É surpreendente o que a linguagem consegue fazer. Com
poucas sílabas, ela consegue expressar um incalculável número
de pensamentos, a tal ponto que, até para um pensamento pela
primeira vez apreendido por um ser humano, ela encontra uma
roupagem por meio da qual um outro ser humano é capaz de
apreendê-lo, ainda que esse pensamento lhe seja inteiramente
novo. Isso não seria possível se não pudéssemos distinguir no
pensamento partes que correspondem a partes de uma sentença,
de modo que a estrutura da sentença sirva como imagem da
estrutura do pensamento. É verdade que falamos figuradamente
quando aplicamos ao pensamento a relação todo-parte. Essa
analogia, porém, é tão clara e, de modo geral, tão pertinente que
dificilmente nos deixamos perturbar por suas eventuais
imperfeições.
Se encaramos os pensamentos como compostos de partes
simples, e se a estas correspondem, por sua vez, partes simples
da sentença, então podemos compreender como é possível
formar, a partir de poucas partes da sentença, uma grande
variedade de sentenças, às quais, por sua vez, corresponde uma
grande variedade de pensamentos. Cabe aqui perguntar como o
pensamento se constrói e como suas partes são combinadas de
modo que o todo se torne algo mais do que as partes
isoladamente.
Gottlob Frege. Pensamentos compostos. Uma investigação lógica. Tradução: Paulo Alcoforado.
In: Educação e Filosofia. v. 14, n. 27/28, p. 243-268, 2000 (com adaptações).
A correção gramatical e a coerência do texto 2A1-II seriam mantidas caso fosse isolado por vírgulas o trecho
A“quando aplicamos” (em vermelho).
B“ao pensamento” (em verde).
C“no pensamento” (em azul).
D“como imagem” (em roxo).
E“que correspondem” (em laranja).
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GabaritoC — “no pensamento” (em azul).
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Isolamento por vírgulas de trechos do texto 2A1-II
Gabarito: letra C. O trecho “no pensamento” pode ser isolado por vírgulas porque funciona como um adjunto adverbial deslocado — e adjuntos adverbiais deslocados (antepostos ou intercalados) admitem vírgula, sendo ela facultativa quando o adjunto é curto. No trecho original, “no pensamento” está intercalado entre o verbo “distinguir” e seu complemento, e o isolamento por vírgulas preserva tanto a correção gramatical quanto a coerência, como se lê no 1º parágrafo: “se não pudéssemos distinguir no pensamento partes que correspondem a partes de uma sentença”.
O comando da questão
A questão pede que se avalie a manutenção da correção gramatical e da coerência caso um trecho específico seja isolado por vírgulas. Isso não é uma questão de interpretação de sentido, mas de pontuação aplicada à sintaxe: é preciso saber em quais situações a vírgula é facultativa (pode ser inserida sem prejuízo) e em quais é proibida (não pode ser inserida, sob pena de erro). O comando não pergunta “qual trecho deve ser isolado”, mas “qual trecho, se isolado, mantém a correção” — ou seja, busca o caso em que a vírgula é admissível, não obrigatória.
O texto e a estrutura sintática relevante
O trecho-chave está no 1º parágrafo: “Isso não seria possível se não pudéssemos distinguir no pensamento partes que correspondem a partes de uma sentença”. A oração principal é “não pudéssemos distinguir partes”, em que o verbo “distinguir” é transitivo direto e indireto: “distinguir [algo] [em algum lugar]”. O termo “no pensamento” é um adjunto adverbial de lugar (em sentido figurado, “no âmbito do pensamento”), e sua posição natural seria após o complemento: “distinguir partes no pensamento”. Como está deslocado — intercalado entre o verbo e o objeto direto —, admite vírgulas, pois a vírgula serve exatamente para marcar termos deslocados na ordem direta da frase.
