Nunca gostei do excesso de realidade presente na boca
dos arautos que falam sobre o Rio, seja em mesa de bar,
entrevista de canal a cabo ou seminário de universitárias
charmosas. Na cidade, eu procuro a ficção.
Não se trata de inventar histórias, nem de negar-se ao
mundo, aos objetos e às relações formativas desta civilização
carioca. Trata-se de fruir, de buscar ao longo do dia o direito a
esse instante. Ele é possível até mesmo sob o sol a pino, quando
você é um camelô e arruma fileiras amarelas e vermelhas de
bombons Serenata de Amor sobre a lona de plástico azul na
calçada, imitando a vitrine da loja de roupa de grife atrás.
Neste momento, você deve negar-se a qualquer
entendimento sociológico da vida deste rapaz que produza
compaixão, pois logo em seguida ele vai oferecer três bombons
por um real com uma voz anasalada, num pregão que lembra o
negro que vendia cocada em Dom Casmurro. Ele sabe que a
forma de executar o pregão é decisiva para que você compre ou
não o bombom. Mesmo sem ter lido Machado, ele já se
apropriou das estratégias de ficção.
Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô
funcionava, decidi treinar estratégias de ficção com as pessoas
com as quais convivia. Gosto de ver a reação desse carioca diante
de quem faz uso de estratégias ficcionais. Não resisto a uma roda
na rua, principalmente as do Largo da Carioca. Paro sempre para
ver o tipo que ameaça pular no aro de bicicleta com facas
espetadas para a plateia de office-boys e transeuntes diversos. Ele
nunca pula, mas seus gestos e o seu tom de voz são decisivos no
atraso de documentos de escritórios no centro da cidade.
Não é fácil negar-se ao excesso de realidade. É preciso
treinamento. Gosto de treinar no carnaval. Gosto de ir a Oswaldo
Cruz. Ligo minha câmera e fico sentado no meio-fio esperando a
performática saída de quase cem bate-bolas de um pequeno
portão de chapa de aço. Eles desfilam cores, bexigadas furiosas
no chão e sons incompreensíveis. Melhor mesmo é estar dentro
desse grupo, usando uma dessas fantasias e participando dessa
saída explosiva. De dentro da máscara, nada ao redor é realidade.
Você escolhe como contar.
Marcus Vinícius Faustini. Guia afetivo da periferia.
Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009 (com adaptações).
No texto 2A1-I, a vírgula logo após o vocábulo “funcionava” (em vermelho) é empregada para
Amarcar o deslocamento de uma oração adverbial.
Bisolar elementos que exercem a mesma função sintática.
Cintroduzir uma oração de valor adversativo.
Dseparar orações aditivas com sujeitos diferentes.
Edelimitar uma oração com valor explicativo.
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GabaritoA — marcar o deslocamento de uma oração adverbial.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Função da vírgula após “funcionava”
Gabarito: letra A. A vírgula logo após “funcionava” marca o deslocamento de uma oração adverbial — a oração “Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava” está anteposta à oração principal “decidi treinar estratégias de ficção...”. Como se lê no 4º parágrafo: “Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava, decidi treinar estratégias de ficção”. A oração subordinada adverbial temporal, quando vem antes da principal, exige vírgula para separá-la.
O comando
A questão pergunta para que a vírgula foi empregada — ou seja, qual a função sintática que ela desempenha no período. Não se trata de interpretar o sentido do texto, mas de analisar a estrutura da frase e reconhecer o papel da vírgula na organização das orações. É uma questão de gramática aplicada ao texto.
O texto e a estrutura
No trecho destacado, temos um período composto por subordinação:
“Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava, decidi treinar estratégias de ficção com as pessoas com as quais convivia.”
Oração subordinada adverbial temporal: “Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava” — introduzida pela conjunção “quando”, expressa uma circunstância de tempo.
Oração principal: “decidi treinar estratégias de ficção com as pessoas com as quais convivia”.
A oração adverbial está deslocada (anteposta) em relação à principal. Na ordem direta, ela viria depois: “Decidi treinar estratégias de ficção quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava”. Quando o adjunto adverbial (ou a oração adverbial) é deslocado para o início, a vírgula é obrigatória para marcar essa inversão.
A regra que decide
A vírgula tem, entre suas funções, a de separar adjuntos adverbiais deslocados. Isso vale tanto para o adjunto adverbial simples (ex.: “No parque, as crianças corriam”) quanto para a oração subordinada adverbial anteposta (ex.: “Quando ela chegou, João brincava no parque”). No trecho, a oração “Quando comecei a perceber...” é exatamente uma subordinada adverbial temporal deslocada — por isso a vírgula é obrigatória e sua função é marcar o deslocamento.
PEGA ESSA DICA!
Ao ver uma vírgula após uma oração que começa com “quando”, “se”, “embora”, “como”, “porque” etc., pergunte: essa oração está antes da principal? Se sim, é oração adverbial deslocada — vírgula obrigatória.
Análise das alternativas
Vírgula após oração adverbial deslocada: Oração subordinada adverbial temporal (Anteposta à principal, Vírgula obrigatória); Ordem direta (Principal antes da adverbial, Sem vírgula); Exemplos ("Quando ela chegou, João brincava", "No parque, as crianças corriam")
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A vírgula separa a oração subordinada adverbial temporal “Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava” da oração principal “decidi treinar estratégias de ficção...”. Como a oração adverbial está anteposta (deslocada), a vírgula é obrigatória para marcar essa inversão da ordem direta. É exatamente o que a alternativa afirma: marcar o deslocamento de uma oração adverbial.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa fala em “isolar elementos que exercem a mesma função sintática” — isso ocorre em enumerações (ex.: “Comprei frutas, legumes e carnes”). No trecho, não há uma lista de termos coordenados; há uma oração subordinada anteposta. A vírgula não está separando elementos de mesma função, mas sim duas orações (a subordinada e a principal). Erro: troca de conceito — confunde enumeração com deslocamento de oração.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa fala em “oração de valor adversativo” — isso ocorre com conjunções como “mas”, “porém”, “contudo” (ex.: “Estudou muito, mas não passou”). No trecho, a oração introduzida por “quando” tem valor temporal, não adversativo. Não há oposição entre as ideias; há uma relação de tempo (quando percebi, decidi). Erro: troca de conceito — confunde valor temporal com valor adversativo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa fala em “separar orações aditivas com sujeitos diferentes” — isso ocorre com a conjunção “e” quando as orações têm sujeitos distintos (ex.: “O homem vendeu o carro, e a mulher protestou”). No trecho, não há oração aditiva; há uma subordinada adverbial. Além disso, a vírgula não está separando duas orações coordenadas, mas sim uma subordinada da principal. Erro: troca de conceito — confunde subordinação com coordenação aditiva.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa fala em “delimitar uma oração com valor explicativo” — isso ocorre com orações adjetivas explicativas (ex.: “O livro, que era antigo, caiu”) ou com expressões explicativas (ex.: “isto é”, “ou seja”). No trecho, a oração “Quando comecei a perceber...” não explica nada; ela indica quando a ação da principal ocorreu. Não há valor explicativo, mas temporal. Erro: troca de conceito — confunde oração adverbial temporal com oração explicativa.
Conclusão
A vírgula após “funcionava” marca o deslocamento da oração subordinada adverbial temporal anteposta à principal. As demais alternativas confundem essa função com outras (enumeração, adversidade, adição, explicação), que não se aplicam ao trecho. Gabarito: letra A.