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Questão de Português — Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsPontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)
Código
ce414674
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEFAZ RJ
Ano
2025
Cargo
AFRE RJ
Texto 2A1-I


    Nunca gostei do excesso de realidade presente na boca dos arautos que falam sobre o Rio, seja em mesa de bar, entrevista de canal a cabo ou seminário de universitárias charmosas. Na cidade, eu procuro a ficção.

   Não se trata de inventar histórias, nem de negar-se ao mundo, aos objetos e às relações formativas desta civilização carioca. Trata-se de fruir, de buscar ao longo do dia o direito a esse instante. Ele é possível até mesmo sob o sol a pino, quando você é um camelô e arruma fileiras amarelas e vermelhas de bombons Serenata de Amor sobre a lona de plástico azul na calçada, imitando a vitrine da loja de roupa de grife atrás.

    Neste momento, você deve negar-se a qualquer entendimento sociológico da vida deste rapaz que produza compaixão, pois logo em seguida ele vai oferecer três bombons por um real com uma voz anasalada, num pregão que lembra o negro que vendia cocada em Dom Casmurro. Ele sabe que a forma de executar o pregão é decisiva para que você compre ou não o bombom. Mesmo sem ter lido Machado, ele já se apropriou das estratégias de ficção.

   Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava, decidi treinar estratégias de ficção com as pessoas com as quais convivia. Gosto de ver a reação desse carioca diante de quem faz uso de estratégias ficcionais. Não resisto a uma roda na rua, principalmente as do Largo da Carioca. Paro sempre para ver o tipo que ameaça pular no aro de bicicleta com facas espetadas para a plateia de office-boys e transeuntes diversos. Ele nunca pula, mas seus gestos e o seu tom de voz são decisivos no atraso de documentos de escritórios no centro da cidade.

   Não é fácil negar-se ao excesso de realidade. É preciso treinamento. Gosto de treinar no carnaval. Gosto de ir a Oswaldo Cruz. Ligo minha câmera e fico sentado no meio-fio esperando a performática saída de quase cem bate-bolas de um pequeno portão de chapa de aço. Eles desfilam cores, bexigadas furiosas no chão e sons incompreensíveis. Melhor mesmo é estar dentro desse grupo, usando uma dessas fantasias e participando dessa saída explosiva. De dentro da máscara, nada ao redor é realidade. Você escolhe como contar.


Marcus Vinícius Faustini. Guia afetivo da periferia.
Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009 (com adaptações).  
No texto 2A1-I, a vírgula logo após o vocábulo “funcionava” (em vermelho) é empregada para
  1. Amarcar o deslocamento de uma oração adverbial.
  2. Bisolar elementos que exercem a mesma função sintática.
  3. Cintroduzir uma oração de valor adversativo.
  4. Dseparar orações aditivas com sujeitos diferentes.
  5. Edelimitar uma oração com valor explicativo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — marcar o deslocamento de uma oração adverbial.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função da vírgula após “funcionava”

Gabarito: letra A. A vírgula logo após “funcionava” marca o deslocamento de uma oração adverbial — a oração “Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava” está anteposta à oração principal “decidi treinar estratégias de ficção...”. Como se lê no 4º parágrafo: “Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava, decidi treinar estratégias de ficção”. A oração subordinada adverbial temporal, quando vem antes da principal, exige vírgula para separá-la.

O comando

A questão pergunta para que a vírgula foi empregada — ou seja, qual a função sintática que ela desempenha no período. Não se trata de interpretar o sentido do texto, mas de analisar a estrutura da frase e reconhecer o papel da vírgula na organização das orações. É uma questão de gramática aplicada ao texto.

O texto e a estrutura

No trecho destacado, temos um período composto por subordinação:

“Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava, decidi treinar estratégias de ficção com as pessoas com as quais convivia.”

  • Oração subordinada adverbial temporal: “Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava” — introduzida pela conjunção “quando”, expressa uma circunstância de tempo.

  • Oração principal: “decidi treinar estratégias de ficção com as pessoas com as quais convivia”.