A técnica que decide a questão
A regra central é: adjunto adverbial deslocado pode ser isolado por vírgula; se for curto (até duas palavras), a vírgula é facultativa; se for longo (três ou mais palavras), a vírgula é obrigatória. No caso, “no pensamento” é um adjunto curto (duas palavras), portanto a vírgula é facultativa — pode ser inserida sem erro. O que não se pode fazer é separar o verbo de seu complemento (objeto direto) ou o sujeito do verbo, pois isso viola a estrutura sintática. As demais alternativas propõem isolar trechos que são partes integrantes da predicação — como o verbo “aplicamos” (A), o objeto indireto “ao pensamento” (B), o predicativo “como imagem” (D) ou o pronome relativo “que correspondem” (E) —, e isolá-los quebraria a ligação sintática obrigatória entre esses termos.
O gancho: teste cada alternativa perguntando “a vírgula aqui separa o quê?”
Se a vírgula separa um termo acessório e deslocado (adjunto adverbial, aposto, vocativo), ela é válida. Se separa um termo essencial da predicação (verbo de seu complemento, sujeito de verbo, núcleo de seu adjunto), ela é inválida. Aplicando esse teste, apenas “no pensamento” passa: é adjunto adverbial deslocado, curto, e o isolamento é facultativo e correto.
Trecho
Função sintática
Isolamento por vírgulas
“quando aplicamos”
Núcleo verbal da oração subordinada adverbial temporal
❌ Incorreto — separa o verbo de seus complementos
“ao pensamento”
Objeto indireto do verbo “aplicar”
❌ Incorreto — separa o verbo de seu complemento
“no pensamento”
Adjunto adverbial de lugar (figurado), deslocado e curto
✅ Correto — vírgula facultativa em adjunto adverbial deslocado
“como imagem”
Predicativo do objeto
❌ Incorreto — separa o objeto de seu predicativo
“que correspondem”
Núcleo da oração subordinada adjetiva restritiva
❌ Incorreto — restritiva não admite vírgula; quebraria a estrutura
Alternativa A — ❌ Incorreta
Isolar “quando aplicamos” quebraria a estrutura da oração subordinada adverbial temporal “quando aplicamos ao pensamento a relação todo-parte”. O trecho é o núcleo verbal da oração; separá-lo do restante (“ao pensamento a relação todo-parte”) deixaria o verbo sem seus complementos na mesma unidade, o que é gramaticalmente inviável. A vírgula não pode separar o verbo de seus complementos.
Alternativa B — ❌ Incorreta
“ao pensamento” é o objeto indireto do verbo “aplicar” (aplicar algo a algo). Isolá-lo por vírgulas separaria o verbo de seu complemento, o que é proibido pela norma padrão. A vírgula não pode interromper a relação verbo-complemento.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
“no pensamento” é um adjunto adverbial de lugar (figurado), deslocado de sua posição natural (após o objeto direto “partes”). Como adjunto adverbial curto e intercalado, o isolamento por vírgulas é facultativo e correto. A frase “distinguir, no pensamento, partes que correspondem…” mantém a correção gramatical e a coerência, pois o termo isolado é acessório e suprimível sem prejuízo da estrutura.
Alternativa D — ❌ Incorreta
“como imagem” é o predicativo do objeto “a estrutura da sentença” (a estrutura serve como imagem da estrutura do pensamento). Separar o predicativo de seu referente por vírgulas quebraria a relação de complementação, o que é gramaticalmente incorreto. A vírgula não pode separar o objeto de seu predicativo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
“que correspondem” inicia uma oração subordinada adjetiva restritiva (“partes que correspondem a partes de uma sentença”). Orações adjetivas restritivas não podem ser isoladas por vírgulas, pois isso as transformaria em explicativas, alterando o sentido (de “apenas as partes que correspondem” para “todas as partes, que por acaso correspondem”). Além disso, isolar apenas o pronome relativo e o verbo quebraria a estrutura da oração.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre termos acessórios (que admitem vírgula) e termos essenciais da predicação (que não admitem). O candidato que não identifica a função sintática de cada trecho tende a escolher qualquer um, mas só o adjunto adverbial deslocado é isolável.
PEGA ESSA DICA!
Antes de marcar, pergunte: “esse trecho é um termo que pode ser retirado da frase sem quebrar a estrutura?”. Se sim, é acessório e admite vírgula; se não, é essencial e a vírgula é proibida.
Gabarito: letra C — apenas “no pensamento” é um adjunto adverbial deslocado, cujo isolamento por vírgulas é facultativo e gramaticalmente correto.