Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Concordância (Verbal e Nominal) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsConcordância (Verbal e Nominal)
Código
ce414569
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
ANM
Ano
2025
Cargo
AA ( )

Observando os mineiros trabalharem, você percebe, por um breve instante, como são diferentes os universos habitados por diferentes pessoas. Os subterrâneos onde se escava o carvão são uma espécie de mundo à parte, e é fácil viver toda uma vida sem jamais ouvir falar dele. É provável que a maioria das pessoas até prefira não ouvir falar dele. E, contudo, esse mundo é a contraparte indispensável do nosso mundo da superfície. Praticamente tudo que fazemos, desde tomar um sorvete até atravessar o Atlântico, desde assar um filão de pão até escrever um romance, envolve usar carvão, direta ou indiretamente. Para todas as artes da paz, o carvão é necessário; e, se a guerra irrompe, é ainda mais necessário. Em épocas de revolução, o mineiro precisa continuar trabalhando, do contrário a revolução tem que parar, pois o carvão é essencial tanto para a revolta como para a reação. Seja lá o que for que aconteça na superfície, as pás e picaretas têm que continuar escavando sem trégua — ou fazendo uma pausa de algumas semanas, no máximo. Porém, de modo geral, não temos consciência disso; todos sabemos que “precisamos de carvão”, mas raramente, ou nunca, nos lembramos de tudo o que está envolvido no processo para se obter carvão.


Aqui estou eu escrevendo, sentado diante da minha confortável lareira a carvão. De quinze em quinze dias, a carroça de carvão para na porta e uns homens de blusão de couro trazem o carvão para dentro de casa em sacos robustos, cheirando a piche, e o despejam no depósito de carvão embaixo da escada. É só muito raramente, quando faço um esforço mental bem definido, que estabeleço a conexão entre esse carvão e o penoso trabalho realizado lá longe, nas minas. É apenas “carvão”, algo que eu preciso ter, uma coisa escura que chega misteriosamente, vinda de nenhum lugar em especial, como o maná, só que devemos pagar por ele.


Seria fácil atravessar de carro todo o norte da Inglaterra sem lembrar, nem uma só vez, que, dezenas de metros abaixo da estrada, os mineiros estão atacando o carvão com suas picaretas. E, contudo, são eles que estão fazendo seu carro andar. O mundo deles lá embaixo, iluminado por suas lâmpadas, é tão necessário para o mundo da superfície, da luz do dia, como a raiz é necessária para a flor.


George Orwell. O caminho para Wigan Pier. Trad. Isa Mara Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 (com adaptações).

Texto CG1A1

 

Julgue o item subsequente, relativo a aspectos linguísticos do texto CG1A1.

 

No último período do primeiro parágrafo, a flexão da forma verbal “sabemos” na primeira pessoa do plural expressa um tipo de concordância ideológica, em que essa forma verbal concorda com um elemento implícito, no qual se inclui o próprio autor do texto.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Concordância ideológica em “sabemos” — silepse de pessoa

Gabarito: Certo (C). A afirmação está correta: no último período do primeiro parágrafo, a forma verbal “sabemos” está na 1ª pessoa do plural e concorda com um sujeito implícito — um “nós” que inclui o autor e o leitor, configurando concordância ideológica (silepse de pessoa). O texto sustenta isso ao usar “todos sabemos que ‘precisamos de carvão’”, em que o autor se inclui no grupo genérico de pessoas que têm essa consciência superficial.

O comando

A questão pede um julgamento Certo/Errado sobre um aspecto linguístico: a flexão de “sabemos” na 1ª pessoa do plural. Não se trata de interpretação de conteúdo, mas de análise gramatical aplicada ao texto — você deve verificar se a forma verbal expressa concordância ideológica com um elemento implícito que inclui o autor. O verbo “saber” está conjugado na 1ª pessoa do plural (nós sabemos), mas não há um sujeito explícito “nós” no período; o sujeito é desinencial (oculto), recuperável pela desinência verbal.

O texto e a passagem decisiva

No último período do primeiro parágrafo, lemos:

“todos sabemos que ‘precisamos de carvão’, mas raramente, ou nunca, nos lembramos de tudo o que está envolvido no processo para se obter carvão.”

Aqui, “sabemos” e “nos lembramos” estão na 1ª pessoa do plural. O sujeito implícito é “nós” — e esse “nós” não é apenas o autor, mas todos (a humanidade, as pessoas em geral), como indica o adjunto “todos”. O autor se inclui nesse grupo: ele próprio, ao escrever, admite que raramente se lembra do processo de obtenção do carvão. Essa é a essência da silepse de pessoa: o verbo concorda com a pessoa que está na mente do falante (1ª do plural, incluindo o eu), e não com um termo expresso.

A técnica: silepse de pessoa × concordância gramatical

A concordância verbal padrão é gramatical: o verbo concorda com o sujeito expresso ou facilmente identificável. A silepse (ou concordância ideológica) ocorre quando a concordância se faz com a ideia ou com a pessoa que fala, e não com o termo sintático. No caso, não há um sujeito explícito “nós”; o verbo “sabemos” carrega a desinência de 1ª pessoa do plural, e o contexto mostra que esse “nós” inclui o autor (que escreve “Aqui estou eu escrevendo”) e o leitor (a quem o texto se dirige). É exatamente o que a assertiva descreve: “concorda com um elemento implícito, no qual se inclui o próprio autor”.

Por que as demais possibilidades não se aplicam

  • Não é concordância com sujeito simples explícito (não há “nós” escrito).

  • Não é concordância atrativa (não há dois núcleos).

  • Não é caso de sujeito indeterminado (o verbo está na 1ª pessoa, não na 3ª com “se”).

  • Não é erro de concordância: a forma está correta e o sentido é intencional.

Fechamento

A banca cobra o reconhecimento de um fenômeno gramatical sutil: a silepse de pessoa. Ao usar “sabemos”, o autor se coloca como parte de um “nós” coletivo, criando proximidade com o leitor e reforçando a ideia de que a falta de consciência sobre o trabalho dos mineiros é geral. A assertiva está perfeita.

1Conceito
Concorda com a ideia/pessoa que fala
Não com o termo sintático expresso
2Caso do texto
"sabemos" (1ª pessoa do plural)
Sujeito implícito "nós"
Inclui autor e leitor
3O que NÃO é
Concordância com sujeito explícito
Concordância atrativa
Sujeito indeterminado
Erro de concordância
Silepse de pessoa (concordância ideológica)
LEVELsoulevel.com.br
Silepse de pessoa (concordância ideológica): Conceito (Concorda com a ideia/pessoa que fala, Não com o termo sintático expresso); Caso do texto ("sabemos" (1ª pessoa do plural), Sujeito implícito "nós", Inclui autor e leitor); O que NÃO é (Concordância com sujeito explícito, Concordância atrativa, Sujeito indeterminado, Erro de concordância)

Gabarito: Certo (C).

Link permanente: /questoes/ce414569