A oração adverbial está deslocada (anteposta) em relação à principal. Na ordem direta, ela viria depois: “Decidi treinar estratégias de ficção quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava”. Quando o adjunto adverbial (ou a oração adverbial) é deslocado para o início, a vírgula é obrigatória para marcar essa inversão.

A regra que decide

A vírgula tem, entre suas funções, a de separar adjuntos adverbiais deslocados. Isso vale tanto para o adjunto adverbial simples (ex.: “No parque, as crianças corriam”) quanto para a oração subordinada adverbial anteposta (ex.: “Quando ela chegou, João brincava no parque”). No trecho, a oração “Quando comecei a perceber...” é exatamente uma subordinada adverbial temporal deslocada — por isso a vírgula é obrigatória e sua função é marcar o deslocamento.

PEGA ESSA DICA!

Ao ver uma vírgula após uma oração que começa com “quando”, “se”, “embora”, “como”, “porque” etc., pergunte: essa oração está antes da principal? Se sim, é oração adverbial deslocada — vírgula obrigatória.

Análise das alternativas

1Oração subordinada adverbial temporal
Anteposta à principal
Vírgula obrigatória
2Ordem direta
Principal antes da adverbial
Sem vírgula
3Exemplos
"Quando ela chegou, João brincava"
"No parque, as crianças corriam"
Vírgula após oração adverbial deslocada
LEVELsoulevel.com.br
Vírgula após oração adverbial deslocada: Oração subordinada adverbial temporal (Anteposta à principal, Vírgula obrigatória); Ordem direta (Principal antes da adverbial, Sem vírgula); Exemplos ("Quando ela chegou, João brincava", "No parque, as crianças corriam")

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A vírgula separa a oração subordinada adverbial temporal “Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava” da oração principal “decidi treinar estratégias de ficção...”. Como a oração adverbial está anteposta (deslocada), a vírgula é obrigatória para marcar essa inversão da ordem direta. É exatamente o que a alternativa afirma: marcar o deslocamento de uma oração adverbial.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa fala em “isolar elementos que exercem a mesma função sintática” — isso ocorre em enumerações (ex.: “Comprei frutas, legumes e carnes”). No trecho, não há uma lista de termos coordenados; há uma oração subordinada anteposta. A vírgula não está separando elementos de mesma função, mas sim duas orações (a subordinada e a principal). Erro: troca de conceito — confunde enumeração com deslocamento de oração.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa fala em “oração de valor adversativo” — isso ocorre com conjunções como “mas”, “porém”, “contudo” (ex.: “Estudou muito, mas não passou”). No trecho, a oração introduzida por “quando” tem valor temporal, não adversativo. Não há oposição entre as ideias; há uma relação de tempo (quando percebi, decidi). Erro: troca de conceito — confunde valor temporal com valor adversativo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa fala em “separar orações aditivas com sujeitos diferentes” — isso ocorre com a conjunção “e” quando as orações têm sujeitos distintos (ex.: “O homem vendeu o carro, e a mulher protestou”). No trecho, não há oração aditiva; há uma subordinada adverbial. Além disso, a vírgula não está separando duas orações coordenadas, mas sim uma subordinada da principal. Erro: troca de conceito — confunde subordinação com coordenação aditiva.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa fala em “delimitar uma oração com valor explicativo” — isso ocorre com orações adjetivas explicativas (ex.: “O livro, que era antigo, caiu”) ou com expressões explicativas (ex.: “isto é”, “ou seja”). No trecho, a oração “Quando comecei a perceber...” não explica nada; ela indica quando a ação da principal ocorreu. Não há valor explicativo, mas temporal. Erro: troca de conceito — confunde oração adverbial temporal com oração explicativa.

Conclusão

A vírgula após “funcionava” marca o deslocamento da oração subordinada adverbial temporal anteposta à principal. As demais alternativas confundem essa função com outras (enumeração, adversidade, adição, explicação), que não se aplicam ao trecho. Gabarito: letra A.

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