Questão de Português — Conjunção — CESPE / CEBRASPE 2025
Português›Conjunção
Código
ce414678
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEFAZ RJ
Ano
2025
Cargo
AFRE RJ
Texto 2A1-II
É surpreendente o que a linguagem consegue fazer. Com
poucas sílabas, ela consegue expressar um incalculável número
de pensamentos, a tal ponto que, até para um pensamento pela
primeira vez apreendido por um ser humano, ela encontra uma
roupagem por meio da qual um outro ser humano é capaz de
apreendê-lo, ainda que esse pensamento lhe seja inteiramente
novo. Isso não seria possível se não pudéssemos distinguir no
pensamento partes que correspondem a partes de uma sentença,
de modo que a estrutura da sentença sirva como imagem da
estrutura do pensamento. É verdade que falamos figuradamente
quando aplicamos ao pensamento a relação todo-parte. Essa
analogia, porém, é tão clara e, de modo geral, tão pertinente que
dificilmente nos deixamos perturbar por suas eventuais
imperfeições.
Se encaramos os pensamentos como compostos de partes
simples, e se a estas correspondem, por sua vez, partes simples
da sentença, então podemos compreender como é possível
formar, a partir de poucas partes da sentença, uma grande
variedade de sentenças, às quais, por sua vez, corresponde uma
grande variedade de pensamentos. Cabe aqui perguntar como o
pensamento se constrói e como suas partes são combinadas de
modo que o todo se torne algo mais do que as partes
isoladamente.
Gottlob Frege. Pensamentos compostos. Uma investigação lógica. Tradução: Paulo Alcoforado.
In: Educação e Filosofia. v. 14, n. 27/28, p. 243-268, 2000 (com adaptações).
Assinale a opção em que há correta correspondência entre o termo destacado e seu respectivo valor semântico no texto 2A1-II.
A“que” (em vermelho) – consequência
B“como”, em “como compostos de partes simples” (em verde) – causa
C“por” (em azul) – lugar
D“Com” (em verde) – companhia
E“ainda” (em laranja) – tempo
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GabaritoA — “que” (em vermelho) – consequência
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Valor semântico dos conectivos no texto de Frege
Gabarito: letra A. O vocábulo “que”, no trecho “a tal ponto que, até para um pensamento pela primeira vez apreendido por um ser humano, ela encontra uma roupagem”, introduz uma consequência — “a tal ponto que” equivale a “de tal modo que”. A banca pede a correspondência entre o termo destacado e seu valor semântico, e a única opção correta é a A, pois o “que” aí é uma conjunção subordinativa consecutiva, ligando a intensidade expressa por “a tal ponto” ao efeito que dela decorre.
O comando da questão
O enunciado pede que você assinale a opção em que há correta correspondência entre o termo destacado e seu respectivo valor semântico. Isso é uma questão de semântica contextual: não basta saber a classe gramatical da palavra; é preciso analisar como ela funciona naquele trecho específico. A banca (CESPE) adora explorar a polissemia dos conectivos — o mesmo “que” pode ser pronome relativo, conjunção integrante, conjunção causal, consecutiva, comparativa etc. A chave é sempre voltar ao texto e ver qual relação lógica a palavra estabelece entre as ideias.
O texto e o movimento argumentativo
O texto de Frege discute como a linguagem consegue expressar um número incalculável de pensamentos com poucas sílabas. No primeiro parágrafo, ele afirma que isso só é possível porque a estrutura da sentença espelha a estrutura do pensamento. O trecho-chave para a questão é:
“a tal ponto que, até para um pensamento pela primeira vez apreendido por um ser humano, ela encontra uma roupagem por meio da qual um outro ser humano é capaz de apreendê-lo”
A expressão “a tal ponto que” é uma locução conjuntiva consecutiva: indica que a consequência (a linguagem encontrar uma roupagem) decorre da intensidade da ideia anterior (a capacidade de expressar inúmeros pensamentos). É exatamente o valor de consequência.
