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Questão de Português — Colocação Pronominal — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsColocação Pronominal
Código
ce414616
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
IBAMA
Ano
2025
Cargo
AAmb ( )

A linguagem não é um artefato cultural que aprendemos da maneira como aprendemos a dizer a hora ou como o governo federal está funcionando. Ao contrário, é claramente uma peça da constituição biológica de nosso cérebro. A linguagem é uma habilidade complexa e especializada, que se desenvolve espontaneamente na criança, sem qualquer esforço consciente ou instrução formal, que se manifesta sem que se perceba sua lógica subjacente, que é qualitativamente a mesma em todo indivíduo, e que difere de capacidades mais gerais de processamento de informações ou de comportamento inteligente.


Por esses motivos, alguns cientistas cognitivistas descreveram a linguagem como uma faculdade psicológica, umórgão mental, um sistema neural ou um módulo computacional. Mas prefiro o simples e banal termo “instinto”. Ele transmite a ideia de que as pessoas sabem falar mais ou menos da mesma maneira que as aranhas sabem tecer teias. A capacidade de tecer teias não foi inventada por alguma aranha genial não reconhecida e não depende de receber a educação adequada ou de ter aptidão para arquitetura ou negócios imobiliários. As aranhas tecem teias porque têm cérebro de aranha, o que as impele a tecer e lhes dá competência para fazê-lo com sucesso.


Pensar a linguagem como um instinto inverte a sabedoria popular, especialmente da forma como foi aceita nos cânones das ciências humanas e sociais. A linguagem não é uma invenção cultural, assim como tampouco a postura ereta o é. Não é uma manifestação da capacidade geral de usar símbolos: uma criança de três anos é um gênio gramatical, mas é bastante incompetente em termos de artes visuais, iconografia religiosa, sinais de trânsito e outros itens básicos do currículo de semiótica.


Embora a linguagem seja uma habilidade magnífica exclusiva do Homo sapiens entre as espécies vivas, isso não implica que o estudo dos seres humanos deva ser retirado do campo da biologia, pois existem outras habilidades magníficas exclusivas de uma espécie viva em particular no reino animal. Alguns tipos de morcegos capturam insetos voadores mediante um sonar Doppler. Alguns tipos de aves migratórias viajam milhares de quilômetros comparando as posições das constelações com as horas do dia e épocas do ano. No show de talentos da natureza, somos apenas uma espécie de primatas com nosso próprio espetáculo, um jeito todo especial de comunicar informação.


Do ponto de vista do cientista, a complexidade da linguagem é parte de nossa herança biológica inata; não é algo que os pais ensinam aos filhos ou algo que tenha de ser elaborado na escola. O conhecimento tácito de gramática de uma criança em idade pré-escolar é mais sofisticado que o mais volumoso manual de estilo ou o mais moderno sistema de linguagem de computador, e o mesmo se aplica a qualquer ser humanosaudável.


Steven Pinker. O instinto da linguagem: como a mente cria a linguagem.
Tradução: Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2004 (com adaptações).

A respeito das ideias e de aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item que se segue.

 

A correção gramatical do texto seria mantida caso a forma pronominal presente no trecho “para fazê-lo com sucesso” fosse deslocada para a posição proclítica, escrevendo-se para o fazer com sucesso.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoC — Certo

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Colocação Pronominal com Infinitivo: Próclise Facultativa

Gabarito: letra C (CERTO). A reescrita "para o fazer com sucesso" mantém a correção gramatical porque, com verbos no infinitivo, a posição do pronome oblíquo átono é facultativa — mesmo havendo palavra atrativa (a preposição "para"), tanto a ênclise ("fazê-lo") quanto a próclise ("o fazer") são aceitas pela norma culta. O trecho original do texto é "para fazê-lo com sucesso", e a banca apenas testa se o deslocamento do pronome para antes do verbo preserva a gramaticalidade — e preserva.

O Comando

A questão pede um julgamento sobre correção gramatical em uma reescritura. Não se trata de interpretação de ideias, mas de aplicar uma regra de colocação pronominal a um caso concreto. O verbo da tarefa é "julgar se a correção seria mantida" — ou seja, precisamos verificar se a nova posição do pronome obedece às regras da norma padrão.

O Trecho e a Regra

O trecho original é:

"As aranhas tecem teias porque têm cérebro de aranha, o que as impele a tecer e lhes dá competência para fazê-lo com sucesso."

A forma "fazê-lo" é uma ênclise (pronome depois do verbo) com o verbo no infinitivo "fazer". A preposição "para" que antecede o verbo é uma palavra que, em tese, atrai a próclise. Porém, a gramática normativa estabelece uma exceção importante:

PEGA ESSA DICA!

Com verbos no infinitivo, mesmo havendo palavra atrativa, a colocação do pronome é facultativa — pode-se usar próclise ou ênclise. Ex.: "Espero não me arrepender" (próclise) ou "Espero não arrepender-me" (ênclise).

Essa é a regra que decide a questão. A preposição "para" é uma palavra atrativa, mas, como o verbo está no infinitivo, o pronome pode ficar antes (próclise: "para o fazer") ou depois (ênclise: "para fazê-lo"). Ambas as construções são gramaticalmente corretas.

Aplicando ao Caso

No trecho original, temos "para fazê-lo". A reescrita proposta é "para o fazer". Vejamos:

  • Original: "para fazê-lo" → ênclise com infinitivo.

  • Reescrita: "para o fazer" → próclise com infinitivo.

Como o verbo "fazer" está no infinitivo, a próclise é permitida, mesmo com a preposição "para" antes. Portanto, a correção gramatical é mantida.

A Pegadinha

A banca explora a confusão entre a regra geral (palavra atrativa exige próclise) e a exceção do infinitivo. O candidato que decora apenas a regra geral pode marcar "errado", achando que a preposição "para" obrigaria a ênclise. Mas a norma culta admite ambas as posições com infinitivo.

Colocação pronominal com infinitivo
  • 1Regra geral
    • Palavra atrativa → próclise
    • Ex.: "para" atrai
  • 2Exceção do infinitivo
    • Próclise facultativa
    • Ênclise facultativa
    • Ex.: "para o fazer" / "para fazê-lo"
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NÃO CAIA NESSA!

A banca testa se você conhece a exceção do infinitivo. A regra geral diz que palavra atrativa (como "para") exige próclise, mas, com verbo no infinitivo, a posição é facultativa. Quem não sabe essa exceção marca "errado" por aplicar a regra geral de forma mecânica.

Conclusão

A reescrita "para o fazer com sucesso" é gramaticalmente correta, pois, com verbos no infinitivo, a colocação do pronome oblíquo átono é facultativa, mesmo diante de palavra atrativa. Portanto, o item está CERTO.

Gabarito: letra C (CERTO).

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