Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
ce414572
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
ANM
Ano
2025
Cargo
AA ( )

Observando os mineiros trabalharem, você percebe, por um breve instante, como são diferentes os universos habitados por diferentes pessoas. Os subterrâneos onde se escava o carvão são uma espécie de mundo à parte, e é fácil viver toda uma vida sem jamais ouvir falar dele. É provável que a maioria das pessoas até prefira não ouvir falar dele. E, contudo, esse mundo é a contraparte indispensável do nosso mundo da superfície. Praticamente tudo que fazemos, desde tomar um sorvete até atravessar o Atlântico, desde assar um filão de pão até escrever um romance, envolve usar carvão, direta ou indiretamente. Para todas as artes da paz, o carvão é necessário; e, se a guerra irrompe, é ainda mais necessário. Em épocas de revolução, o mineiro precisa continuar trabalhando, do contrário a revolução tem que parar, pois o carvão é essencial tanto para a revolta como para a reação. Seja lá o que for que aconteça na superfície, as pás e picaretas têm que continuar escavando sem trégua — ou fazendo uma pausa de algumas semanas, no máximo. Porém, de modo geral, não temos consciência disso; todos sabemos que “precisamos de carvão”, mas raramente, ou nunca, nos lembramos de tudo o que está envolvido no processo para se obter carvão.


Aqui estou eu escrevendo, sentado diante da minha confortável lareira a carvão. De quinze em quinze dias, a carroça de carvão para na porta e uns homens de blusão de couro trazem o carvão para dentro de casa em sacos robustos, cheirando a piche, e o despejam no depósito de carvão embaixo da escada. É só muito raramente, quando faço um esforço mental bem definido, que estabeleço a conexão entre esse carvão e o penoso trabalho realizado lá longe, nas minas. É apenas “carvão”, algo que eu preciso ter, uma coisa escura que chega misteriosamente, vinda de nenhum lugar em especial, como o maná, só que devemos pagar por ele.


Seria fácil atravessar de carro todo o norte da Inglaterra sem lembrar, nem uma só vez, que, dezenas de metros abaixo da estrada, os mineiros estão atacando o carvão com suas picaretas. E, contudo, são eles que estão fazendo seu carro andar. O mundo deles lá embaixo, iluminado por suas lâmpadas, é tão necessário para o mundo da superfície, da luz do dia, como a raiz é necessária para a flor.


George Orwell. O caminho para Wigan Pier. Trad. Isa Mara Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 (com adaptações).

Texto CG1A1

 

Julgue o item subsequente, relativo a aspectos linguísticos do texto CG1A1.

 

Feitos os devidos ajustes de iniciais maiúsculas e minúsculas, a correção gramatical e a coerência do terceiro período do segundo parágrafo seriam preservadas caso se suprimissem os vocábulos “É” e “que”.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Reescritura com supressão de “É” e “que” — estrutura de realce

Gabarito: CERTO. A supressão dos vocábulos “É” e “que” no terceiro período do segundo parágrafo preserva a correção gramatical e a coerência, pois eles formam uma estrutura de realce (clivada) — um recurso de ênfase, não um elemento sintático obrigatório. A frase original “É apenas ‘carvão’, algo que eu preciso ter” pode ser reescrita como “Apenas ‘carvão’, algo que eu preciso ter” sem prejuízo de sentido ou de gramática.

O comando

A questão pede que você julgue se a supressão de “É” e “que” mantém a correção e a coerência. Isso é uma tarefa de reescritura: você deve avaliar o efeito da mudança na estrutura sintática e no sentido. Não se trata de interpretar o texto, mas de analisar se a estrutura “É... que” é essencial ou apenas um recurso de ênfase.

O texto e a estrutura

No segundo parágrafo, o autor descreve como vê o carvão em sua casa: “É apenas ‘carvão’, algo que eu preciso ter”. A construção “É... que” é uma oração clivada, usada para destacar um elemento. Aqui, ela realça a palavra “apenas”, dando ênfase à ideia de que o carvão é visto de forma simplificada, sem conexão com o trabalho nas minas.

Ao suprimir “É” e “que”, a frase se torna “Apenas ‘carvão’, algo que eu preciso ter”. Essa nova estrutura é gramaticalmente correta: “apenas” funciona como adjunto adverbial, e o restante permanece íntegro. O sentido de “apenas” (somente, nada mais) é mantido, e a coerência com o parágrafo — que contrasta a visão superficial do carvão com o trabalho dos mineiros — continua intacta.

A técnica

A chave é reconhecer que “É... que” é uma estrutura de realce, também chamada de clivada. Ela não é obrigatória; serve apenas para dar ênfase. Compare:

  • Com realce: “É apenas ‘carvão’ que eu preciso ter.” (ênfase em “apenas”)

  • Sem realce: “Apenas ‘carvão’, algo que eu preciso ter.” (sem ênfase especial, mas mesmo sentido)

A supressão não altera a relação entre as ideias: o autor continua dizendo que o carvão é apenas uma coisa que ele precisa ter, sem considerar o processo de extração. Portanto, a correção e a coerência são preservadas.

1Função
Recurso de ênfase (realce)
Não é obrigatória
2Com realce
"É apenas 'carvão' que eu preciso ter"
3Sem realce (supressão)
"Apenas 'carvão', algo que eu preciso ter"
Mantém correção gramatical
Mantém coerência
Perde apenas a ênfase
Estrutura clivada ("É... que")
LEVELsoulevel.com.br
Estrutura clivada ("É... que"): Função (Recurso de ênfase (realce), Não é obrigatória); Com realce ("É apenas 'carvão' que eu preciso ter"); Sem realce (supressão) ("Apenas 'carvão', algo que eu preciso ter", Mantém correção gramatical, Mantém coerência, Perde apenas a ênfase)
PEGA ESSA DICA!

Em questões de reescritura, identifique se a estrutura é obrigatória (como uma conjunção que liga orações) ou facultativa (como um recurso de ênfase). Estruturas clivadas (“é... que”, “foi... que”) são quase sempre dispensáveis sem prejuízo de sentido.

Conclusão

A supressão de “É” e “que” mantém a frase gramaticalmente correta e coerente, apenas perdendo a ênfase. Como a banca pediu para julgar se a correção e a coerência seriam preservadas, a resposta é CERTO.

Gabarito: CERTO.

Link permanente: /questoes/ce414572