como” exprime noção de causa, ao introduzir uma oração que indica a razão pela qual o mundo subterrâneo é tão necessário ao mundo da superfície.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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O valor do "como" no texto de Orwell

Gabarito: letra E (Errado). O item afirma que o termo "como" exprime noção de causa, mas, no trecho citado, ele estabelece uma comparação — o mundo subterrâneo é necessário ao mundo da superfície assim como a raiz é necessária à flor. A passagem que decide a questão é a do 3º parágrafo:

"O mundo deles lá embaixo, iluminado por suas lâmpadas, é tão necessário para o mundo da superfície, da luz do dia, como a raiz é necessária para a flor."

Aqui, o "como" introduz uma oração subordinada adverbial comparativa, e não causal. A ideia de necessidade é expressa pelo adjetivo "necessário" e pela estrutura correlativa "tão... como", típica da comparação. O item, portanto, contradiz o texto ao atribuir ao conectivo um valor que ele não tem nesse contexto.

O comando e o que ele pede

A questão é de aspectos linguísticos: pede-se que se julgue a afirmação sobre o valor semântico do "como" no texto. Isso exige análise sintático-semântica do trecho, não apenas compreensão global. O verbo "exprime" indica que se deve identificar a relação de sentido que o conectivo estabelece entre as orações. Em questões assim, o caminho é: localizar o trecho, identificar a estrutura ("tão... como") e classificar a oração introduzida.

O texto e o movimento argumentativo

O texto de Orwell defende a tese de que o mundo subterrâneo das minas é indispensável ao mundo da superfície — tudo o que fazemos depende do carvão. No 3º parágrafo, o autor reforça essa ideia com uma comparação: assim como a raiz é necessária para a flor, o mundo dos mineiros é necessário para o mundo da superfície. A comparação é o recurso argumentativo central nesse trecho, e o "como" é a conjunção que a materializa.

A técnica que decide

A palavra "como" pode ter vários valores: causal ("Como choveu, a rua alagou"), comparativa ("Ela canta como um passarinho"), conformativa ("Como dissemos, tudo deu certo"), entre outros. Para decidir, o contexto é soberano. No trecho, a presença do correlativo "tão... como" é a pista decisiva: essa estrutura é típica de comparação de igualdade. Se fosse causal, o "como" viria no início da oração e poderia ser substituído por "porque" ou "já que" — o que não ocorre aqui. Teste mental: "O mundo deles é tão necessário porque a raiz é necessária para a flor"? Não faz sentido. A substituição correta é "assim como a raiz é necessária para a flor".

Análise do item

Valor do "como"
  • 1Causal
    • Substituível por "porque"/"já que"
    • Ex.: "Como choveu, a rua alagou"
  • 2Comparativa
    • Estrutura correlativa "tão... como"
    • Substituível por "assim como"/"tal qual"
    • Ex.: "Ela canta como um passarinho"
  • 3Conformativa
    • Substituível por "conforme"
    • Ex.: "Como dissemos, tudo deu certo"
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Item — ❌ Errado ⟵ GABARITO

O item afirma que o "como" exprime causa, mas o texto mostra comparação. A passagem "é tão necessário ... como a raiz é necessária para a flor" é uma oração subordinada adverbial comparativa, introduzida pela conjunção "como", que estabelece uma relação de analogia entre dois elementos: o mundo subterrâneo e a raiz. Não há relação de causa e efeito entre as orações; a necessidade do mundo subterrâneo não é causada pela raiz, mas comparada a ela. Portanto, o item contradiz o texto ao atribuir ao conectivo um valor semântico que ele não possui nesse contexto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre a ideia de necessidade (que poderia sugerir causa) e a relação gramatical de comparação estabelecida pelo "como". O candidato que lê apenas o sentido global — "o mundo subterrâneo é necessário" — pode achar que o "como" explica o porquê, mas a estrutura "tão... como" é inequivocamente comparativa.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar o valor de um conectivo, substitua-o por outro e veja se o sentido se mantém. Se "como" puder ser trocado por "assim como" ou "tal qual", é comparação; se por "porque" ou "já que", é causa. No trecho, "assim como" funciona perfeitamente; "porque" não.

Conclusão: o item está errado porque classifica o "como" como causal, quando, no texto, ele introduz uma comparação — o mundo subterrâneo é tão necessário ao mundo da superfície como a raiz é necessária à flor. A resposta correta é a letra E.

Gabarito: letra E

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