A técnica para resolver
Para cada termo destacado, pergunte: que relação lógica ele estabelece entre as ideias? Não se prenda ao sentido isolado da palavra; veja o contexto. Por exemplo:
“que” em “a tal ponto que” → consequência (correto).
“como” em “como compostos de partes simples” → comparação (não causa).
“por” em “por meio da qual” → instrumento/meio (não lugar).
“Com” em “Com poucas sílabas” → instrumento/meio (não companhia).
“ainda” em “ainda que” → concessão (não tempo).
Análise das alternativas
Conectivos e seus valores: "que" (a tal ponto que) (Consequência (gabarito)); "como" (compostos de partes simples) (Comparação); "por" (por meio da qual) (Instrumento/meio); "Com" (com poucas sílabas) (Instrumento/meio); "ainda" (ainda que) (Concessão)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O “que” em “a tal ponto que” é uma conjunção subordinativa consecutiva. A locução “a tal ponto que” equivale a “de tal modo que” e introduz a consequência de uma intensidade expressa anteriormente. No texto:
“a tal ponto que, até para um pensamento pela primeira vez apreendido por um ser humano, ela encontra uma roupagem”
A consequência é “ela encontra uma roupagem”. Portanto, a correspondência está correta.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O “como” em “como compostos de partes simples” tem valor comparativo, não causal. O trecho completo é:
“Se encaramos os pensamentos como compostos de partes simples”
Aqui, “como” significa “na qualidade de”, “a exemplo de” — estabelece uma comparação entre os pensamentos e algo composto de partes simples. Não há relação de causa. A banca tenta confundir com o “como” causal (ex.: “Como choveu, não saí”), mas o contexto é claramente comparativo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O “por” em “por meio da qual” indica instrumento/meio, não lugar. O trecho é:
“ela encontra uma roupagem por meio da qual um outro ser humano é capaz de apreendê-lo”
“Por meio da qual” = “através da qual”, “pela qual” — expressa o meio pelo qual algo é feito. Não há ideia de lugar (como em “por aqui”, “por ali”). A banca explora a polissemia da preposição “por”, que pode indicar lugar, causa, meio etc., mas aqui é claramente instrumento.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O “Com” em “Com poucas sílabas” indica instrumento/meio, não companhia. O trecho é:
“Com poucas sílabas, ela consegue expressar um incalculável número de pensamentos”
“Com poucas sílabas” = “usando poucas sílabas” — é o instrumento pelo qual a linguagem expressa pensamentos. Não há ideia de companhia (como em “saiu com os amigos”). A banca tenta confundir com o “com” de companhia, mas o contexto é de meio.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O “ainda” em “ainda que” tem valor concessivo, não temporal. O trecho é:
“ainda que esse pensamento lhe seja inteiramente novo”
“Ainda que” é uma locução conjuntiva concessiva — equivale a “embora”, “mesmo que”. Indica uma concessão, uma ressalva: mesmo que o pensamento seja novo, a linguagem encontra uma roupagem. Não há ideia de tempo (como em “ainda não cheguei”). A banca explora o “ainda” temporal, mas aqui ele faz parte de uma locução concessiva.
Conclusão
A única alternativa correta é a letra A, pois o “que” em “a tal ponto que” é uma conjunção consecutiva, indicando consequência. As demais alternativas erram ao atribuir valores semânticos que não correspondem ao contexto: “como” é comparativo, “por” é instrumento, “Com” é instrumento e “ainda” é concessivo.
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões de valor semântico de conectivos, sublinhe o termo destacado e leia a frase inteira — o sentido só se revela no contexto. Desconfie de valores “padrão” (como “por” = lugar) e verifique sempre a relação lógica entre as ideias.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a polissemia dos conectivos: o mesmo “que” pode ser consecutivo, causal, integrante etc.; o candidato deve analisar o contexto. Aqui, a pegadinha está em confundir “como” (comparativo) com causal, e “ainda” (concessivo) com temporal.