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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce414617
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
IBAMA
Ano
2025
Cargo
AAmb ( )

A linguagem não é um artefato cultural que aprendemos da maneira como aprendemos a dizer a hora ou como o governo federal está funcionando. Ao contrário, é claramente uma peça da constituição biológica de nosso cérebro. A linguagem é uma habilidade complexa e especializada, que se desenvolve espontaneamente na criança, sem qualquer esforço consciente ou instrução formal, que se manifesta sem que se perceba sua lógica subjacente, que é qualitativamente a mesma em todo indivíduo, e que difere de capacidades mais gerais de processamento de informações ou de comportamento inteligente.


Por esses motivos, alguns cientistas cognitivistas descreveram a linguagem como uma faculdade psicológica, umórgão mental, um sistema neural ou um módulo computacional. Mas prefiro o simples e banal termo “instinto”. Ele transmite a ideia de que as pessoas sabem falar mais ou menos da mesma maneira que as aranhas sabem tecer teias. A capacidade de tecer teias não foi inventada por alguma aranha genial não reconhecida e não depende de receber a educação adequada ou de ter aptidão para arquitetura ou negócios imobiliários. As aranhas tecem teias porque têm cérebro de aranha, o que as impele a tecer e lhes dá competência para fazê-lo com sucesso.


Pensar a linguagem como um instinto inverte a sabedoria popular, especialmente da forma como foi aceita nos cânones das ciências humanas e sociais. A linguagem não é uma invenção cultural, assim como tampouco a postura ereta o é. Não é uma manifestação da capacidade geral de usar símbolos: uma criança de três anos é um gênio gramatical, mas é bastante incompetente em termos de artes visuais, iconografia religiosa, sinais de trânsito e outros itens básicos do currículo de semiótica.


Embora a linguagem seja uma habilidade magnífica exclusiva do Homo sapiens entre as espécies vivas, isso não implica que o estudo dos seres humanos deva ser retirado do campo da biologia, pois existem outras habilidades magníficas exclusivas de uma espécie viva em particular no reino animal. Alguns tipos de morcegos capturam insetos voadores mediante um sonar Doppler. Alguns tipos de aves migratórias viajam milhares de quilômetros comparando as posições das constelações com as horas do dia e épocas do ano. No show de talentos da natureza, somos apenas uma espécie de primatas com nosso próprio espetáculo, um jeito todo especial de comunicar informação.


Do ponto de vista do cientista, a complexidade da linguagem é parte de nossa herança biológica inata; não é algo que os pais ensinam aos filhos ou algo que tenha de ser elaborado na escola. O conhecimento tácito de gramática de uma criança em idade pré-escolar é mais sofisticado que o mais volumoso manual de estilo ou o mais moderno sistema de linguagem de computador, e o mesmo se aplica a qualquer ser humanosaudável.


Steven Pinker. O instinto da linguagem: como a mente cria a linguagem.
Tradução: Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2004 (com adaptações).

A respeito das ideias e de aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item que se segue.   A eliminação do trecho “sabem tecer teias” prejudicaria as relações de sentido e de coerência do texto.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A eliminação de “sabem tecer teias” e a coerência do texto

Gabarito: Certo (C). A eliminação do trecho “sabem tecer teias” prejudicaria as relações de sentido e a coerência do texto, porque ele é o núcleo da comparação que o autor estabelece entre a linguagem humana e o instinto das aranhas. Sem esse trecho, a analogia perde seu termo de comparação e o argumento fica incompleto, como se lê no 2º parágrafo.

O comando pede um julgamento sobre o efeito da supressão de um trecho específico na coerência e nas relações de sentido do texto. Não se trata de uma questão de compreensão literal, mas de interpretação do papel que esse trecho desempenha na argumentação. Para resolver, é preciso identificar a função do trecho no contexto e verificar se sua ausência comprometeria a lógica do texto.

No 2º parágrafo, o autor explica por que prefere chamar a linguagem de “instinto”:

“Ele transmite a ideia de que as pessoas sabem falar mais ou menos da mesma maneira que as aranhas sabem tecer teias.”

Aqui, “sabem tecer teias” é o termo de comparação que torna concreta a ideia de instinto: assim como as aranhas tecem teias sem terem aprendido, os humanos falam sem instrução formal. O trecho não é um detalhe decorativo; ele é o exemplo que sustenta a tese de que a linguagem é biológica e inata.

Se o trecho fosse eliminado, a frase ficaria “as pessoas sabem falar mais ou menos da mesma maneira que as aranhas”, o que quebraria a comparação — o leitor não saberia com que habilidade das aranhas a fala está sendo comparada. A coerência do parágrafo, que depende dessa analogia, seria comprometida. Além disso, o trecho é retomado logo em seguida: “As aranhas tecem teias porque têm cérebro de aranha”, o que reforça sua importância para a progressão textual.

A banca explora a armadilha da banalização: o candidato pode achar que “sabem tecer teias” é um detalhe dispensável, quando na verdade é essencial para a construção do sentido. A eliminação de qualquer elemento que participe de uma comparação ou de uma cadeia argumentativa prejudica a coerência.

Alternativa C — ✅ Certo ⟵ GABARITO

A afirmação está correta. O trecho “sabem tecer teias” é indispensável para a comparação entre a fala humana e o instinto das aranhas. Sem ele, a analogia perde o termo de comparação e o argumento fica incompleto, prejudicando a coerência. O texto diz:

“as pessoas sabem falar mais ou menos da mesma maneira que as aranhas sabem tecer teias”

E, logo depois, reforça: “As aranhas tecem teias porque têm cérebro de aranha”. A supressão do trecho eliminaria a base da comparação, tornando o texto incoerente.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A afirmação está errada. O trecho “sabem tecer teias” não é um detalhe dispensável; ele é o núcleo da comparação que sustenta a tese do autor. Eliminá-lo prejudicaria as relações de sentido e a coerência, exatamente como afirma o item. Portanto, a alternativa E, que nega esse prejuízo, contradiz o que o texto demonstra.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer o candidato achar que “sabem tecer teias” é um detalhe irrelevante, quando na verdade é o termo de comparação essencial para a analogia entre linguagem e instinto.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens sobre supressão de trechos, pergunte: “esse trecho participa de uma comparação, de uma cadeia argumentativa ou de uma retomada?” Se sim, sua eliminação prejudica a coerência.

Conclusão: o item está Certo, pois a eliminação do trecho “sabem tecer teias” comprometeria a comparação central do texto, prejudicando as relações de sentido e a coerência.

Gabarito: Certo (C).

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