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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce414614
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
IBAMA
Ano
2025
Cargo
AAmb ( )

A linguagem não é um artefato cultural que aprendemos da maneira como aprendemos a dizer a hora ou como o governo federal está funcionando. Ao contrário, é claramente uma peça da constituição biológica de nosso cérebro. A linguagem é uma habilidade complexa e especializada, que se desenvolve espontaneamente na criança, sem qualquer esforço consciente ou instrução formal, que se manifesta sem que se perceba sua lógica subjacente, que é qualitativamente a mesma em todo indivíduo, e que difere de capacidades mais gerais de processamento de informações ou de comportamento inteligente.


Por esses motivos, alguns cientistas cognitivistas descreveram a linguagem como uma faculdade psicológica, umórgão mental, um sistema neural ou um módulo computacional. Mas prefiro o simples e banal termo “instinto”. Ele transmite a ideia de que as pessoas sabem falar mais ou menos da mesma maneira que as aranhas sabem tecer teias. A capacidade de tecer teias não foi inventada por alguma aranha genial não reconhecida e não depende de receber a educação adequada ou de ter aptidão para arquitetura ou negócios imobiliários. As aranhas tecem teias porque têm cérebro de aranha, o que as impele a tecer e lhes dá competência para fazê-lo com sucesso.


Pensar a linguagem como um instinto inverte a sabedoria popular, especialmente da forma como foi aceita nos cânones das ciências humanas e sociais. A linguagem não é uma invenção cultural, assim como tampouco a postura ereta o é. Não é uma manifestação da capacidade geral de usar símbolos: uma criança de três anos é um gênio gramatical, mas é bastante incompetente em termos de artes visuais, iconografia religiosa, sinais de trânsito e outros itens básicos do currículo de semiótica.


Embora a linguagem seja uma habilidade magnífica exclusiva do Homo sapiens entre as espécies vivas, isso não implica que o estudo dos seres humanos deva ser retirado do campo da biologia, pois existem outras habilidades magníficas exclusivas de uma espécie viva em particular no reino animal. Alguns tipos de morcegos capturam insetos voadores mediante um sonar Doppler. Alguns tipos de aves migratórias viajam milhares de quilômetros comparando as posições das constelações com as horas do dia e épocas do ano. No show de talentos da natureza, somos apenas uma espécie de primatas com nosso próprio espetáculo, um jeito todo especial de comunicar informação.


Do ponto de vista do cientista, a complexidade da linguagem é parte de nossa herança biológica inata; não é algo que os pais ensinam aos filhos ou algo que tenha de ser elaborado na escola. O conhecimento tácito de gramática de uma criança em idade pré-escolar é mais sofisticado que o mais volumoso manual de estilo ou o mais moderno sistema de linguagem de computador, e o mesmo se aplica a qualquer ser humanosaudável.


Steven Pinker. O instinto da linguagem: como a mente cria a linguagem.
Tradução: Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2004 (com adaptações).

A respeito das ideias e de aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item que se segue.


A palavra “tácito” está empregada com o mesmo sentido de inexpressivo.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Sentido de “tácito” no texto

Gabarito: ERRADO. A palavra “tácito” está empregada no texto com o sentido de implícito, subentendido, que não é dito explicitamente — e não com o sentido de “inexpressivo” (sem expressão, sem emoção, apático). A afirmação do item, portanto, contradiz o sentido contextual da palavra, como se comprova no trecho em que o autor fala do “conhecimento tácito de gramática” da criança.

“O conhecimento tácito de gramática de uma criança em idade pré-escolar é mais sofisticado que o mais volumoso manual de estilo ou o mais moderno sistema de linguagem de computador”

Aqui, “tácito” qualifica um conhecimento que a criança possui sem ter consciência explícita dele — ela sabe usar a gramática, mas não sabe explicar as regras. É exatamente o sentido de “implícito”, “não formulado”. “Inexpressivo”, por sua vez, remete a algo sem expressão, sem vivacidade, sem emoção (um rosto inexpressivo, por exemplo) — sentido que não se aplica ao contexto.

O comando

O item pede um julgamento sobre o sentido contextual de uma palavra. Não se trata de decorar o dicionário, mas de observar como a palavra funciona naquele trecho específico. A banca quer saber se “tácito” e “inexpressivo” são sinônimos no texto — e não são.

A técnica

Para resolver, você deve:

  1. Localizar a palavra no texto.

  2. Verificar o que ela significa naquele contexto (quem é o sujeito, o que está sendo qualificado).

  3. Comparar com o sentido proposto na assertiva.

No trecho, “tácito” modifica “conhecimento de gramática”. O autor afirma que a criança sabe a gramática, mas não a aprendeu de forma consciente ou instruída — é um conhecimento inato, implícito. Portanto, “tácito” = implícito, subentendido, não expresso verbalmente.

“Inexpressivo” é um falso sinônimo: embora ambas as palavras possam remeter a algo “não dito”, “inexpressivo” carrega um juízo de falta de expressão, de emoção, de vivacidade — algo que não se aplica ao conhecimento gramatical da criança.

A pegadinha

A banca explora a confusão entre o sentido contextual e o sentido dicionarizado de “tácito”. Muitos candidatos sabem que “tácito” significa “implícito”, mas podem ser atraídos pela ideia de “não expresso” e associá-la a “inexpressivo”. No entanto, “inexpressivo” tem conotação negativa de ausência de expressão, enquanto “tácito” é neutro e significa apenas “não dito explicitamente”.

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca o sentido de “tácito” (implícito) por um falso sinônimo (“inexpressivo”), que tem conotação diferente. Fique atento ao contexto — a palavra só tem sentido pleno na frase em que aparece.

Conclusão

A assertiva está errada porque atribui a “tácito” um sentido que ele não tem no texto. A palavra significa implícito, subentendido, e não “inexpressivo”.

Gabarito: ERRADO.

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